Novela mexicana



O México parece às vésperas de, pela primeira vez em quase um século, ter um líder que não olha de baixo para cima ao seu vizinho do norte. Caso os resultados das pesquisas de intenção de voto se confirmem e sejam referendados pela justiça eleitoral, claro, Andrés Manuel López Obrador será o próximo presidente do México.


Prefeito do Distrito Federal mexicano de 2000 a 2005, López Obrador, hoje preguiçosamente chamado de AMLO pela mídia em geral, quase ganhou a presidência em 2006, quando foi candidato pelo PRD, o Partido da Revolução Democrática. Há indícios fortes de que ganhou, mas não levou.


Declarado pela justiça eleitoral como derrotado pelo conservador Felipé Calderón por uma margem mínima de votos em meio a incontáveis denúncias de fraude e irregularidades, López Obrador viu sua militância acampar por meses em pleno Zócalo, no coração da Cidade do México. O próprio López Obrador chegou a inaugurar um governo paralelo, mas os protestos foram em vão.


Calderón tomou posse e o México seguiu tão subserviente aos Estados Unidos quanto antes. Ou talvez até um pouco mais.


Agora López Obrador concorre pelo Morena, sigla para o Movimento de Regeneração Nacional que ajudou a fundar, e segue como principal representante da esquerda mexicana. A turma do mercado financeiro, como não poderia deixar de ser, sente calafrios só de imaginar a possibilidade de o México ter um presidente que não lamba as botas dos ianques nem siga a cartilha do “Deus Mercado”.


E agora que essa possibilidade parece mais real do que nunca – López Obrador lidera com mais de 20 pontos porcentuais de vantagem sobre o segundo colocado de acordo com as mais confiáveis pesquisas de intenção de voto no México –, algumas observações se fazem necessárias.


Ainda que a classe empresarial e a mídia conservadora mexicana tentem colar nele a imagem de um político radical, de um “demagogo” ou qualquer correlação pejorativa equivalente, López Obrador tem uma trajetória bastante pragmática.


Entrou para a política a bordo do famigerado PRI, partido que monopolizou a política mexicana por décadas. Revolucionário e institucional ao mesmo tempo? Não cola, claro, mas era o caminho para se fazer política no México dos anos 1970. Não demorou para que López Obrador se tornasse o líder máximo do PRI em Tabasco, no sul do México. Migrou para o PRD em 1989, tornando-se em poucos anos o principal expoente do partido.


Como prefeito da Cidade do México, implementou programas sociais específicos para mães solteiras, idosos e pessoas portadoras de deficiências. Ao mesmo tempo, chamou o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani para comandar um programa de “tolerância zero” para combater a violência na região considerada Distrito Federal. E não só: aliou-se ao magnata Carlos Slim na revitalização do então dilapidado centro histórico da capital mexicana, atraindo recursos privados para a empreitada. Renunciou à prefeitura com popularidade superior a 80% para tentar a presidência.


Deu no que deu. O mainstream político-judicial mexicano fez valer o controle da máquina para mostrar todo seu apreço pela democracia de conveniência, rechaçar López Obrador e evitar a possibilidade de surgimento de um “novo Lázaro Cárdenas”.


Apenas como base de comparação, se no Brasil Getúlio Vargas é até hoje demonizado pela Fiesp e pelo patronato em geral por ter consolidado as leis trabalhistas e fundado a Petrobras, Cárdenas é repudiado por parte da atual direita mexicana por ter promovido a reforma agrária e nacionalizado um tal de petróleo.


Nas eleições deste fim de semana, só algo como uma tragédia ou uma fraude retumbante impedirá os mexicanos de elegerem López Obrador presidente. O que talvez possa lançar alguma luz sobre o perfil do que deverá ser seu governo é a distribuição das cadeiras no Congresso Nacional.


Segundo as pesquisas de intenção de voto, o mais provável é que o Morena eleja a maior bancada, mas necessite forjar alguma coalizão para aprovar seus projetos no Legislativo, o que costuma obrigar a uma busca por consenso. Mas não se descarta a possibilidade de o Morena governar com maioria, dando legitimidade a uma atuação mais à esquerda.


Ainda assim, pelo perfil que López Obrador desenvolveu ao longo de décadas de carreira política, não se deve esperar dele nenhuma sandice. Nem subserviência. Ele certamente não vai pagar pelo muro, mas não vai alfinetar Trump sem ser provocado primeiro.


Além disso, se sua preocupação for o futuro do NAFTA, o famigerado Acordo Norte-Americano de Livre Comércio, Trump parece muito mais propenso do que López Obrador a assumir o protagonismo de sua destruição.


O mais provável é que López Obrador demonstre habilidades – como a capacidade de conciliar interesses antagônicos – que seus adversários insistem em negar que ele tenha e abra caminho para que o Estado atue como indutor do desenvolvimento econômico do país e reacolha um povo abandonado por décadas de um neoliberalismo que enriqueceu poucos, empobreceu muitos e lançou o México no colo do narcotráfico.


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