Contra fluxo não há argumentos


Expectativa por gastos adicionais no governo Biden alimenta apetite por risco, ofuscando Incertezas sobre fim do mandato de Trump e eleições no Congresso Nacional


A promessa de mais um pacote de trilhões de dólares feita pelo presidente eleito Joe Biden prevaleceu no mercado financeiro ontem, que vê o plano democrata de elevar para US$ 2 mil a ajuda aos norte-americanos como o primeiro ato do novo governo. A ausência de um movimento consistente de venda de risco, em meio à presença de mais compradores que vendedores, inibe uma desvalorização dos ativos, embora o ambiente para os negócios siga indefinido pela eleição no Congresso Nacional e pela troca de comando dos Estados Unidos.

As ameaças ao mandato de Donald Trump na Casa Branca podem ter novos lances hoje, após o vice-presidente Mike Pence rejeitar o ultimato dado pela Câmara dos Representantes de invocar uma emenda constitucional para afastar o titular do cargo. Com isso, a Casa deve votar hoje um pedido de impeachment, que deve ser aprovado. Ainda pairam dúvidas sobre a questão no Senado.

Os democratas querem tirar proveito da perda de controle do presidente sobre o partido republicano, com alguns legisladores manifestando publicamente apoio ao afastamento de Trump. Já as incertezas sobre o comportamento de seus apoiadores no dia da posse perderam força. A turma do "deixa disso" tem agido para evitar manobras perigosas, com a transição de poder em 20 de janeiro caminhando na direção de menos tensão.

No Brasil, ruídos políticos provocam mais volatilidade nos negócios. Os investidores não veem com bons olhos a possibilidade de o candidato do presidente Jair Bolsonaro, o deputado Arthur Lira, comandar a Câmara. Preferem alguém com pulso firme para conduzir a agenda de reformas e os delicados temas fiscais. Aos olhos do mercado, essa pauta de votações em jogo precisa de condução mais profissional para um desenlace razoável.

Por mais que a avaliação da cena política local dê a sensação de jogo de torcida, tão polarizada desde 2018, os investidores sabem - ou ao menos deveriam saber - que soluções econômicas passam por decisões estratégicas do governo e do Congresso. Ou preferem acreditar que o cenário externo favorável aos ativos de risco é capaz de ofuscar o desconforto com a pandemia e a deterioração das contas públicas?

Por inércia

Seja como for, o jargão do mercado que diz que “contra fluxo, não há argumentos” predomina, em meio à colossal liquidez de recursos jorrada pelos principais bancos centrais do mundo, liderados pelo Federal Reserve. Essa premissa limita qualquer tentativa do “King Dollar” manter seu reinado. Tanto que após ter se fortalecido nos últimos dias, a moeda norte-americana cai pelo segundo dia seguido em relação às moedas rivais.

Da mesma forma, a expectativa de que o Fed irá resistir às especulações de reduzir as compras de ativos em breve, mantendo uma postura suave (“dovish”) na política monetária, alimenta o apetite por risco, o que sustenta os índices futuros das bolsas de Nova York no azul, com essa sinalização positiva tentando embalar a abertura do pregão europeu. Na Ásia, Xangai e Hong Kong tiveram perdas moderadas, enquanto Tóquio subiu 1%.

O movimento do dólar está correlacionado à trajetória nos rendimentos (yields) dos títulos do Tesouro do EUA (Treasuries), que continuam recuando das máximas desde março, com o juro projetado pelo papel de 10 anos (T-note) ficando levemente acima da marca de 1,10%. O comportamento do dólar, por sua vez, ajuda as moedas de países emergentes e também o petróleo, que caminha para a sequência mais longa de altas em quase dois anos.

De um modo geral, a perspectiva de mudança na política fiscal norte-americana, com gastos adicionais e aumento na emissão de títulos soberanos, combinada à continuidade da vacinação contra a covid-19 alimentam expectativas em relação à recuperação econômica global, liderada pelos EUA. Ao mesmo tempo, os investidores parecem perder a referência do risco em lugares onde a pandemia ainda assusta e a flexibilidade da dívida é restrita.

Agenda ganha força

Na agenda econômica do dia, o destaque local fica com mais um indicador de atividade, desta vez, sobre o desempenho do setor de serviços em novembro, às 9h. No mesmo horário, saem os dados atualizados da safra agrícola até dezembro. No exterior, o calendário de divulgações, enfim, ganha força, trazendo a inflação ao consumidor norte-americano (CPI), às 10h30. Logo cedo, tem a produção industrial na zona do euro.


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