Vem, meteoro


Leva-se tempo, muito tempo, para se construir civilizações, mas bastam alguns poucos escorregões na história para que a barbárie venha e leve consigo qualquer vestígio de civilidade e sanidade. Destruir é muito mais fácil e rápido do que construir, costuma-se dizer. E nos tempos atuais as urnas parecem acelerar ainda mais esse processo. Como dinossauros votando no meteoro à espera de mudança os americanos do norte elegeram lá a seu modo Donald Trump.


Trump, por sua vez, elegeu inimigos. Dois deles chamam a atenção em especial: a China e a imprensa dos Estados Unidos.

Contra a China está em andamento uma guerra comercial com a qual ninguém terá nada a ganhar. Emergiram nesse meio-tempo alegações referentes a supostas tentativas chinesas de influenciar as eleições norte-americanas. Alguns anos atrás, acusações parecidas foram dirigidas à Rússia.


Nesse sentido, só me ocorre uma coisa mais inimaginável do que ver um eleitor ou eleitora nos EUA cedendo à sedução russa ou chinesa para minar o poder do Tio Sam: ver os Estados Unidos pararem de interferir nos processos políticos de outros países.


O líder da potência decadente apenas acusa a potência em ascensão de tentar seguir por um caminho no qual seu país ganhou notoriedade ao longo do século XX, o caminho do golpe. Enquanto a intromissão faz parte do modo de agir dos EUA para garantir suas boquinhas, a China possui um extenso histórico de não interferência em assuntos internos de outras nações. Seja como for, a disputa entre EUA e China e a guerra comercial kamikaze deflagrada por Trump se insere em um contexto geopolítico maior e as consequências ainda restam imprevisíveis.


O outro inimigo eleito por Trump, a imprensa, já estava em sua mira bem antes de ele assumir a presidência dos Estados Unidos. Quando eram veiculadas pesquisas desfavoráveis a sua candidatura, por exemplo, o homem do topetão alaranjado bradava que só perderia para Hillary Clinton se houvesse fraude.


Se considerarmos o modus operandi do Colégio Eleitoral dos EUA, houve fraude, mas a favor de Trump, diplomado presidente apesar de ter recebido alguns milhões de votos a menos do que Hillary.


Na visão deturpada de Trump, tanto antes quanto depois das eleições, qualquer notícia negativa que o envolva é falsa, fake news, o neologismo importado da moda. Então, se a notícia for positiva ou prejudicial a seus adversários, será ela verdadeira?


A mídia pode ter lá seus defeitos. Quanto menos plural, como no caso do Brasil, pior para a sociedade, melhor para os verdadeiros donos do poder. No mesmo sentido, quanto menos mecanismos capazes de impedir assassinatos de reputação, a prejudicada e os beneficiados são os mesmos.


Os EUA podem não dispor da mídia mais plural do mundo, mas dispõem de instrumentos auto-regulatórios e jurídicos relativamente eficazes. Não demorou, porém, para que o discurso espertalhão de Trump atravessasse fronteiras e acabasse incorporado por personalidades políticas afinadas com suas, digamos, ideias.


Em certo país ao sul, um tal Tribunal Eleitoral prometeu uma força-tarefa de combate às tais fake news, especialmente durante a campanha para as eleições de 2018. Eis que certo candidato, conhecido por fazer como Trump e chamar de fake news toda e qualquer notícia a seu respeito por ele considerada prejudicial, tem se saído com a falácia de que se não for eleito é porque houve fraude.


Quatro anos atrás, um playboy fanfarrão não aceitou a derrota nas urnas e lançou o tal país a um terceiro e a um quarto turnos que o levaram à beira do abismo. Agora, o capitão promete fazer civilização com barbárie e diz que o gol só vale se for pra ele.


E enquanto o Tribunal Eleitoral parece despreocupado com as mentiras espalhadas pelo mau perdedor antecipado da vez, a Suprema Corte decide censurar previamente a já combalida imprensa. Quem sabe um meteoro cause menos estrago.


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