Deus tá vendo



Os donos dos caminhões que atravessam o Brasil em todas as direções aparentemente despertaram do torpor que se seguiu ao golpe parlamentar contra Dilma Rousseff e agora, dois anos depois, deram-se conta de que foram afetados pelo brutal aumento nos preços dos combustíveis.


Alguns, mais recalcitrantes, acusam a “roubalheira” na Petrobras pela situação. Se tem #FORATEMER na brincadeira, não está sendo mostrado. Talvez os proprietários dos caminhões não tenham sido informados que os reajustes incessantes – nas bombas, sempre para cima, claro – derivam da nova política de preços adotada pela empresa e dos tais “desinvestimentos”, um neologismo barato para privatizações.


Enquanto a Petrobras vem sendo privatizada fatia a fatia pelo governo de plantão – para o deleite dos mercados financeiros e dos gigantes internacionais do setor –, a política de preços da companhia passou a acompanhar diariamente as oscilações no câmbio e as variações de preço do petróleo nos mercados internacionais, especialmente do Brent.


Tal política até faria algum sentido se o Brasil não fosse um país, na prática, autossuficiente em petróleo. A produção de petróleo gira atualmente acima dos 2,5 milhões de barris por dia de petróleo, diante de uma demanda diária de aproximadamente 2,7 milhões de barris/dia de combustíveis.


Mas qual é a pegadinha? Ao abrir mão de seu monopólio de facto no setor, abrindo espaço para a concorrência a partir de 2016, a capacidade de refino do país começou a diminuir. Consequentemente, a necessidade de importação aumentou, refletindo nos preços.


Há apenas alguns dias, até o Vaticano – sim, aquele mesmo da Igreja Católica – advertiu em um tratado que os persistentes impulsos especulativos do mercado financeiro acabarão por levar a humanidade ao colapso. Na visão da Santa Sé – e também de muita gente que não tem sido ouvida com a devida atenção –, as finanças deveriam estar a serviço da economia real, e não dos especuladores.


Em um país extremamente dependente do transporte rodoviário, como é o caso do Brasil, o colapso divinamente preconizado parece uma questão de tempo.


O congelamento de preços do diesel tem ares de compra de tempo. Quem sabe evite uma situação de pânico por causa do locaute dos caminhões, antes que se perceba como é fácil provocar desabastecimento em um país, independentemente de suas dimensões ou peculiaridades geográficas.


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