Mercado testa Lei de Murphy


O mercado financeiro no Brasil até pode ensaiar um rali de alívio nesta quinta-feira, diante do sinal positivo dos negócios com risco no exterior. Mas qualquer tentativa de melhora local tende a ser pouco duradoura, com o fr acasso doméstico em promover reformas estruturais e o cenário eleitoral cada vez mais perigoso para o investidor renovando a pressão nos ativos.

A forte deterioração do mercado doméstico, com a Bolsa brasileira testando pisos abaixo dos 80 mil pontos e o dólar sustentando-se no maior nível desde março de 2016, é um comportamento condizente com o quadro político e econômico atual do país. Os ativos locais refletem tanto a piora fiscal, após a greve dos caminhoneiros, quanto a incerteza eleitoral.

Claramente, os investidores tomaram um choque de realidade e se deram conta de que são reduzidas as chances de um candidato pró-mercado vencer as eleições e dar continuidade às reformas estruturais em 2019. Essa percepção combinada com o impacto da desvalorização do real na inflação agravou a visão sobre a economia, com a atividade ainda patinando, em meio à demanda fraca.

Diante disso, há quem diga que o “dólar está de graça” e "escala rumo aos R$ 4, preparando-se para bater os R$ 4,50 – e por que não R$ 5? – antes do fim do ano". Para o conselheiro econômico Mohamed El-Erian, ex-PIMCO, as rupturas nos ativos emergentes continuam aparecendo e o real pode ser a próxima peça do dominó que derrubou Turquia e a Argentina.

Apesar desse cenário mais pessimista, ainda não há relatos de que os investidores estrangeiros estão querendo sair do Brasil e não estão conseguindo fazer isso, por causa da falta de recursos disponíveis. O fluxo sobre a entrada e saída de dólares do país ficou positivo em US$ 1,75 bilhão em maio, apesar do saldo financeiro negativo em US$ 5,1 bilhões.

É fato que grande parte desse montante no mês passado refere-se à fuga de capital externo da Bolsa. Os “gringos” retiraram quase R$ 8,5 bilhões, na maior retirada de recursos estrangeiros da renda variável brasileira desde que se tem registro, em 2004. A quantia supera as saídas de R$ 5,3 bilhões em março que era, até então, a maior desde a crise de 2008.

Mas o dado mostra apenas que houve saída da renda variável brasileira. Isso não significa, necessariamente, que todo esse recurso deixou o país. Pode ter ocorrido realocação em outros ativos, com reposicionamento de estratégia, ou mesmo guardado o dinheiro em caixa, à espera de uma oportunidade para “comprar na baixa”.

Assim, a renovada pressão no dólar, que ontem bateu R$ 3,85 na cotação máxima do dia, tem levado o mercado doméstico de câmbio a testar o BC - que parece ainda estar sendo castigado pela inesperada interrupção no ciclo de cortes da taxa básica de juros (Selic) em maio. Só que, por enquanto, o dólar tem subido “no vácuo” - ou seja, sem fluxo.

Trata-se, então, de um movimento especulativo, uma vez que o estoque de posições “positivas em Brasil” ainda demanda ajustes adicionais. Afinal, era muito artificial - ingênuo, talvez - embutir nos preços dos ativos que o eleitor apoiaria um candidato pró-mercado que venceria no voto popular após emplacar em campanha a reforma da Previdência, entre outras.

Dessa forma, por mais que pareça ser imperativo o Banco Central mudar de estratégia e injetar recursos no mercado à vista de câmbio, ofertando linhas de financiamento via leilão, não há, ainda, uma necessidade de irrigação de liquidez nos negócios. Por ora, o volume de proteção com swaps cambiais parece ser a estratégia preponderante - e mais adequada.

Atento a esse cenário, o BC resolveu atuar em conjunto com o Tesouro Nacional, realizando operação compromissada de nove meses hoje. A operação se refere à venda de títulos públicos com compromisso de recompra futura e envolve papéis prefixados (LTN e NTN-F) e pós-fixados (NTN-B), visando atender a demanda dos investidores.

É claro que essa postura nos negócios locais pode mudar, mas não há gatilho para reverter o movimento. Ao contrário, a pressão pode aumentar à medida que o mercado global ficar mais preocupado com as investidas protecionistas do governo Trump e/ou o Federal Reserve passar a sinalizar que a taxa de juros norte-americana pode subir mais rápido neste ano.

O próximo aumento, aliás, ocorre já na semana que vem, após a primeira alta, em março. O novo aperto deve ser na mesma magnitude, de 0,25 ponto, para o intervalo entre 1,75% e 2%. A dúvida é em relação ao ritmo no segundo semestre de 2018 e, para isso, o investidor estará ávido por pistas, seja no comunicado, seja na fala do presidente do Fed, Jerome Powell.

Nesta manhã, o juro projetado pelo título dos Estados Unidos de 10 anos (T-note) já se aproxima novamente da faixa de 3%, enquanto o dólar perde terreno para as moedas rivais, mas mantém a pressão nas emergentes, com destaque para a lira turca, antes da decisão do BC local sobre a taxa de juros. Nas bolsas, os índices futuros em Nova York avançam, embalando o pregão na Europa, após uma sessão de alta na Ásia. O petróleo sobe.

No calendário econômico externo, a quinta-feira começa os números finais do Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro e reserva também os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos nos EUA (9h30), além dos dados sobre o crédito ao consumidor em abril (16h).

Já a agenda doméstica do dia segue fraca, mas merece atenção o resultado do IGP-DI no mês passado (8h). O indicador deve acelerar e subir 1,40%, refletindo o impacto nos preços no atacado tanto da valorização do dólar quanto da greve dos caminhoneiros. Já a taxa acumulada nos 12 meses encerrados em maio deve saltar 3% para quase 5%.

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