Tudo que é bom, acaba


Um ano após choque de realidade com pandemia, mercado financeiro se digladia sobre risco de inflação nos EUA, que pode provocar crise das dívidas em emergentes


Chega ao fim hoje o mês de fevereiro e a Bula do Mercado também se despede, com gratidão, de seu público. Diferentemente de há exato um ano atrás, quando o mercado financeiro sofria um grande choque de realidade quanto ao impacto da pandemia do coronavírus no mundo, após ignorar um “cisne negro” que já sobrevoava os negócios, os investidores fecham o período agora avaliando se não exageraram no apetite e se lambuzaram de risco, em meio às dúvidas sobre a inflação nos Estados Unidos.

O rendimento (yield) do título norte-americano de 10 anos (T-note) bateu à porta dos 1,5% ontem e assustou os mercados globais, que responderam automaticamente, com quedas aceleradas nas bolsas e valorização do dólar. O Banco Central precisou intervir duas vezes no mercado à vista, vendendo recursos das reservas internacionais pela primeira vez neste ano, e mesmo assim não impediu a alta da moeda dos EUA para além de R$ 5,50.

Nesta manhã, o juro projetado pela T-note está levemente abaixo de 1,5%, o que não alivia a pressão em Nova York, com os índices futuros das bolsas indicando mais um dia no vermelho, após uma sessão de perdas aceleradas na Ásia, com tombo de quase 4% em Tóquio, enquanto Xangai despencou 2%. As bolsas europeias também abriram em terreno negativo. Já o dólar se fortalece de forma generalizada, o que penaliza as commodities.

Mas, afinal, o que está perturbando os mercados globais?

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Reflação. Essa é a palavra-chave e que será repetida, como um mantra, durante algum tempo, até que os receios dos investidores com as pressões inflacionárias nos EUA se dissipem ou se confirmem. Como já dito aqui, aqui e também aqui, o termo se refere à inflação resultante de uma retomada econômica acelerada no país, provocada por estímulos monetários e fiscais para aquecer a demanda.

A dúvida, portanto, é se haverá mesmo um crescimento econômico forte dos EUA ou se haverá apenas uma alta acentuada dos preços ao consumidor, instigando o Federal Reserve a reverter sua postura suave (“dovish”) antes do esperado para combater essa inflação projetada mais elevada. E essa incerteza tem reflexo direto nos ativos emergentes, por causa do risco de reversão de fluxo de recursos.

Ou seja, os investidores podem se sentir mais seguros em aportar nos bônus norte-americanos, em meio à expectativa de que o Fed pode ser obrigado a subir a taxa de juros dos EUA mais cedo do que tarde, do que arriscar-se em outros ativos. Para quem não se lembra, na década de 1980, o então presidente do Fed, Paul Volcker, provocou um colapso econômico nos países emergentes ao destruir a inflação descontrolada nos EUA.

A chamada “Era Volcker” deu origem à crise das dívidas externas (Savings & Loans) na América Latina, ao elevar a taxa de juros dos EUA a até 20% (!), a fim de derrotar a disparada da inflação que consumia a economia norte-americana na década de 1970, em meio às duas crises do petróleo. O movimento ajudou a criar o que se conhece da economia hoje, dando início à era da financeirização no Ocidente.

Brasil no Olho do Furacão

Agora, imagina, então, como o Brasil se apresenta nesse cenário atual. Não é de hoje que só se fala no rombo das contas públicas, mas os dados das contas externas do país também acendem o sinal de alerta, uma vez que o saldo positivo da balança comercial reflete mais uma queda acentuada das importações do que uma expansão significativa das exportações, enquanto os investimentos externos produtivos (IED) no país seguem frágeis.

