Mercado fecha trimestre volátil com perdas no mês


Chega ao fim hoje mais um trimestre que valeu por um ano. Aliás, essa sensação tem sido recorrente ao longo de 2020, desde que a pandemia de coronavírus abalou o mercado financeiro global, em março, causando danos econômicos por causa do isolamento social e queda abrupta nos preços dos ativos, o que instou um resgate histórico por parte dos principais bancos centrais.


E foi a colossal injeção de liquidez que garantiu uma recuperação estelar dos negócios com risco, acompanhada da reabertura da atividade em vários países. Mas à medida que a fonte dos BCs secou e a retomada econômica foi perdendo tração, a volatilidade foi ganhando força, em meio a muitas incertezas em torno da covid-19. Como resultado, setembro deve ser o primeiro mês de resultado negativo nas bolsas desde então.


Os investidores podem até aproveitar a última sessão do mês para “embelezar” suas carteiras, promovendo os ajustes finais antes da virada da folhinha, mas as perspectivas nada animadoras para o quarto trimestre de 2020 tendem a limitar o apetite por risco, redobrando a postura defensiva. Afinal, o período será marcado pela eleição presidencial nos Estados Unidos, onde a disputa está em aberto, aguçando o vaivém dos mercados.


O primeiro debate entre Donald Trump e Joe Biden, foi caótico, para dizer o mínimo. Não faltaram insultos, xingamentos e troca de farpas com acusações pessoais entre os dois, ao ponto de o democrata mandar o republicano “calar a boca”. O moderador da Fox News, Chris Wallace perdeu o controle do confronto e o resultado final foi amargo, incapaz de mudar a opinião de eleitores indecisos ou que não pretendem votar daqui a 35 dias.


Exterior instável


Mas o mercado de apostas se moveu ligeiramente a favor de Biden, o que imprime perdas nos índices futuros das bolsas de Nova York nesta manhã. Wall Street teme que uma mudança de direção na Casa Branca signifique impostos mais altos às empresas. Ao mesmo tempo, os investidores acompanham de perto os últimos esforços do Congresso para aprovar um novo pacote de estímulo fiscal contra os impactos do coronavírus.


Aliás, os casos crescentes da doença na Europa, com o Reino Unido registrando o maior aumento de novas infecções desde o início da pandemia, elevam o temor de uma segunda onda de contágio, podendo levar à adoção de novas medidas restritivas à atividade e à circulação de pessoas. E o mercado pode até lidar com dados econômicos instáveis, mas não está no preço dos ativos um novo fechamento (lockdown).


Ou seja, para o mercado financeiro, a economia precisa permanecer aberta. Diante disso, as bolsas europeias abriram em queda, pressionadas também pelo sinal negativo vindo do outro lado do Atlântico Norte. O euro e a libra caem, com o dólar ganhando terreno em relação às moedas rivais, em meio ao receio de que a economia volte a sofrer um novo baque da pandemia. O petróleo também recua, com sinais de queda na demanda global.


Na Ásia, a sessão foi mista, com perdas em Tóquio (-1,5%) e ganhos em Hong Kong (+1%) e leve baixa em Xangai (-0,2%), apesar do ganho de tração da atividade econômica chinesa em setembro. O índice oficial dos gerentes de compras (PMI) da indústria na China subiu a 51,5, acima dos 51 em agosto e dos 51,2 esperado. Já o setor de serviços subiu ao maior nível em quase sete anos, a 55,9 neste mês, ante previsão de 55,2.


Os números refletem a melhora da demanda global, do consumo doméstico e também as medidas de apoio adotadas por Pequim. O governo chinês alimenta esperanças de que os consumidores aumentem ainda mais os gastos no varejo e com serviços durante o feriado nacional de oito dias, que começa amanhã. A expectativa é de que o turismo interno seja estimulado, beneficiando hotéis e restaurantes, devido a restrições de viagens ao exterior.


Até tu?


Por aqui, os riscos fiscais somam-se à tensão vinda do exterior. A proposta do governo Bolsonaro para financiar o Renda Cidadã, programa social que irá substituir o Bolsa Família, desagradou os investidores. A ideia de utilizar recursos destinados ao pagamento de precatórios e parte do Fundeb, sem cortar gastos, provocou um déjà vu no mercado doméstico, relembrando os tempos de “pedalada” fiscal e até mesmo de calote da dívida.


Ficou clara a incapacidade do governo em avançar com medidas de ajuste fiscal focadas no corte de gastos. Até o momento, as propostas apresentadas pela equipe econômica incluem criação e/ou aumento de imposto, bem como ações que buscam driblar a Constituição. A interpretação dos investidores, então, é de que o governo pretende postergar despesas e, ao mesmo tempo, burlar o “teto de gastos”.


E o que mais intrigou foi a postura do ministro Paulo Guedes. Por mais que tenha sido voto vencido, ele não esbanjou reação, sequer demonstrou insatisfação, como em outras vezes, quando criticou a ala do governo que queria “furar” o “teto” ou quando mostrou preocupação com a “debandada” de sua equipe econômica. Ao contrário, o ex “Posto Ipiranga” adotou a postura de “fiador” dos recursos, endossando a proposta.


Mas ainda que o governo não volte atrás, a proposta deve enfrentar obstáculos entre a classe política. Aliás, o governo já pode sofrer um revés hoje no Congresso, que avalia os vetos presidenciais, entre eles, o que impediu a extensão da desoneração da folha de pagamentos em 17 setores até o fim de 2021. A chance de o veto ser derrubado é alta, abrindo mão de R$ 10 bilhões em arrecadação, o que pode abalar novamente o mercado.


(Des)Emprego em destaque


Dados sobre o mercado de trabalho no Brasil (Pnad) e no setor privado dos EUA (ADP) estão em destaque hoje. Por aqui, a taxa de desocupação deve renovar o maior nível do ano e de toda a série histórica, atingindo o recorde de 13,8% no período até julho, com mais de 13 milhões de pessoas fora da força de trabalho. Ao mesmo tempo, a população ocupada deve seguir a menor da história, ao redor de 80 milhões de pessoas.


Os dados efetivos serão conhecidos às 9h. Depois, o Banco Central rouba a cena, trazendo dados fiscais em agosto (9h30) e os números semanais sobre a entrada e saída de dólares (fluxo cambial) do país (14h30). Nos dados até a semana anterior, as retiradas de capital estrangeiro no acumulado do ano já eram a maior da história, somando pouco mais de US$ 15 bilhões. Também é esperado o Caged, com dados sobre o emprego formal.


Já nos EUA, a previsão é de abertura de 700 mil vagas no setor privado norte-americano neste mês, mais que a criação de 428 mil postos de trabalho no mês anterior. O número oficial será divulgado às 9h15. Na sequência, também merece atenção a terceira e última estimativa do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA no segundo trimestre deste ano, que devem confirmar o tombo ao redor de 32%, na leitura anualizada.


Ainda no calendário econômico norte-americano, saem o índice de atividade em Chicago neste mês (10h45), as vendas pendentes de imóveis residenciais em agosto (11h) e os estoques semanais de petróleo bruto e derivados no país (11h30).


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