Exterior comanda rali, apesar dos riscos no Brasil


Mercado financeiro mantém apetite por risco no exterior nesta véspera da posse de Biden, enquanto ativos no Brasil tentam ignorar desafios locais com vacina e na política


O início da vacinação no Brasil melhorou o ambiente, mas o comportamento favorável do mercado financeiro ontem esteve mais atrelado ao humor global. Até porque as dúvidas em relação à imunização da população são muitas, com o país tendo disponível até agora 6 milhões das 30 milhões de doses necessárias só para os grupos prioritários e dependendo da matéria-prima que vem da China para fabricar mais vacinas contra a covid-19.

Na volta do pregão em Wall Street, após o fim de semana prolongado nos Estados Unidos, os investidores mantêm a expectativa de boas notícias do novo governo, nesta véspera da posse do presidente eleito Joe Biden. O sinal positivo prevalece entre os ativos de risco, à espera da audiência de Janet Yellen, ex-presidente do Federal Reserve, indicada para o cargo de secretária do Tesouro. Ela depõe no Congresso a partir das 12h.

A expectativa é de que o depoimento sirva de teste para os legisladores avaliarem o pacote fiscal de US$ 1,9 trilhão anunciado na semana passada por Biden, com medidas de combate à disseminação do coronavírus e de estímulos à economia norte-americana. Yellen deve tratar também da política monetária, dizendo que as baixas taxas de juros no país significam que é hora de agir.

À espera da confirmação no cargo, os índices futuros das bolsas de Nova York exibem ganhos firmes, embalando a abertura do pregão na Europa, após uma sessão positiva na Ásia - exceto em Xangai (-0,8%). Já o dólar perde terreno de forma generalizada, diante da expectativa de que Yellen deixará claro que as taxas de câmbio são determinadas pelo mercado. O juro do título dos EUA de 10 anos (T-note) volta a ficar acima de 1,10%.

“Vachina”

A ver, então, se os ativos locais irão continuar pegando carona no rali externo e seguindo alheios aos desafios domésticos. E são muitos. Antes mesmo da aceleração de casos e mortes por coronavírus, a atividade econômica já dava sinais de perda de tração, o que aumenta a pressão por medidas adicionais de estímulo, em meio ao acúmulo de riscos fiscais e inflacionários. Tudo isso torna a situação delicada, “apesar da vacina”.

Aliás, para fabricar as duas únicas vacinas aprovadas de forma emergencial pela Anvisa - CoronaVac e Oxford - o Brasil precisa contar com a ajuda de um país que o presidente Jair Bolsonaro, os filhos dele e ministros do seu governo vêm atacando de várias formas desde o início da pandemia: a China. É de lá que vem os insumos para que a Fiocruz e o Instituto Butantan possam fabricar aqui os imunizantes.

O carregamento da matéria-prima está parado em solo chinês, cerca de um mês antes do maior feriado do país, que fica paralisado por mais de uma semana. E na chamada “diplomacia da vacina”, a Índia pode priorizar a exportação de doses para outros países, gerando um novo atraso no lote de 2 milhões de imunizantes da Oxford contratados pelo Brasil. A previsão é de que as primeiras remessas ocorram "nas próximas semanas".

É a política!

Mas o presidente está mesmo preocupado é com as ameaças ao seu mandato, o que o levou a dizer ontem que são as “Forças Armadas que decidem se o povo vive em uma democracia ou em uma ditadura”. A fala de Bolsonaro é uma reação desesperada ao aumento da pressão popular por um impeachment, à perda de popularidade que já aparece nas pesquisas e ao apoio do candidato rival à presidência na Câmara.

Vamos por partes. Nas redes sociais, os pedidos de impeachment do presidente cresceram de forma exponencial, ao mesmo tempo em que movimentos sociais, artistas, juristas e políticos promovem uma nova ofensiva na campanha por crime de responsabilidade de Bolsonaro no combate à pandemia. Essa mobilização é captada pelos números, com a rejeição ao governo subindo de 35% para 40% entre dezembro e janeiro.

O levantamento foi feito pela pesquisa XP/Ipespe e o porcentual é similar ao visto em abril do ano passado. Ao mesmo tempo, a avaliação da gestão Bolsonaro como ótima ou boa caiu de 38% para 32%, marcando a primeira vez desde maio em que há redução no total de apoiadores ao presidente. Como se sabe, a abertura do processo de impeachment acontece na Câmara, que estará sob nova direção em fevereiro.

Ontem à noite, o Solidariedade decidiu trocar o apoio ao deputado Arthur Lira, que tem o aval de Bolsonaro, pela candidatura de Baleia Rossi, juntando-se ao bloco liderado pelo atual presidente, Rodrigo Maia, e que conta com partidos de oposição - entre eles o PT. Porém, o PTB decidiu apoiar Lira. Com isso, o placar estaria de 272 votos para Rossi contra 196 votos. Os 10 deputados do Podemos ainda não manifestaram apoio.

Agenda sem destaques

A agenda econômica do dia está sem destaques hoje. No Brasil, a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) começa hoje, mas o anúncio da decisão da Selic será feito apenas amanhã. Entre os indicadores, sai a segunda prévia deste mês do IGP-M (8h). No exterior, os EUA informam apenas o fluxo de capital estrangeiro em novembro (18h). Logo cedo, na zona do euro, tem o índice ZEW de sentimento econômico.


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