Mal-estar na política brasileira afasta rali externo


Protagonismo do Centrão nas negociações sobre auxílio emergencial assusta os investidores, minando credibilidade de Bolsonaro e Guedes na condução da pauta


A instalação da Comissão Mista de Orçamento (CMO) e a votação em regime de urgência da autonomia do Banco Central, previstas para hoje, podem até servir de alento ao mercado financeiro. Mas o que os investidores querem mesmo saber é se a nova rodada do auxílio emergencial vai furar o teto dos gastos e se a agenda de reformas vai andar no Congresso. Ainda mais com a equipe econômica e o Palácio do Planalto dando aval ao Centrão.

O ministro Paulo Guedes (Economia) quer que o Congresso aprove um novo “Orçamento de Guerra” para liberar novos pagamentos aos mais vulneráveis à pandemia. Mas o pedido dele é complicado, pois demanda uma Emenda à Constituição (PEC), cujo debate leva mais tempo e precisa de dois terços dos votos para ser aprovada. Os parlamentares defendem que a volta do benefício social “é para ontem” - como disse o presidente Jair Bolsonaro.

Aliás, a tática do presidente de tentar agradar a plateia de momento não passa muita credibilidade. Afinal, é difícil satisfazer apoiadores tão diferentes, o que acaba abrindo espaço para o protagonismo dos recém-eleitos Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, cujas intenções e capacidades para aprovar o Orçamento deste ano assustam os investidores. E aí que fica claro que não foi o Centrão que se uniu ao governo.

Ao contrário, Bolsonaro cedeu às pressões do bloco de partidos e acabou vendo os aliados assumirem o comando nas negociações das pautas de interesse do governo na Câmara e no Senado. O temor de que não haveria uma liderança política no Legislativo para conduzir as propostas vai se confirmando. Ao presidente e ao ministro Guedes cabe apenas chancelar a discussão.

Exterior nem aí

Esse mal-estar da política nacional descola os ativos locais do rali no exterior, onde os investidores alimentam expectativas em relação a um novo pacote fiscal trilionário nos Estados Unidos, capaz de acelerar a recuperação econômica dos impactos da pandemia ainda em 2021. A esperança por mais estímulos e a melhora na tendência de disseminação do coronavírus no mundo sustenta os índices futuros das bolsas de Nova York em nível recorde.

A abertura do pregão europeu é embalada pelo sinal positivo vindo do outro lado do Atlântico Norte e também da Ásia, no último pregão da semana em vários mercados da região, devido às comemorações do Ano Novo Lunar. Destaque para os ganhos de mais de 1% em Xangai e de quase 2% em Hong Kong, antes da chegada do Ano do Boi - animal que, no mercado de ações, representa uma trajetória de alta (bull market).

Aliás, o único ativo perdedor no mundo é o dólar, que cede terreno às moedas rivais, servindo de impulso às commodities industriais e metálicas. Porém, o petróleo encontra dificuldades para firmar-se na faixa de US$ 60 por barril, após cravar a maior sequência de ganhos em dois anos. Já o rendimento (yield) do título norte-americano de 10 anos (T-note) oscila ao redor de 1,16%

Sabe-se que esse comportamento dos ativos globais, em geral, deve-se à discussão crescente no mercado internacional sobre a tal da “reflação” - termo que significa o oposto da desinflação e que se refere à inflação resultante de uma retomada acelerada da economia após um período de recessão, provocada pelo uso agressivo de estímulos fiscais e monetários para aquecer a demanda.

A questão é que se as ações estão em alta por causa da “reflação”, as commodities estão em alta por causa da “reflação”, os rendimentos dos títulos dos EUA estão em alta por causa da “reflação” e até os ativos mais arriscados (junk) estão em alta por causa da “reflação”, em algum momento, alguma tendência será interrompida, com o aumento nas expectativas de inflação nos EUA intensificando o debate sobre os “preços esticados”. Resta saber qual ativo irá entrar em modo de correção (primeiro).

Alguma dúvida?

Agenda tem BCs e Varejo

As atenções do dia se dividem entre as vendas no varejo brasileiro (9h), que devem engatar a segunda queda seguida em dezembro, e a participação de presidentes de bancos centrais em diferentes eventos. Jerome Powell, do Federal Reserve, fala em evento em Nova York sobre o mercado de trabalho nos EUA (16h).

Mais cedo, o presidente do BC inglês, Andrew Bailey, discursa em Londres. Pela manhã, a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, participa de um webinar (10h) organizado pela revista The Economist.

Entre os indicadores econômicos, também serão conhecidos os dados semanais sobre a entrada e saída de dólares (fluxo cambial) no Brasil (14h30) e sobre os estoques de petróleo bruto e derivados nos EUA (12h30).

Ainda no calendário norte-americano, saem a inflação ao consumidor (CPI) em janeiro (10h30), os estoques no atacado em dezembro (12h) e o Orçamento do Tesouro dos EUA no mês passado (16h).


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