Política segue no palco principal



A última semana cheia de agosto começa sob a mesma tônica que marcou o mercado financeiro neste mês. Após uma recuperação estelar dos ativos de risco desde abril, o protagonismo do cenário político, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, e as incertezas sobre o ritmo de retomada da economia global em tempos de pandemia testam o apetite dos investidores, aguçando a volatilidade.


E esses temas devem provocar um intenso vaivém dos negócios nos próximos dias, em meio a uma agenda econômica mais carregada. Por aqui, o noticiário vindo de Brasília pode provocar novo descolamento do mercado doméstico em relação ao exterior, tal qual visto na semana passada, em meio às discussões sobre o chamado “teto dos gastos” e os ruídos envolvendo o ministro Paulo Guedes, após a “debandada” na equipe econômica.


Ele, aliás, promete para amanhã o lançamento do novo programa de assistência social do governo Bolsonaro, batizado de “Renda Brasil”, que deve atender 8 milhões de pessoas a mais dos que já são contemplados pelo Bolsa Família. O benefício médio também deve ser maior, entre R$ 250 e R$ 300, acima dos R$ 190 pagos atualmente, em média, a 14,2 milhões de famílias.


A ideia ganhou força depois de um crescimento significativo da popularidade do presidente Jair Bolsonaro entre os desempregados, os trabalhadores informais e os mais pobres, que foram beneficiados com o auxílio emergencial de R$ 600 pago aos mais vulneráveis aos impactos econômicos da disseminação do coronavírus. A ideia é que, com o fim do auxílio, os beneficiários sejam contemplados no novo programa.


Piso alto, teto baixo


Mas os valores e o alcance do novo programa ainda não foram definidos e vão depender da articulação política no Congresso, já que o governo propõe a revisão de programas considerados ineficientes - como o abono salarial, o seguro-defeso e o salário-família. Além disso, a ideia é de que os contemplados sejam automaticamente habilitados ao programa de emprego, o “Carteira Verde Amarela”, que também deve ser anunciado amanhã.


Trata-se de mais uma jogada do governo para manter a tendência de recuperação da popularidade, com o presidente já de olho em 2022. Com quase 13 milhões de pessoas sem trabalho devido à pandemia e queda recorde no total de trabalhadores ocupados, melhorar esses números pode enfraquecer ainda mais uma reação dos partidos de esquerda. Aliás, na sexta-feira o IBGE divulga dados atualizados da Pnad até julho.


Tudo isso às vésperas do prazo final para apresentação da proposta do Orçamento de 2021, no dia 31. O desafio continua sendo custear o Renda Brasil, bem como o programa de investimentos - o chamado Pró-Brasil - uma vez que o aumento das despesas públicas está limitado à inflação deste ano. E, com o índice oficial de preços ao consumidor orbitando abaixo do alvo perseguido pelo Banco Central, Guedes tem um grande problema.


Por mais que o controle da inflação tenha permitido ao BC reduzir a taxa básica de juros à mínima histórica, o espaço para elevar os gastos no ano que vem, é pequeno. Destaque da agenda doméstica nesta semana, a prévia deste mês do IPCA, a ser conhecida amanhã, deve apontar taxa acumulada abaixo de 2,50%. Com isso, ou o governo derruba o piso (dos gastos) ou terá de “furar” o teto para fazer caber esses programas dentro do Orçamento.


E enquanto a equipe econômica tenta costurar o texto, o Congresso também tem votações importantes. Amanhã, a Câmara vota a chamada Lei do Gás, que cria novas regras ao setor. No mesmo dia, senadores apreciam a proposta que torna permanente o Fundo da Educação (Fundeb). Depois da derrota do governo no Senado sobre o veto aos servidores públicos, será interessante medir a disposição da Casa à agenda fiscal.


Pandemia eleitoral


E se no Brasil o noticiário político tende a ser agitado, imagine nos Estados Unidos. A cerca de 70 dias para as eleições presidenciais, a disputa pela Casa Branca tende a ficar ainda mais acirrada, agora que Joe Biden tornou-se oficialmente o rival a ser vencido por Donald Trump. O democrata ainda aparece como favorito, mas a recuperação do republicano nas pesquisas eleitorais mais recentes mostra que será um páreo-duro.


