Mercado Financeiro na Pandemia: Um Ano Depois


Volta do carnaval deste ano em nada se assemelha ao choque de realidade observado no mesmo período em 2020, quando pandemia de coronavírus abalou o mercado global


A volta do carnaval deste ano em nada se assemelha ao observado em 2020, quando o mercado financeiro teve um choque de realidade em relação à disseminação do coronavírus no mundo e entrou em uma espiral negativa, que só foi interrompida com o resgate do Federal Reserve, em março, seguido por outros bancos centrais e governos. A colossal injeção de liquidez descolou os ativos de risco da economia real, alimentando bolhas.

Quase um ano depois, pacotes monetários e fiscais, em especial nos Estados Unidos, seguem sendo necessários para garantir a retomada econômica global, que ainda não veio. Por isso, a aposta de que novas ações serão lançadas pelos países sustenta o apetite dos investidores. O empenho da Casa Branca em aprovar mais US$ 1,9 trilhão em estímulos mantém Wall Street no topo histórico e impulsiona as commodities.

Os ativos brasileiros negociados em Nova York (ETF e ADRs) encerraram em alta ontem, garantindo um ajuste positivo à Bolsa brasileira, que retoma as negociações hoje à tarde. Nesta manhã, os índices futuros do Dow Jones e do S&P 500 exibiam leves baixas, após uma sessão errática ontem, enquanto as bolsas europeias amanheceram no vermelho. O petróleo segura a marca de US$ 60 por barril e o dólar se fortalece. Xangai segue fechada.

Esse movimento dos mercados internacionais é um reflexo da tese global em torno da chamada “reflação” - termo oposto à desinflação e que se refere à inflação resultante de uma retomada acelerada da economia após um período de recessão, provocada justamente pelo uso agressivo de estímulos para aquecer a demanda. Essa perspectiva alimenta o rali por risco, impulsionando desde os metais básicos ao Bitcoin, que chegou a US$ 50 mil.

Ao mesmo tempo, o rendimento (yield) do título norte-americano de 10 anos (T-note) caiu abaixo de 1,30%, depois de alcançar o maior nível desde fevereiro de 2020 - aquele mês de carnaval, citado acima, quando o mercado caiu na real. Porém, desde então, os ativos de risco saíram de uma tendência de baixa (bear market) e continuam em uma trajetória ascendente, avolumando os ganhos provenientes após a crise financeira de 2008.

O salto no rendimento das Treasuries leva os investidores a se perguntarem mais uma vez até onde os ativos de risco podem subir antes de interromper o movimento. A euforia especulativa torna plausível um recuo nas ações norte-americanas, por exemplo, diante dos níveis esticados de preços. Mas a previsão de que a economia dos EUA vai ganhar tração sustenta a hipótese de que eventuais correções podem vir seguidas de ainda mais ganhos.

Portanto, é sempre uma situação nervosa quando os mercados globais continuam fazendo novas máximas, cravando sucessivos recordes históricos, com essas marcas sendo alcançadas à medida que os investidores precisam sair de uma zona de conforto em busca de maiores retornos. Mas, certamente, há muita espuma em vários ativos. Resta saber qual deles irá entrar em modo de correção (primeiro) - e quando.

Brasil na contramão

A perspectiva de que a economia global vai voltar aos níveis pré-pandêmicos é amparada pelo lançamento das vacinas contra a covid-19. Mas o ritmo da vacinação aquém do desejado em várias partes do mundo testa esse otimismo. E o Brasil é destaque nessa lentidão. Várias capitais e cidades do país começaram a interromper a vacinação contra a covid-19, à medida que as doses da vacina vão chegando ao fim e não há um cronograma de entrega.

Além disso, o Brasil está na contramão da tendência mundial de queda de mortes pela doença. Após as festas de fim de ano e em meio às férias de verão, janeiro bateu recorde no total de óbitos por covid-19 no país. Segundo levantamento da imprensa, mais de 240 mil pessoas morreram desde o início da pandemia e quase 10 milhões foram contaminadas pelo coronavírus - o equivalente a quase toda a população da cidade chinesa de Wuhan.

