Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três


Depois de mais um dia de alta forte dos ativos de risco pelo mundo - a terceira consecutiva - o mercado financeiro inicia a sexta-feira com fôlego encurtado para seguir em frente. Mas o clima de calmaria que se instaurou nos negócios globais desde a última terça-feira continua, em meio à gama completa de armas fiscais-monetárias disponíveis no arsenal de governos e bancos centrais.


Mas, que ninguém se iluda, com essa melhora recente. Ao que tudo indica, trata-se apenas de um “rali do urso” (bear market rally), com o lado técnico do mercado ficando mais limpo. Depois de uma forte onda vendedora (sell-off), que disparou ordens de stop loss [perda máxima aceitável] e acionou o desmonte de posições para cobertura de margens, bem como a busca por proteção (hedge) em ativos seguros, abriu-se espaço para um rebalanceamento de carteiras.


Assim, acabou aquela fase “irracional” do mercado e voltou um pouco a “razão”. Com isso, percebe-se uma diminuição da pressão vendedora e o retorno dos compradores. Mas o volume financeiro também está menor, afinal, muitos sofreram fortes perdas e não tem como voltar agora. Não se trata, portanto, de um “dinheiro novo” e sim de reposição, o que leva o mercado a buscar um novo nível de equilíbrio no curto prazo em termos de preço.


Por isso, depois de três dias seguidos de alta, o que não acontecia desde fevereiro e tecnicamente colocou Wall Street novamente em um mercado de alta (bull market), os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram em queda, em torno de 1,5%. Na Ásia, porém, o dia foi de ganhos, seguindo o desempenho das bolsas ontem, enquanto as praças europeias também abriram no vermelho. Já o dólar está de lado e o petróleo sobe.


Esse comportamento lá fora tende a contaminar a bolsa e a moeda brasileira, que cravaram ontem a terceira alta seguida. Mas se o manual do mercado financeiro estiver certo, o rali significativo dos ativos globais de risco nesta semana tende a desaparecer. Afinal, a disseminação do vírus está se intensificando no Ocidente e o enorme estímulo fiscal-monetário pode ficar aquém da prevenção dos danos permanentes à economia real.


O cego que não quer ver


Ao mesmo tempo em que agradecem a iminente aprovação de um pacote de US$ 2 trilhões nos Estados Unidos e as nova garantias do Federal Reserve para resgatar a economia norte-americana de uma recessão profunda, os investidores digerem o fato de o país ter superado a China - e obviamente a Itália - registrando o maior número de casos de coronavírus no mundo. Tal fato confirma a previsão da OMS, com a América sendo o novo epicentro da doença.


Mas, como se sabe, o mercado financeiro tende a antecipar os fatos, refletindo a expectativa dos investidores. E o que se espera, lá na frente, é uma desaceleração da escalada do vírus, em termos globais, bem como um período mais curto de quarentena. Aliás, o presidente Jair Bolsonaro continua sendo o maior defensor da retomada econômica, apesar de o Brasil registrar o pico de vítimas e infectados por coronavírus em 24 horas.


Um debate que vem ganhando força no país é o chamado isolamento (lockdown) vertical, no qual apenas idosos, pessoas com outras doenças (hipertensão, diabetes etc.) ou infectadas fiquem em “confinamento”, afastadas de suas atividades rotineiras. O problema é que se outras pessoas que circularem normalmente na sociedade tiverem contato com indivíduos desse grupo de risco, esses continuarão expostos ao vírus.


Trata-se, portanto, de uma medida ineficaz. Afinal, priorizar números da economia e do mercado financeiro, em detrimento a idosos e pessoas com comorbidades preexistentes, não esconde a incapacidade das lideranças políticas de lidar com a doença. Mais que isso, não permite, em última análise, que a economia volte, de fato, ao normal, já que o restante da população não conseguirá mostrar o quão livre está dos riscos de contágio.


Enquanto não há um consenso, a Câmara aprovou auxílio mensal de R$ 600 aos trabalhadores informais, ante proposta original do governo de R$ 200. O texto prevê o repasse por três meses e ainda precisa ser aprovado no Senado. No caso da mulher que for mãe e chefe de família, a ajuda poderá ser de R$ 1,2 mil. Aliás, o ministro Paulo Guedes, que sumiu após anunciar medidas contra os trabalhadores durante o período da pandemia, foi visto no calçadão de Ipanema, no Rio, fazendo exercícios na Praia do Arpoador.


Assim, o verdadeiro catalisador (driver) para uma recuperação firme do mercado financeiro é derrotar o vírus. E, aqui, as notícias não são nada boas. Além de os EUA estar no topo do ranking, com um crescimento diário na ordem de 10 mil casos, o total de infectados no mundo já ultrapassa meio milhão de pessoas, com apenas 120 mil recuperadas. As outras 380 mil estão lotando leitos e UTIs de hospitais ou em quarentena. Há quase 24 mil vítimas.


Também salta aos olhos o ritmo acelerado de crescimento dos casos, subindo 300 mil em apenas uma semana. Mas há quem diga que a grande maioria das pessoas sofre pouco ou nada com a variante mais branda doença, uma vez infectadas pelo novo coronavírus. Se for confirmado, aí sim pode haver um alívio consistente no mercado financeiro, navegando na enorme liquidez de estímulos monetários e fiscais que permanecerá por muito tempo.


Agenda segue cheia


A semana chega ao fim trazendo, no Brasil, a leitura final da confiança na indústria neste mês (8h), a inflação ao produtor (IPP) no mês passado (9h) e a nota do BC sobre operações de crédito (9h30). Também merece atenção a decisão da Aneel sobre a bandeira tarifária que estará em vigor em abril.


Já no exterior, destaque apenas para os dados sobre a renda pessoal e os gastos com consumo nos EUA em fevereiro, às 9h30, e a versão revisada da confiança do consumidor norte-americano em março, às 11h. No eixo Europa-Ásia, o calendário econômico do dia está esvaziado.


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