A Onda


Eis que de repente caiu a ficha de uns e outros sobre os caminhos nebulosos da polarização política à qual os brasileiros têm sido submetidos nos últimos anos. Mas ela não começou na véspera do feriado da Independência, quando Jair Bolsonaro, o candidato da extrema-direita às eleições presidenciais de 2018, foi atacado com uma faca em Juiz de Fora, interior de Minas Gerais.


Talvez o susto tenha sido maior porque a violência política dos últimos anos até o momento vinha atingindo apenas um lado. Mas ela já estava lá dando as caras na campanha eleitoral de 2014, quando o jovem Hiago Augusto Jatobá de Camargo, cabo eleitoral de Gleisi Hoffman, então candidata ao governo do Estado do Paraná, foi morto a facadas em Curitiba. Quatro anos se passaram e o caso segue em aberto.


Também estava lá quando a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram sumariamente executados no Rio de Janeiro em 14 de março deste ano. Meses se passaram e o esforço investigativo para se chegar aos mandantes do duplo assassinato é digno de um riso constrangido.


Para citar mais um exemplo, a violência estava lá quando a caravana do ex-presidente Lula foi atacada a tiros no interior do Paraná. Um tiro atingiu o ônibus no qual viajavam os jornalistas que cobriam a viagem. Um delegado aventou a hipótese de investigar o caso como atentado. Logo acabou afastado.


Para além dos atos derivados da polarização política dos últimos anos, a sociedade brasileira patina em sua própria conivência com uma violência estrutural, com vastas áreas sob o controle de grupos criminosos, com a violência deliberada do próprio Estado e de suas polícias contra as populações mais vulneráveis, forçadas a conviver com índices de homicídios superiores aos de zonas de guerra.


Em um país supostamente pacificado, essa situação deveria causar repúdio, revolta, mas um vasto esforço para edulcorar e até mesmo justificar a situação faz com que muitos de nós repudie a violência apenas quando ela, muitas vezes aleatoriamente, chega mais perto do que julgamos conveniente.


E se queremos melhorar isto, o repúdio à violência precisa ser total, venha de onde vier, atinja quem atingir. Não se pode tolerar a violência contra o outro e depois posar de indignado quando ela bate à sua porta.


Jair Bolsonaro pode até ser conhecido pela virulência de suas declarações públicas. Recentemente falou até em fuzilar adversários políticos no norte do Brasil. Mas isto não justifica atos de violência contra ele. Nem contra Hiago, nem contra Marielle, nem contra Anderson, nem contra a caravana do Lula. Nem contra a maioria absoluta de jovens, negros e pobres assassinada nas periferias com contornos claros de limpeza social.


Como sociedade, deveríamos cobrar investigações profundas, transparentes e honestas dessa cena de filme de terror em que estamos inseridos. Mas enquanto persistir essa tendência a tolerar a violência contra o outro, seguiremos vítimas das cortinas de fumaça e das conclusões precipitadas - e da extrema violência que diariamente ceifa vidas por todos os cantos do país.


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