A diferença em relação ao primeiro epicentro global do coronavírus é que aqui no Brasil o contágio segue fora de controle e o país ainda deve enfrentar um agravamento do quadro sanitário, diante da falta de medidas mais rígidas de isolamento e da influência de novas variantes. Com isso, o mercado financeiro dá como certo que o governo terá de remediar as mazelas econômicas da pandemia, dada a inépcia na prevenção da doença.

A expectativa era de que os investidores iriam voltar da pausa forçada do carnaval deste ano já sabendo dos detalhes do novo auxílio emergencial, mas não há nada oficial sobre o valor do benefício nem o total de parcelas. Por ora, a única certeza é que metade dos beneficiários do ano passado serão atendidos, totalizando pouco mais de 30 milhões de brasileiros. Tampouco se sabe como o governo irá acomodar essa expansão fiscal.

Expectativa X Realidade

A cena política é destaque nesta semana curta de negócios. A agenda de combate aos impactos da covid-19 inclui também a renovação dos programas que garantem um complemento de renda aos trabalhadores com salário e jornada reduzidos e o crédito voltado a micro e pequenas empresas. Há, ainda, demanda de categorias específicas, como a dos caminhoneiros, e de alguns setores da atividade, como o de serviços e turismo.

Na outra agenda, está a pressão do Centrão pelo pagamento da fatura dos compromissos assumidos para eleger os dois candidatos apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro. A conta inclui mais emendas parlamentares para obras públicas, nomeação de indicados para cargos no governo - via a criação de ministérios - e demandas por mais recursos no Orçamento de 2021, que sequer foi votado.

Eis, então, o desafio do Palácio do Planalto. Atender aos interesses de grupos tão diferentes que apoiaram a eleição de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco sem “furar” o “teto dos gastos”. O ministro da Economia, Paulo Guedes, ainda busca alguma contrapartida fiscal, mas ele continua sonhando com realização da “lista de desejos” entregue ao Congresso, que incluem a PEC Emergencial, as reformas tributária e administrativa e privatizações.

Diante de tantas expectativas, o mercado doméstico pode acabar caindo na real, pois o protagonismo dos presidentes da Câmara e do Senado deve prevalecer, tendo o respaldo do governo. Ainda mais após a demonstração de força do Centrão na votação da autonomia do Banco Central. A aprovação do projeto criou a ilusão de que a agenda de reformas vai andar, mas os próximos dias serão de jogo duro em relação ao regime fiscal.

Além da queda de braço entre governo e Congresso, pode haver um aumento da tensão entre os Três Poderes, após a prisão em flagrante do deputado bolsonarista Daniel Silveira, que defendeu fechar a Suprema Corte (STF) e fez apologia ao AI-5. Lá fora, destaques para as atas das reuniões de janeiro do Fed e do Banco Central Europeu (BCE), hoje e amanhã, além de dados de atividade nos EUA e na zona do euro, na sexta-feira.

Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia:

*Horários de Brasília

Quarta-feira: A Bolsa brasileira abre o pregão às 13h, na volta da pausa prolongada de carnaval, enquanto a Bolsa de Xangai permanece fechada devido às festividades do Ano Novo Lunar. Entre os indicadores econômicos, por aqui, o Banco Central publica o relatório de mercado Focus (12h) e os dados sobre a entrada e saída de dólares (fluxo cambial) no país (14h30). Também serão conhecidos os dados semanais da balança comercial (15h). Lá fora, merecem atenção os dados de atividade nos EUA em janeiro sobre o desempenho da indústria e do varejo, ambos às 10h30. No mesmo horário, sai o índice de preços ao produtor norte-americano (PPI) no mês passado. À tarde, é a vez da ata da primeira reunião de política monetária do Federal Reserve neste ano (16h). Antes, às 12h, saem os estoques nas empresas dos EUA em dezembro e também o índice de confiança das construtoras neste mês.

Quinta-feira: A agenda econômica doméstica perde força e traz apenas a segunda prévia deste mês do IGP-M. Lá fora, é a vez da ata da reunião do mês passado do Banco Central Europeu (BCE). Também serão conhecidos indicadores dos EUA sobre o setor imobiliário e os preços de importação e exportação, além dos dados semanais sobre seguro-desemprego e os estoques de petróleo.

Sexta-feira: O calendário no Brasil está esvaziado, enquanto no exterior saem dados preliminares deste mês sobre a atividade nos setores industrial e de serviços nos EUA e na zona do euro.

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