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A inflação, o dólar e o tigre

  • há 3 horas
  • 3 min de leitura
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Preços ao consumidor sobem no Brasil e nos EUA, mas é o dólar que perde força — e o movimento revela uma disputa de poder

A inflação ao consumidor subiu 0,9% em março, no maior aumento mensal desde 2022. Essa foi a chamada da imprensa na última sexta-feira (10). A taxa servia para realçar a alta dos preços no mês no varejo, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. No noticiário local, a ênfase recaiu, como de costume, sobre o impacto no bolso dos brasileiros. 


Só que, no fim, foi o real que se valorizou.


O problema é que a leitura isolada da inflação diz pouco quando o movimento relevante estava no câmbio. Poucos dias depois da divulgação dos índices oficiais de preços, os mesmos veículos passaram a destacar a queda do dólar para abaixo de R$ 5,00 pela primeira vez em mais de dois anos. 


Em termos relativos, é o consumidor nos EUA quem sente mais a perda do poder de compra de sua moeda do que o cidadão brasileiro. Em outras palavras, não é o real que está forte, mas o dólar que perdeu força — e o custo de vida nos EUA ficou mais alto. Trata-se de uma dificuldade recorrente em enxergar o que, de fato, está acontecendo. No fim, a discussão não era sobre inflação, mas sobre quem sustenta o valor da própria moeda.


No mercado financeiro


O comportamento das moedas reflete uma série de fatores. O principal continua sendo a escalada militar dos EUA e de Israel contra o Irã, no fim de fevereiro, menos de dois meses após a operação na Venezuela. Em represália, o país persa mantém o Estreito de Ormuz fechado desde então. O bloqueio impacta o transporte global de mercadorias, em especial, do petróleo — cujo preço do barril oscila perto de US$ 100 há cerca de um mês. 


Ou seja, o mercado não está reagindo à inflação: está reagindo à energia. Aos olhos dos investidores estrangeiros, o real “é” o petróleo. Esse entendimento dos gringos se traduz em dois vetores. O primeiro é o Ibovespa. Não por acaso, o principal índice acionário doméstico flerta com a marca histórica dos 200 mil pontos. Para quem olha de fora, a bolsa brasileira segue concentrada em empresas ligadas a commodities


O segundo vetor é a balança comercial. Também não foi um acaso a alta de 70% nas exportações de petróleo bruto em março. Ainda assim, o destaque do noticiário foi o superávit abaixo do esperado, em US$ 6,4 bilhões. 


A questão é que o saldo positivo teria sido bem menor não fossem os US$ 4,77 bilhões em vendas de petróleo ao exterior — quase o dobro do valor exportado um ano antes. Em volume, o aumento foi de quase 80%. Dados parciais de abril mostram que o ritmo se mantém.  


Na geopolítica mundial


A dinâmica dos mercados globais e os desdobramentos da economia real como resultado da guerra no Oriente Médio ajudam a iluminar uma ideia antiga. Em agosto de 1946, Mao Zedong descreveu o imperialismo como um “tigre de papel” (纸老虎): visto de fora, parece forte e poderoso, mas carrega fragilidades em sua base de sustentação. 


A metáfora não nega o poder de destruição. Ao contrário: “são tigres vivos, capazes de devorar as pessoas”, diria Mao. O ponto era outro: a força militar não garante, por si só, a capacidade de sustentar uma ordem no longo prazo. 


Hoje, o discurso dominante tende a traduzir conflitos em termos de preço — seja no mercado global, seja no orçamento doméstico. Mas o que está em curso não é uma disputa de preços: é uma disputa de poder


Apesar da ascensão da China, os EUA ainda exercem um papel central na estrutura da ordem global, apoiados em sua superioridade tecnológica, militar e financeira. Os movimentos recentes indicam uma tentativa de preservar essa posição. 


Por isso, os acontecimentos de 2026 dizem menos sobre eventos isolados e mais sobre uma velha ordem que insiste em manter sua hegemonia. Em outras palavras, a Casa Branca mirou na América Latina e no Oriente Médio, mas o alvo estava na Ásia. 


Acontece que, do outro lado do mundo, a segurança energética não passa por Ormuz. O verdadeiro objetivo de Pequim é a eletrificação. Dito de outra forma, a energia na China será fabricada — “made in China”, literalmente. 


É aí que o tigre revela sua fragilidade: enquanto Washington tenta controlar fluxos, a China trabalha para fabricar a própria base material de energia.


Parte das leituras da Bula do Mercado seguirá aberta aqui. Outra parte — mais estruturada e contínua — passa a ser desenvolvida na Imagelab.

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