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O que é bom pra bolsa é ruim pro bolso

há 10 horas
4 min de leitura
Ilustração editorial de um investidor com expressão de preocupação diante de telas com gráficos de alta da bolsa brasileira. Ao fundo, equipamentos de mineração, contêineres e minerais de terras-raras remetem à disputa estratégica entre Estados Unidos e China e ao futuro produtivo do Brasil.
Euforia do mercado após primeiro turno das eleições expõe expectativas de mudança econômica e põe em jogo o futuro produtivo do Brasil

O mercado financeiro encerrou a semana após o primeiro turno das eleições presidenciais em clima de festa. O Ibovespa acumulou valorização de quase 9%, a maior alta semanal em seis anos, renovando recorde histórico de fechamento, colado aos 210 mil pontos. Já o dólar terminou a sexta-feira (9) abaixo de R$ 5 pela primeira vez desde maio. 


A euforia do mercado doméstico começou logo no primeiro pregão após as urnas colocarem Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Naquele dia, o principal índice acionário disparou 7,7%, em um movimento capitaneado pelos investidores estrangeiros. Os “gringos” compraram pouco mais de R$ 10 bilhões em ações negociadas na B3 somente na segunda-feira (5), no maior ingresso diário na história da bolsa brasileira.


A reação não deixou dúvidas sobre a mudança de humor dos investidores. Mas guarda uma ironia: o 01 não era o candidato preferido da Faria Lima na reta final do ano passado. Dez meses depois, o mesmo nome que provocara uma forte onda vendedora dos ativos locais passou a alimentar uma corrida às compras. Não necessariamente porque o mercado mudou suas convicções: mudou o cenário político que orienta suas expectativas. 


O que o mercado está comprando?


Uma das melhores fontes de mercado que já tive costumava dizer que “o que é bom para a bolsa é ruim para o bolso”. Não se trata de uma lei econômica, mas de uma provocação.


A euforia que tomou conta da Faria Lima após o primeiro turno oferece uma oportunidade para examinar a contradição que ela encerra, quando a valorização dos ativos financeiros antecipa políticas cujos efeitos sobre a renda, o trabalho e a capacidade produtiva do país estão longe de ser conhecidos. 


Afinal, o que é celebrado como ganho pelo mercado financeiro corresponde, necessariamente, a um ganho para o país?


Da Faria Lima a Washington


A resposta depende do que se entende por desenvolvimento. A entrada de capital estrangeiro pode financiar empresas, ampliar investimentos e estimular atividade econômica. Mas a valorização dos ativos brasileiros, por si só, não revela quanto dessa riqueza será transformada em capacidade produtiva, tecnologia, empregos qualificados ou salários mais altos. Tampouco indica para qual bolso irão esses ganhos. 


É nesse ponto que a discussão ultrapassa os limites da Faria Lima. Afinal, a economia brasileira não está isolada das transformações em curso no cenário mundial. Em meio à disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, o Brasil voltou a ocupar uma posição estratégica por uma razão conhecida: a abundância de recursos naturais — os protagonistas, como se sabe, são as terras-raras.


O interesse de Washington não é casual. Os EUA buscam reduzir sua dependência da China, que concentra etapas de processamento e refino desses minerais críticos. O domínio chinês não se resume às reservas de jazidas: décadas de investimentos resultaram na integração das cadeias produtivas e em alta capacidade industrial. Em outras palavras, possuir o recurso natural não equivale a dominar sua transformação em produtos de maior valor agregado. 


É nesse cenário que ganha relevância a aproximação de Flávio Bolsonaro com Donald Trump. Em maio, após uma reunião em Washington, o senador prometeu estabelecer parcerias estratégicas de longo prazo com os EUA para a exploração de terras-raras no Brasil, apresentando o país como alternativa à China. 


A proposta, contudo, suscita uma questão que vai além da identidade do parceiro comercial: quais etapas da cadeia produtiva permaneceriam no Brasil? O país seria responsável pela extração e exportação de matérias-primas ou iria avançar no processamento dos minerais e na fabricação de componentes?


Não se trata de rejeitar o investimento estrangeiro nem de presumir que uma parceria com os EUA seja necessariamente desfavorável ao Brasil. 


É economia política (!)


Trata-se de reconhecer que, na economia política mundial, o valor estratégico de um recurso depende também de quem controla sua transformação industrial. Para o Brasil, a diferença entre fornecer minerais e dominar etapas mais sofisticadas dessa cadeia pode determinar se a disputa do século XXI por recursos estratégicos contribuirá para diversificar a economia nacional ou apenas reforçará uma especialização produtiva colonial — agora revestida de importância geopolítica. 


Uma estrutura produtiva mais diversificada, com maior conteúdo tecnológico e capacidade de agregar valor, tende a oferecer melhores condições para elevar a produtividade e sustentar salários mais altos. Seus efeitos podem alcançar também o setor de serviços, que concentra grande parte dos empregos brasileiros. Mas esse processo não é automático: depende de investimentos, qualificação profissional, infraestrutura e mecanismos capazes de distribuir os ganhos de produtividade.


É sob essa perspectiva que a festa da Faria Lima merece ser examinada. A valorização da bolsa pode refletir expectativas legítimas de melhora nas condições econômicas, mas não responde, por si só, à questão fundamental: que lugar o Brasil pretende ocupar na economia mundial e como os ganhos dessa inserção chegarão à população? 


O que é bom para a bolsa não precisa ser ruim para o bolso. Mas também não será necessariamente bom para o país.


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