O mercado financeiro deve, então, preparar-se para a troca de farpas entre os dois candidatos, com possíveis vazamentos de escândalos e dossiês polêmicos. Biden surpreendeu com as críticas ao rival, no discurso de lançamento de sua campanha, e Trump tende a manter a retórica xenofóbica, já que os fracassos internos tanto na economia quanto no combate ao coronavírus atrapalham os esforços em atrair eleitores.


Aliás, a disseminação da Covid-19 nos EUA impediu a realização do tradicional simpósio de banqueiros centrais, que acontece na bucólica cidade de Jackson Hole (Wyoming). Pela primeira vez em quase 40 anos, o evento será virtual e mais curto. Ainda assim, merece atenção o discurso do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, durante abertura do encontro, na quinta-feira.


Após a frustração dos investidores com a ata da reunião de julho do Fed, será importante saber as considerações de Powell sobre as “implicações para a política monetária”, diante do tombo recorde da atividade norte-americana e das várias possibilidades de retomada - se “V”, “L”, “U”, “W” ou “D”. A queda anualizada de mais de 30% do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA no trimestre passado deve ser confirmada na segunda leitura do dado, na quinta-feira.


Ainda na agenda econômica desta semana, destaque para índices de confiança do empresariado e do consumidor, no Brasil e no exterior, e para os dados sobre a renda pessoal e os gastos com consumo nos EUA (veja mais detalhes abaixo). À espera desses eventos, os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram em alta, embalando a abertura do pregão europeu, após uma sessão de ganhos na Ásia. Já o petróleo avança, enquanto o dólar cai.


Os sinais de progresso no tratamento do coronavírus, após Trump autorizar o uso de plasma convalescente, anima os mercados lá fora. A decisão consiste em usar plasma sanguíneo de um paciente recuperado da doença em outro que ainda luta contra a infecção, levando-se em conta os anticorpos da pessoa curada contra a covid-19. Porém, tal qual a cloroquina, o tratamento não possui eficácia comprovada nem autorização da agência reguladora norte-americana, FDA.


O fato é que Trump continua trilhando uma linha tênue entre reviver o crescimento econômico e controlar o ressurgimento dos casos de coronavírus, em meio ao afrouxamento das medidas de isolamento social. Durante o fim de semana, a pandemia ultrapassou duas marcas sombrias: 800 mil mortes e 23 milhões de infectados. Apesar dos sinais de estabilização nos EUA, cresce o temor de uma segunda onda na Europa e em partes da Ásia. Já no Brasil, a curva de casos e óbitos está demorando a cair.


Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia:

*Horários de Brasília

Segunda-feira: A semana começa com as tradicionais publicações do dia no Brasil, a saber, o relatório de mercado Focus, do Banco Central (8h25), e os dados parciais da balança comercial neste mês (15h). Além disso, também será conhecida a confiança do consumidor brasileiro em agosto (8h). Já no exterior, sai apenas o índice regional de atividade de Chicago em julho (9h30).


Terça-feira: A prévia deste mês da inflação oficial ao consumidor brasileiro (IPCA-15) é o destaque do dia, que traz também o índice de confiança do comércio em agosto. Lá fora, serão conhecidos dados do setor imobiliário nos EUA, além de índices de confiança do consumidor norte-americano e do empresariado alemão.


Quarta-feira: Mais uma sondagem, desta vez, sobre a confiança na construção civil, será conhecida no Brasil. Também merecem atenção as divulgações do BC sobre o setor externo e o fluxo cambial. No exterior, saem os pedidos de bens duráveis e os estoques semanais de petróleo nos EUA.


Quinta-feira: As atenções se dividem entre a divulgação da segunda estimativa do PIB dos EUA no trimestre passado e o discurso do presidente do Fed, Jerome Powell, durante simpósio em Jackson Hole. Além disso, saem os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos no país. No Brasil, destaque apenas para a leitura final da confiança da indústria.


Sexta-feira: A semana chega ao fim trazendo como destaque dados sobre a renda pessoal e os gastos com consumo nos EUA, além de novas leituras sobre a confiança do consumidor norte-americano e na zona do euro. Por aqui, merecem atenção o resultado de agosto do IGP-M, os números do IBGE sobre o mercado de trabalho (Pnad), os dados do BC sobre as operações de crédito e a nota do Tesouro sobre as contas públicas.

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