Pós-democracia



O mundo ocidental vive hoje em claro descompasso com a democracia. Do Brexit a Donald Trump. De Macron ao incontinente crescimento da extrema-direita nos Parlamentos do Velho Mundo. Dos golpes institucionais à implementação da lawfare na América Latina.


O mundo ocidental, este em que vivemos, é aquele que gosta de se considerar civilizado, humano, sempre pronto a apontar o dedo para as injustiças, supostamente inspirado nos ideais da Revolução Francesa. Da Revolução Burguesa.


A revolta daquele que se indigna com a barbárie no vizinho e varre pra baixo do tapete a própria truculência. A indignação de quem não admite nem compreende a discriminação contra si enquanto justifica os próprios preconceitos com pseudoinformação.


A revolta de quem se compadece do menino sírio cujo corpo inerte chega à praia quando a família fugia da guerra e estufa o peito para justificar a violência contra os venezuelanos que vencem a selva para cruzar a fronteira com o Brasil. A revolta de quem considera que “imigrante bom é imigrante longe, ou que pelo menos tenha dinheiro pra chegar de avião”.


O cansaço de quem se vê obrigado a deixar o próprio país lançado à crise sem se dar conta de que foi atraído para o Canadá ou para Portugal justamente pelo estado de bem-estar social construído nestes países.


E esse descompasso com a democracia tem na fase financeira do capitalismo, justamente esta pela qual passamos no momento, um de seus principais vetores.


O capital financeiro independe de lastro, de trabalhador, de empresário, de gente, de produção, de economia real. Tudo isso, na verdade, é considerado obstáculo. E os donos do capital financeiro – sim, ele tem dono, e improvavelmente é você que está se dando ao trabalho de ler este artigo – precisam somente que as transações de seus ativos, os reais e os imaginários, transcorram no menor intervalo possível de nanossegundos com a menor quantidade possível de regulação e tributação.


E o que a democracia tem a ver com isso? Na visão dos donos do capital financeiro, ela deixou de ser útil. Principalmente quando os eleitores teimam que seus próprios interesses em habitação, saúde, educação, emprego, segurança e tantas outras questões fundamentais cotidianas e tão mundanas são mais importantes do que os interesses dos banqueiros. Quando eles entendem que desconcentrar renda é preciso.


Aí a lua-de-mel termina. E por sabotagem ou não, o fracasso da democracia é o fermento das soluções autoritárias, da “democracia sem povo”. E é isso que nos é imposto no momento, a mim e a você.


Parece vulgar, mas a democracia e a política são uma disputa pela chave do cofre. E quem detém a chave do cofre no momento emplaca e convence até bastante gente com o discurso da austeridade fiscal, propagado por seus porta-vozes como a única saída possível.


Despesas essenciais do estado congeladas por vinte anos. Mas o congelamento não vale para eles, os “credores”. De quebra, vendem a corrupção - dos outros - como a maior de todas as mazelas enquanto compram parte da mídia, dos políticos e dos juízes a cada nanossegundo.


E a quem serve tudo isso? A quem quer colocar no nosso lombo – no meu e no seu – o fardo de um problema que não criamos. A quem quer deixar de joelhos os estados nacionais enquanto o orçamento é drenado para remunerar os donos do capital financeiro. Os mesmos que quebraram o México em 1994, os Tigres Asiáticos em 1997, a Rússia, o Brasil e a Argentina logo na sequência. Os mesmos que no novo milênio quebraram a banca na Europa e nos Estados Unidos para depois serem resgatados com recursos públicos e sentarem em cima da grana.


Então você vai ler as notícias sobre os mercados financeiros no Brasil e de repente percebe os investidores preocupados. Porque mesmo preso e sem poder falar, Lula transfere votos a Haddad a cada minuto que passa. Porque a candidatura de Ciro Gomes também se beneficia desse processo. E porque o candidato preferido deles, Geraldo Alckmin, não decola, especialmente fora de São Paulo. Então esses mesmos investidores olham para as pesquisas de intenção de voto e fazem o quê? Passam a considerar Jair Bolsonaro como opção, não como desatino.


A diferença é que Alckmin não precisa ser cooptado pelo “mercado”. Assim como Michel Temer já entrou teleguiado para desconstruir o arremedo de bem-estar social que se tentou construir no Brasil recentemente. Ambos têm prática e experiência na prestação do desserviço.


Já Bolsonaro e seus asseclas de farda ainda estão negociando o valor da fatura. Para os donos do capital financeiro, tanto faz o valor monetário ou o que precisará ser feito, desde que a chave do cofre permaneça com eles. E que não fiquem dúvidas: eles sabem muito bem quem e o que estão comprando.


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