Reforma avança, mas atividade desacelera



Após o governo dizer o que o mercado financeiro gosta de ouvir, os investidores aguardam hoje a realidade dos fatos e esperam a divulgação dos detalhes da proposta de reforma administrativa, que já foi encaminhada ao Congresso via publicação no Diário Oficial. As mudanças previstas no projeto que afeta os servidores públicos serão conhecidas às 10h, durante entrevista da equipe econômica.


Mas boa parte da expectativa em torno dessa proposta já foi incorporada nos preços dos ativos locais na terça-feira, quando o presidente Jair Bolsonaro antecipou o anúncio, após reunião com ministros e líderes do Congresso. E diante das dificuldades do Ibovespa em acompanhar o desempenho no exterior, será preciso um empenho maior da classe política para a Bolsa brasileira conseguir se mover além dos 100 mil pontos.


Mas não é apenas esses descolamento entre as bolsas, aqui e lá fora, que chama a atenção. Percebe-se, desde maio, um descompasso entre os ativos de risco globais e a economia real, em um movimento guiado pela injeção de liquidez sem precedentes jorradas por bancos centrais e pelas ações de política pública. E quanto mais prolongada é essa dissociação, maior é a dúvida sobre a sustentabilidade dessa condição.


A questão é que a nova estratégia de política monetária do Federal Reserve, anunciada na semana passada pelo presidente Jerome Powell, surgiu como um vetor adicional de impulso aos mercados globais no curto prazo. Ou seja, a postura do Fed de manter os juros baixos nos Estados Unidos por um período mais longo, ainda que com mais inflação, cria uma nova fase, em que a busca por risco é alimentada por uma liquidez abundante.


Portanto, qualquer colapso repentino nos ativos globais foi adiado, por ora. Mas para incorporar nos preços um cenário mais otimista, é preciso converter ao menos alguma parte dessas expectativas em realidade. E é isso que o mercado doméstico espera. E não se trata apenas do avanço da agenda de reformas e da responsabilidade fiscal nas decisões do governo e do Congresso, mas também da retomada da atividade sob a forma de “V”.


Destaque na agenda nacional, os dados da produção industrial podem dar pistas sobre o ritmo da recuperação econômica na virada do semestre. A previsão é de alta do setor (+5,5%) pelo terceiro mês seguido, porém desacelerando-se em relação ao crescimento visto nos dois meses anteriores e, portanto, insuficiente para zerar as perdas de quase 30% acumuladas entre março e abril.


Isso significa que a indústria brasileira deve ter iniciado a segunda metade de 2020 ainda abaixo dos níveis vistos em fevereiro. Mais que isso, já que na comparação anual, a previsão é de que seja registrado o nono resultado negativo consecutivo nesse tipo de confronto (-6,5%), com a atividade aquém do observado ao final do ano passado. Os dados oficiais serão conhecidos às 9h.


Fora de compasso


No exterior, o dia começa com os números do setor de serviços na China em agosto. O índice dos gerentes de compras (PMI) calculado pelo Caixin oscilou em baixa de 54,1 em julho para 54,0 em agosto, refletindo as dificuldades de recuperação da demanda interna e externa por causa da pandemia. Ainda assim, o indicador permaneceu acima da linha divisória de 50, que indica expansão da atividade, pelo quarto mês seguido.


Em reação, as bolsas de Xangai (-0,6%) e de Hong Kong (-0,5%) fecharam em queda, refletindo as incertezas sobre as perspectivas globais por causa dos choques na atividade causados pelo coronavírus, enquanto Tóquio subiu (+0,9%). Já na Europa, as principais bolsas abriram em alta acelerada, de mais de 1%, pegando carona nos ganhos em Wall Street ontem, quando registrou o maior aumento diário desde julho.


Com isso, os investidores relegam a quase paralisação do setor de serviços na zona do euro em agosto, em meio à forte desaceleração da atividade e aos sinais de que a recuperação vem perdendo ímpeto. O índice PMI harmonizado da região da moeda única caiu de 54,7 em julho para 50,5 no mês passado, ficando no limiar da faixa dos 50 pontos, porém vindo acima da leitura preliminar, de queda a 50,1.


Ainda na agenda econômica do dia, no exterior, destaque para os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos nos Estados Unidos (9h30). A dúvida é se o total de solicitações seguirá (ou não) acima da marca de 1 milhão de solicitações. No mesmo horário, saem o saldo da balança comercial norte-americana em julho e também os dados sobre o custo da mão de obra e da produtividade no trimestre passado.


Também merecem atenção os índices PMI (10h45) e ISM (11h) sobre a atividade no setor de serviços nos EUA em agosto. À espera desses números, os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram na linha d'água, tentando manter o fôlego após mais uma sessão de marcas históricas, com o S&P 500 e o Nasdaq encerrando em níveis recordes, enquanto o Dow Jones superou os 29 mil pontos pela primeira vez desde fevereiro.


As altas recordes em Wall Street ridicularizam os bancos centrais e os governos, que vêm se esforçando para superar a pior recessão econômica desde os anos 1930. Chega a ser irônica a "exuberância irracional" do mercado financeiro, com os investidores sentindo-se encorajados em tomar risco em meio à injeção de liquidez em economias com dificuldades para se reerguer, o que coloca o desempenho dos ativos muito à frente da atividade.


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