Mercado espera resgate do Copom

05.02.2020

 
 

Hoje é dia de decisão do Comitê de Política Monetária (18h) e a expectativa majoritária é de um novo corte na taxa básica de juros, para 4,25%, o que desloca o foco para o tom do comunicado. A dúvida é se o Copom irá encerrar o ciclo ou deixar a porta aberta para novas quedas em março. Aliás, o mercado financeiro continua se apoiando na perspectiva de que os bancos centrais globais continuarão lançando estímulos e despejando dinheiro nos negócios, para impedir uma forte correção nos preços dos ativos.     

 

Por ora, isso tem impedido uma renovada onda vendedora (sell off) na Bolsa de Xangai, que hoje fechou em alta de 1,25%, apesar da queda maior que a esperada do setor de serviços chinês em janeiro para o menor nível em três meses. As demais bolsas na Ásia também subiram, diante do otimismo de que as medidas adotadas por Pequim irão ajudar a reduzir o impacto econômico dos danos esperados por causa do surto de coronavírus.

 

Várias moedas de países asiáticos se recuperaram, mas o yuan chinês (renminbi) voltou a ser cotado ligeiramente acima de 7 por dólar. A moeda norte-americana está de lado em relação às principais rivais, o que abre espaço para uma recuperação do petróleo, com o barril do tipo WTI voltando à marca de US$ 50. Já o rendimento (yield) do título norte-americano de 10 anos (T-note) segue acima da faixa de 1,56%. 

 

Mas o que tem mesmo sustendo o mercado acionário chinês é a torneira aberta pelo Banco Central do país (PBoC), que vem jorrando liquidez no seu sistema financeiro. Desde a reabertura do pregão, na segunda-feira, o PBoC despejou cerca de US$ 240 bilhões em recursos, montante superior ao injetado pelo Federal Reserve em um único mês, durante as mais recentes rodadas de afrouxamento monetário nos Estados Unidos (QE). 

 

O PBoC também lançou mão da recompra reversa, tomando ativos que ninguém quer manter. Com isso, os investidores sustentam o apetite por risco, apesar das incertezas à economia global vindas da doença respiratória na China. Afinal, com boa parte da atividade no país ainda parada, a economia global tende a sofrer um solavanco neste início de ano. 

 

Mas quando o comércio e as fábricas na China reabrirem, com as pessoas voltando a trabalhar, e as viagens ao/no país forem liberadas haverá um mini boom da atividade global. Só que ainda não se sabe quando isso irá acontecer. Até lá, os bancos centrais irão salvar os mercados - não apenas de ciclo econômicos, mas também de uma epidemia. 

 

Ainda assim, o sinal negativo vindo dos índices futuros das bolsas de Nova York e das principais praças europeias nesta manhã reduziu os ganhos na região Ásia-Pacífico. Tóquio subiu 1%, enquanto Sydney teve alta de 0,4%. Seul e Hong Kong subiram 0,4%, cada. Em Wall Street, os investidores digerem o tradicional discurso sobre o Estado da União.

 

O presidente norte-americano, Donald Trump, adotou um tom de campanha e ignorou o processo de impeachment contra ele, que será votado hoje no Senado. De olho na reeleição em novembro, o republicano reforçou promessas do primeiro mandato e comemorou os números da economia e ações militares. 

 

Ao final, a presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, rasgou o papel com trechos da fala dele. Aliás, o partido divulgou resultado parcial das prévias em Iowa, com o mais jovem pré-candidato, Pette Buttigieg, vencendo o caucus, seguido por Bernie Sanders e Elizabeth Warren. O ex-vice-presidente Joe Biden ficou em quarto lugar.         

 

Selic, PIB e os ativos

 

Diante desse sinal indefinido vindo dos mercados no exterior, os negócios locais devem ser mais influenciados pelo noticiário doméstico, neste dia de decisão do Copom e da venda de 734,2 milhões de ações ordinárias (ON) da Petrobras pelo BNDES. O prazo para reservar os papéis acabou ontem e o resultado da operação deve ser conhecido hoje. 

 

Já a decisão do Copom sai apenas no fim do dia. Após dados mostrarem que a atividade doméstica perdeu tração na reta final de 2019, o mercado financeiro consolidou em 100% a chance de corte de 0,25 ponto na Selic hoje, diante do cenário ainda benigno da inflação. Com isso, a taxa básica de juros deve cair pela quinta vez, renovando o piso histórico. 

 

Mas o que não é consenso é o tom do comunicado que acompanhará o anúncio da decisão. Afinal, o Copom vai sinalizar um fim do ciclo de cortes, iniciado em julho de 2019, ou irá deixar a porta aberta para mais estímulos, o que já contraria uma queda adicional da mesma magnitude em março, para 4%.  

 

Se a autoridade monetária não fechar a porta e indicar uma extensão do processo de afrouxamento até o mês que vem, pode se esperar uma renovada pressão de alta no dólar, que segue orbitando ao redor da faixa de R$ 4,25. O curioso é o fato de o mercado doméstico esperar por juros mais baixos e dólar mais alto, enquanto a Bolsa segue no rali.

 

Afinal, se a fraqueza da atividade ao final do ano passado mostra que o otimismo recente sobre o ritmo de recuperação da economia brasileira neste ano estava fora de lugar, os principais argumentos para a lucratividade das ações e eficiência das empresas são colocados em xeque. Ainda mais com uma moeda mais fraca minando a confiança. 

 

E a questão é que algumas instituições começaram a reduzir a previsão para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, com algumas já falando em expansão abaixo de 2%. Ou seja, de um consenso inicial de alta de 2,5% ou mais em 2020, crescem as chances de aumento de 2%, com riscos de ser ainda menor.

 

Até agora, o otimismo doméstico e a forte alocação de investidores locais, em meio à migração de recursos da renda fixa para a variável, conseguiram impulsionar o Ibovespa para além dos 110 mil pontos. E esse movimento se dá apesar da saída recorde de recursos externos da Bolsa brasileira. 

 

Após encerrar 2019 com uma retirada histórica de R$ 44,5 bilhões, os “gringos” já sacaram a quantia recorde de pouco mais de R$ 19 bilhões apenas no primeiro mês deste ano - ou quase o dobro de tudo o que saiu em capital estrangeiro em 2018. Aliás, desde outubro daquele ano até janeiro de 2020, R$ 75 bilhões de recursos externos deixaram a Bolsa.  

 

Dia de agenda cheia

 

Os dados do BC sobre a entrada e saída de dólares do Brasil em janeiro que saem hoje (14h30) serão importantes para mensurar se essa retirada de recursos da Bolsa brasileira no mês passado deixou o país ou se ainda está por aqui, apenas à espera do melhor momento para ser reaplicado.

 

Apesar de os eventos envolvendo o BC roubarem a cena do dia, também merece atenção o balanço do Bradesco referente ao último trimestre do ano passado e ao acumulado de 2019, antes da abertura do pregão. No exterior, saem dados sobre a atividade no setor de serviços na Europa em janeiro, além das vendas no varejo na zona do euro em dezembro. 

 

Mas o destaque lá fora fica com os dados da ADP sobre a criação de emprego no setor privado dos EUA no mês passado (11h15), tidos como uma prévia para o relatório oficial sobre o mercado de trabalho no país (payroll), que sai na sexta-feira. A previsão é de abertura de 156 mil vagas.

 

Ainda na agenda econômica norte-americana, saem os dados de dezembro da balança comercial (10h30) e sobre o setor de serviços (11h45 e 12h), além dos estoques semanais de petróleo bruto e derivados nos EUA (12h30). 

 

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