Mercado de volta ao passado


Ativos de risco no Brasil têm sensação de déjà vu, com ingerência política no Banco do Brasil e acúmulo de riscos inflacionários e fiscais apontando para alta da Selic


O noticiário local prevaleceu no mercado doméstico ontem, deixando claro que os ativos locais não vão conseguir passar incólumes dos problemas internos, sendo influenciados apenas pelos ventos vindos do exterior. Apesar da cautela com a abertura do segundo processo de impeachment movido contra o presidente em fim de mandato nos Estados Unidos, Donald Trump, os negócios no Brasil têm uma sensação de déjà vu.

A tal da ingerência política volta a assombrar os investidores, após a demissão do presidente do Banco do Brasil, André Brandão, a pedido do presidente Jair Bolsonaro, que não estaria nada satisfeito com o plano do banco estatal de fechar agências e demitir 5 mil funcionários de forma voluntária. Além de temer um desgaste político, cada vez mais de olho em 2022, o Palácio do Planalto estaria também atendendo demandas de aliados.

Os rumores da notícia, confirmado após o fechamento do pregão da Bolsa, levaram a ação do BB a cair quase 5%, e a interferência do presidente no banco deve continuar pesando hoje. Afinal, até um passado não muito distante, “a mão pesada do Estado” em estatais incomodou, e muito, os investidores, que sabem bem como essas histórias terminam. O ministro Paulo Guedes apoiou Brandão, mas não deve reverter a decisão do presidente.

No mercado de juros futuros, o déjà vu foi de apenas um dia. Após o tombo do dólar no pregão anterior, quando registrou a maior queda diária desde meados de junho de 2018, a curva a termo local recompôs prêmios, resgatando a trajetória recente que havia sido interrompida por causa do movimento nada usual do câmbio. Os investidores revivem o ambiente de pressão inflacionária e risco fiscal para vislumbrar o ciclo de alta da Selic.

É crescente a expectativa de que está cada vez mais perto a retirada da ferramenta de orientação futura (forward guidance) do comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom). Na última reunião, em dezembro, o Banco Central indicou que esse seria o primeiro passo antes de iniciar o processo de aperto dos juros básicos. Portanto, a mensagem do encontro da semana que vem pode ter novidades.

Há quem diga que ainda é prematuro fomentar a expectativa de uma alta da taxa Selic já no primeiro semestre - quiçá trimestre - deste ano. O desemprego em níveis recordes e a perda de renda da população combinados com os erros e omissões do governo federal no combate à pandemia, como a demora na imunização contra a covid-19 e o aumento descontrolado de casos e mortes da doença no Brasil, jogam contra essa perspectiva. Afinal, o cenário é quase tão igual ao de 2020 - no seu pior momento.

Mas o dólar já reflete um juro real (taxa nominal descontada a inflação) mais alto por aqui. A lista de eventos do passado que se repetem por aqui se completa com o alerta da Moody’s, que deixou clara a possibilidade de rebaixar a nota de risco de crédito (rating) do Brasil, dizendo que o atraso na agenda de reformas terá impacto no perfil da dívida do país - algo que tampouco é novidade. Para a agência de classificação, persistem os riscos de "furar" o "teto dos gastos" diante dos desafios da pandemia.

Great Reset

A questão é que o mundo está em nível desigual de recuperação, após a pandemia de coronavírus horizontalizar todos os países, derrubando suas economias. Quem conseguiu conter a disseminação, quebrando a cadeia de infecção do vírus e depois administrando novos surtos através do rígido rastreamento e controle de contágio, acabou largando na frente. É o caso da China, que deve ser a única grande potência a crescer em 2020.

Ainda que o inverno rigoroso por lá e o surgimento de casos localizados em várias cidades tenham levado a novas medidas restritivas recentemente, intensificando o isolamento social e o fechamento (lockdown), o primeiro país a lidar efetivamente com a covid-19 encerrou 2020 com recorde nas exportações, continuando a ser o “chão de fábrica” enquanto boa parte do mundo permanecia paralisada.

As exportações chinesas aumentaram 3,6% no ano passado em relação ao ano anterior, atingindo uma alta histórica, ao passo que as importações caíram 1,1%, na mesma base de comparação. Com isso, o saldo da balança comercial da China foi de US$ 535 bilhões no período. Em dezembro, os embarques cresceram 18,1%, acima da previsão (+12,9%), embora em ritmo mais lento que em novembro. Da mesma forma, as compras feitas pelo país no exterior avançaram 6,5%, ante +4,5% no mês anterior e estimativa de +5,1%.

Os números, porém, tiveram pouco impacto nos mercados internacionais, com os investidores mais atentos à nova rodada de estímulos fiscais a ser anunciada hoje pelo presidente eleito Joe Biden. A expectativa é de que detalhe o pacote de US$ 2 trilhões em medidas para combater a pandemia e impulsionar a economia. Ou seja, enquanto o Brasil ainda lida com a doença e a China recupera a atividade, os EUA tentam sair do limbo.

Os investidores mostram maior apetite pela liquidez financeira do que pela produção de coisas, o que sustenta os índices futuros das bolsas de Nova York em alta nesta manhã. Porém, a perspectiva de mais gastos pela Casa Branca pressiona o rendimento (yield) dos títulos norte-americanos (Treasuries), com o juro projetado pelo papel de 10 anos (T-note) seguindo na marca de 1,10%. Com isso, o dólar mede forças em relação às moedas rivais.

BCs em destaque no exterior

O calendário econômico no Brasil perde força, trazendo apenas os dados regionais da produção industrial em novembro (9h), o que desloca as atenções para o exterior, onde os bancos centrais dos EUA e da zona do euro roubam a cena. O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, participa de um evento, às 14h30.

Antes, às 10h30, saem os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos nos EUA e os preços de importação e de exportação no país em dezembro. Na zona do euro, destaque para a publicação da ata da reunião de dezembro do Banco Central Europeu (BCE), às 9h30.


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