Ainda nessa conta, tem-se a remessa de lucros e dividendos, que sugere que investir lá fora é mais lucrativo do que aqui dentro. A isso soma-se o risco fiscal, que é crescente, em meio às negociações de fatiar a PEC Emergencial, aprovando uma nova rodada do auxílio emergencial fora do “teto dos gastos” e sem apresentar contrapartida via corte de despesas. Ontem, a combinação desses ingredientes externos e internos azedou os negócios locais.

O Ibovespa afundou quase 3%, acumulando perdas de mais de 5% só nesta semana, ao passo que o dólar fechou no maior nível do ano, acima da marca de R$ 5,50. Já os juros futuros incorporaram prêmios, com o trecho mais curto calibrando as expectativas em relação ao rumo da Selic, enquanto os vértices mais longos também foram pressionados pelo salto no yield da T-note e pelas incertezas vindas de Brasília.

É praticamente certo que o BC terá de agir em março, com o Brasil sendo um dos primeiros países do mundo a reverter a condução da política monetária. Só assim para segurar uma valorização adicional do dólar, diante do acúmulo de riscos tanto aqui quanto lá fora. A dúvida é se o aperto na Selic será moderado, de 0,25 ponto, ou um pouco mais agressivo, de meio ponto. Mas há quem diga que só uma alta firme, de 1 ponto, seria capaz de conter a alta da moeda norte-americana.

Afinal, governo e Congresso parecem estar brincando com fogo. A fraca articulação política do Palácio do Planalto no Legislativo permite ao Centrão conduzir a pauta de interesse do Executivo ao bel prazer, o que significa que os louros da prorrogação do auxílio emergencial não devem ser colhidos apenas pelo presidente Jair Bolsonaro.

Essa é a estratégia que vem sendo conduzida pela oposição e que não encontra resistência entre os novos aliados do presidente. Tanto que a leitura do relatório da PEC Emergencial, os debates e as eventuais emendas ao texto ficaram agendadas para até terça-feira, adiando a votação para a quarta-feira da semana que vem. Somadas, essa demora na tramitação da matéria e a indefinição do que será aprovado mantém o investidor no escuro.

Há um risco de fatiamento da PEC Emergencial, dando preferência à aprovação de temas urgentes, como a liberação do benefício social e a permissão de uso de gatilhos fiscais para União, estados e municípios. Tudo isso eleva o temor do investidor de que a austeridade fiscal não será respeitada, o que tendem a manter dólar e juros futuros sob pressão, pesando nos negócios na Bolsa.

Portanto, o Brasil deixa, mais uma vez, de fazer o dever de casa, e pode sofrer uma “tempestade perfeita”, com a trajetória de deterioração das contas públicas e externas podendo resultar em efeitos mais danosos por aqui do que o esperado para as demais economias globais no caso de uma reversão da política do Fed, com impacto direto sobre os ativos domésticos. E, assim, aqui deve continuar sendo o eterno país do futuro.

Agenda em Destaque

O calendário econômico desta sexta-feira traz como destaque os dados sobre a renda pessoal e os gastos com consumo nos EUA em janeiro (10h30). A previsão é de altas de 9,5% nos ganhos e +2,5% nas despesas. Depois, por volta das 12h, ainda nos EUA, saem os índices sobre a atividade em Chicago e também sobre a confiança do consumidor norte-americano, ambos referentes a este mês.

Já no Brasil, a agenda do dia começa cedo, com a divulgação dos índices de confiança dos setores industrial e de serviços em fevereiro, às 8h. Em seguida, às 9h, serão conhecidos os dados sobre o mercado de trabalho no Brasil ao final do ano passado, com a taxa de desocupação da população seguindo próximo a 14%, em meio ao aumento da informalidade, apesar do aumento do total de ocupados no país.

Ainda por aqui, o BC publica, às 9h30, os dados sobre o resultado primário do setor público em janeiro. E é só!

*Comunicamos que, por motivo de força maior, A Bula do Mercado deixará de ser publicada a partir de março, por tempo indeterminado. Agradecemos pelos seis anos de apoio.


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