Certezas variáveis na pandemia


Mercado financeiro dá como certas aprovação do pacote trilionário do governo Biden e de nova rodado do auxílio emergencial, mas medidas geram dúvidas


Duas certezas, várias variáveis. O mercado financeiro dá como certas a aprovação do pacote de US$ 1,9 trilhão do governo Biden e também da nova rodada do auxílio emergencial no Brasil. Mas as dúvidas em relação aos impactos econômicos de mais estímulos inibem o apetite dos investidores, embora os sinais de um novo ciclo de expansão das commodities alimente o rali sem fim dos ativos de risco.

Wall Street vem dando sinais de esgotamento da escalada em direção a topos históricos, que, até então, é impulsionada pela perspectiva de aceleração da economia dos Estados Unidos. Essa esperança anima o petróleo e os metais básicos, mas o receio de que o crescimento seja acompanhado de inflação diminuiu o ímpeto das ações, uma vez que a alta dos preços afeta o lucro das empresas, principalmente de tecnologia.

Os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram em queda, mantendo o sinal visto desde ontem à noite, que encurtou o fôlego de alta da Bolsa de Xangai (+0,6%) na volta aos negócios. As demais praças asiáticas fecharam em queda, contaminando a abertura do pregão europeu, com os investidores ponderando as implicações do recente salto nos rendimentos (yield) dos títulos soberanos norte-americanos (Treasuries).

O yield dos papéis da dívida dos EUA de 10 (T-note) e 30 anos (T-bond) estão estáveis nesta manhã, após atingirem nesta semana os níveis mais altos em cerca de um ano, dando sinais de que o Federal Reserve podendo reverter, em algum momento, a postura frouxa ("dovish") na condução da política monetária. Ou seja, para não ficar “atrás da curva”, a taxa de juros no país teria de subir.

Dilema de Tostines

Aqui no Brasil, já há consenso de que a Selic vai ser maior ao final deste ano do que os atuais 2% e é crescente a aposta de que o juro básico será o dobro em dezembro. Afinal, a pressão inflacionária pode aumentar com novos pagamentos aos mais vulneráveis aos impactos da pandemia e o ajuste fiscal pode ser abandonado de vez. A principal dúvida no mercado doméstico é se o retorno do benefício social irá respeitar o “teto dos gastos”.

A regra inviabiliza a expansão dos gastos fiscais e para ser mantida é necessário que haja alguma contrapartida. Mas governo e Congresso não conseguem concordar onde mexer no Orçamento, de modo a encaixar as despesas sem “furar” o “teto”. O problema é que se a política monetária deixa de ser estimulativa e a fiscal tem limites para fomentar a atividade econômica, como, então, o país será capaz de entregar crescimento sem gerar inflação?

Garantir renda a quem precisa, mas sem gerar emprego nem elevar a capacidade produtiva, acaba tendo um efeito reverso, com o aumento da inflação depreciando o valor da moeda e minando o poder de compra da população. Ainda mais diante da perspectiva de fortalecimento do dólar em nível global, com a moeda norte-americana acompanhando o movimento dos juros dos EUA, apesar da injeção de recursos para gerar crescimento.

Mas as negociações em Brasília em torno do auxílio emergencial foram interrompidas por um episódio inesperado, na volta da pausa forçada dos negócios locais por causa do carnaval. A prisão do deputado Daniel Silveira elevou a tensão entre os Poderes. Inicialmente, a rusga se dá entre Legislativo e Judiciário, que defendeu ontem, por goleada, a decisão do ministro Alexandre de Moraes, passando a bola para a Câmara.

Cabe agora ao plenário da Casa decidir se mantém ou se revoga a prisão em flagrante do deputado. Uma reunião de líderes está marcada para o início da tarde (14h), quando deve ser definido o horário da sessão de votação na Câmara. Com isso, as discussões sobre o valor, as parcelas e a fonte de recursos do benefício social ficam adiadas. Além disso, a detenção de Daniel pode causar atritos na relação entre o Palácio do Planalto e o Centrão.

O deputado do PSL do Rio é membro da tropa de choque bolsonarista e a prisão ordenada pela Suprema Corte (STF) de um aliado desagradou o presidente Jair Bolsonaro. Apesar de contrariado, ele foi aconselhado a evitar uma guerra aberta entre os Poderes, pois qualquer posicionamento do Executivo sobre o assunto tem potencial de contaminar a agenda do governo no Legislativo, desperdiçando capital político.

A tendência é de que a Câmara revogue a detenção, mas seja a favor de alguma punição ao deputado - entre elas, a perda de mandato. Só que Bolsonaro está de olho na reeleição em 2022 e tem sido pressionado por apoiadores nas redes sociais. Por isso, não se pode descartar que ele faça algum tipo de manifestação crítica à prisão de Silveira. Os filhos, Eduardo e Carlos, já se manifestaram. Trata-se, portanto, de uma questão de prioridades.

Hoje é vez do BCE

A agenda econômica doméstica perde força hoje e traz leituras preliminares de índices de preços, com destaque para a segunda prévia deste mês do IGP-M (8h). Lá fora, é a vez da ata da reunião do mês passado do Banco Central Europeu (BCE), logo cedo.

Ao longo da manhã, serão conhecidos indicadores dos EUA sobre o setor imobiliário e os preços de importação, ambos às 10h30, além dos dados semanais sobre seguro-desemprego (10h30) e os estoques de petróleo (12h).


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