Desconforto fiscal abala onda otimista

09.01.2018

 

A expectativa de manutenção da trajetória de recuperação da atividade econômica global, com inflação benigna e sob controle, tem sustentado um rali nos mercados internacionais neste início de ano, mas esse prognóstico se contrasta com o cenário no Brasil. Apesar de os negócios locais começarem 2018 surfando no bom humor externo, a questão política e fiscal deve passar a ter mais peso.

 

Como se já não bastassem as incertezas quanto à aprovação de novas regras na Previdência e à continuidade de uma agenda de reformas após as eleições, os investidores não conseguem esconder o desconforto com a chamada “regra de ouro” do gasto público. A medida impede o governo de emitir títulos da dívida para pagar despesas, empurrando gastos correntes, como de pessoal e manutenção, para outros governos.

 

A troca de farpas entre o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, desde o fim de semana ficou evidenciada em uma segunda-feira agitada em Brasília. O deputado queria suspender a regra, enquanto o capitão do “time de sonhos” defendia apenas uma flexibilização, alterando temporariamente o item que impede o governo de emitir dívida em volume superior aos investimentos.

 

A irritação pública entre Maia e Meirelles levou o governo a abrir mão de discutir uma eventual flexibilização na regra agora. Por mais que o assunto esteja encerrado, não ficou claro se o governo irá conseguir cumprir a meta fiscal deste ou dos próximos anos. Assim, a questão continua trazendo incômodo, por causa do impacto da mudança na trajetória das contas públicas e, principalmente, na nota de risco de crédito (rating) do Brasil.

 

Além disso, ficou nítido que a Câmara tenta roubar o espaço da equipe econômica em pleno ano eleitoral. Porém, uma vez que nem Maia nem Meirelles assumem publicamente que irão concorrer ao Palácio do Planalto em outubro, o risco de ruptura da responsabilidade fiscal é só a ponta do iceberg. Afinal, sem um nome para disputar como candidato do governo, fica difícil saber quem irá emplacar o ajuste fiscal durante (e após) a campanha.

 

A indiferença dos mercados domésticos em relação à incapacidade do governo em cumprir a meta fiscal mostra que o impacto do exterior no desempenho dos ativos locais tem sido mais relevante do que o noticiário político. Afinal, o interesse dos investidores está mesmo é no julgamento contra o ex-presidente Lula, que pode tirá-lo da corrida presidencial. Assim, com a trégua em Brasília por causa do recesso no Legislativo e no Judiciário, os investidores ajustam as carteiras conforme o movimento dos negócios em âmbito global.

 

Portanto, não é só a Bovespa que vem cravando sucessivos recordes de alta. Na Ásia, as bolsas da região registram o melhor início de ano desde 2006, embaladas pela mais longa sequência de máximas históricas alcançada pelo índice norte-americano S&P 500 desde 1964. Na Europa, ao principal indicador acionário da região atingiu ontem o maior nível desde agosto de 2015.

 

Nesta manhã, porém, os índices futuros das bolsas de Nova York dão os primeiros sinais de cansaço e estão na linha d'água, indicando que a sessão pode abrir espaço para alguma realização de lucros. Ainda mais diante da agenda econômica esvaziada hoje nos Estados Unidos. O destaque fica com os dados  de inflação na China, que serão conhecidos apenas no fim do dia. Logo cedo, a zona do euro informa a taxa de desemprego na região.

 

No Brasil, a agenda econômica desta terça-feira ganha força e merece atenção o desempenho do varejo em novembro. O mês vem sendo marcado pela antecipação das compras de fim de ano, com os consumidores aproveitando as grandes ofertas promovidas pelo comércio por causa da Black Friday.

 

Com isso, a previsão é de expansão de 0,5% das vendas em relação a outubro e crescimento de 3,2% na comparação com um ano antes, mostrando que, a cada ano, a data festejada inicialmente nos Estados Unidos após o feriado de Ação de Graças também vem ganhando representatividade no Brasil. Os números oficiais serão conhecidos às 9h.

 

Antes, às 8h, saem o resultado de dezembro e no acumulado de 2017 do IGP-DI e também indicadores sobre o mercado de trabalho. Entre os eventos de relevo, ainda não se sabe se Cristiane Brasil, filha de Roberto Jefferson, irá assumir o cargo de ministro do Trabalho. A posse dela, prevista para hoje, foi parar na Justiça e uma liminar suspendeu a nomeação, após a revelação de condenações contra a deputada em ações trabalhistas.

 

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