Sinais mistos

19.03.2020

 

O Banco Central entregou o corte de meio ponto na taxa básica de juros, para 3,75%, e sinalizou, mais uma vez, que acabou. Não haverá novos cortes e, bobear, a Selic pode até subir antes do fim do ano, pois “relaxamentos monetários adicionais podem tornar-se contraproducentes”, diante da escalada do dólar para além de R$ 5,00 e do pouco efeito prático na economia real. Mas também não é para criar expectativas irreais (desleais?). 

 

Afinal, o cenário no mercado financeiro é tão indefinido que nem mesmo os novos estímulos anunciados ontem à noite pelo Banco Central Europeu (BCE) e relatos de um acordo entre sauditas e russos sobre a oferta de petróleo são garantia de ganhos no dia. Os investidores questionam a eficácia desse esforço conjunto dos BCs para compensar os impactos econômico-financeiros da pandemia de coronavírus e se preparam para uma recessão prolongada. 

 

Com isso, o vaivém dos ativos é intenso. Os índices futuros das bolsas de Nova York não conseguiram sustentar a alta firme exibida na noite de ontem, na esteira da decisão do BCE de comprar 750 bilhões de euros em títulos até o fim de 2020, e oscilam na linha d’água nesta manhã, indicando que o Dow Jones pode ter dificuldades para reaver a marca psicológica dos 20 mil pontos, perdida ontem pela primeira vez desde 2017. 

 

Já as principais bolsas europeias tentam se firmar no azul, diante dessa nova tentativa em absorver o choque das condições de financiamento a famílias, empresas, bancos e governos. O movimento do BCE tem um grande impacto nos títulos soberanos da Itália, com o rendimento (yield) do papel de 10 anos caindo mais de 0,8 ponto, a 1,54%. O euro, por sua vez, cai em relação ao dólar, assim como a libra esterlina. 

 

A moeda norte-americana mede forças em relação às moedas rivais, à medida que os investidores vão concluindo que nada deve evitar uma recessão global. O iene, tido como porto seguro, ganha terreno, mas o yield dos títulos norte-americanos (Treasuries) avança, assim como o ouro. O petróleo, por sua vez, se recupera do tombo da véspera e sobe mais de 10%, com o barril do tipo WTI sendo cotado acima de US$ 20.      

 

Na Ásia, as principais bolsas da região fecharam em queda, seguindo as fortes perdas da véspera em Nova York. Hong Kong foi o destaque de baixa, com -2,6%, enquanto Tóquio e Xangai caíram ao redor de 1%, cada. De um modo geral, os investidores mostram-se desapontados com a ajuda que vem sendo oferecida aos governo para as economias, com a crise do coronavírus mostrando poucos sinais de pico tão cedo.

 

Olhando pelo retrovisor

 

Mas é quase inimaginável que as mortes por Covid-19 fora da China já ultrapassam as registradas em território chinês, dada a população de quase 1,4 bilhão. No país mais populoso do mundo, o total de óbitos pela doença é de pouco mais de 3,2 mil, enquanto na Itália, cuja população é de 60 milhões, já ocorreram mais de 2 mil mortes. 

 

Com isso, a taxa de mortalidade por coronavírus na “bota” é de 8,3%, praticamente o dobro da média mundial, de 4,1%. Ainda assim, o país asiático concentra quase a metade (45%) de casos confirmados, chegando a 81 mil, de um total de 179 mil registros em todo o mundo. Mas é claro que o Ocidente olha com desconfiança para os dados chineses.

 

Ainda mais diante da demora na resposta de Pequim para combater o novo e mortal vírus, quando surgiu oficialmente em Wuhan, em dezembro. Como a cidade foi bloqueada só no fim de janeiro, suspeita-se que a China encobriu o número real de casos. Mas só hoje, quase dois meses depois, o local tido como epicentro da doença não registrou novos casos.

 

E enquanto o mundo apenas assistia a severa repressão imposta pelo governo chinês para isolar áreas infectadas e conter a disseminação do coronavírus, com enormes custos econômicos e sociais, nada foi feito para impedir que a doença chegasse a outros lugares. Na época, o mercado acreditava que a doença seria localizada - principalmente na China. 

 

Apesar dos alertas, não se calculou que o impacto do surto de coronavírus na indústria chinesa se espalharia para outros países por meio da cadeia global de suprimentos e também no mercado consumidor chinês, reduzindo tanto a oferta quanto a demanda por produtos e serviços, além do turismo (a lazer e de negócios).

 

Mas agora já se sabe que a gravidade da crise decorrente do coronavírus até supera a de 2008, uma vez que a atual surge na economia real - e não no mercado financeiro, como foi o caso pós-quebra do Lehman Brothers e do subprime. E, por mais que o efeito da doença seja temporário, não se sabe a partir de qual ponto a atividade global será retomada. 

 

O problema é que a demora em “precificar” essas incertezas, com os investidores esticando ao máximo a valorização dos ativos e prolongando o momento de “exuberância irracional” - alimentada pelos juros baixos (ou negativos) pelo mundo e pela injeção de liquidez dos principais bancos centrais - causa maiores estragos ao se deparar com um “cisne negro”. 

 

Irracionalidade

 

Mas o comportamento dos mercados no exterior hoje também pode abrir espaço para uma recuperação dos negócios locais, depois de mais um dia de “irracionalidade”. Ontem, a Bolsa brasileira precisou interromper o pregão pela sexta vez em oito sessões, igualando-se ao número recorde de vezes que o mecanismo de circuit breaker foi acionado em 2008 - porém, agora, em ritmo menos espaçado. 

 

Ainda assim, o Ibovespa encerrou com queda de pouco mais de 10%, abaixo dos 70 mil pontos, e também no menor nível desde 2017. Já o dólar fechou acima da marca de R$ 5,00 pelo terceiro pregão seguido, flertando com o nível de R$ 5,20, após ir além de R$ 5,25 durante a sessão, demandando quatro operações do BC no mercado cambial.

 

Aliás, no parágrafo final da decisão de ontem, o BC ressaltou que continuará fazendo uso de todo o arsenal de medidas de políticas monetária, cambial e de estabilidade financeira no enfrentamento da crise atual. O Copom também reafirmou que o cenário prescreve “cautela”, vendo como adequada a manutenção da Selic em seu novo patamar.

 

A reação a essa mensagem fica com o mercado de juros futuros, onde a recolocação de prêmios já reflete o mal-estar com a dinâmica fiscal e os riscos crescentes de contração da economia (PIB) neste ano, por causa da crise do COVID-19. Aliás, enquanto as secretarias estaduais contabilizam 529 infectados, o balanço do governo aponta 428, sendo que existem quase 9 mil suspeitos, já que o Brasil só faz testes em casos graves. 

 

Mas, claro, são os números da China que não são confiáveis. Aliás, o filho do presidente Jair Bolsonaro, o deputado Eduardo, resolveu externar a crença da família na já famigerada teoria da conspiração, republicando uma mensagem na rede social que dizia que “a culpa pela pandemia de coronavírus tem nome e sobrenome: o Partido Comunista Chinês”.

 

O embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, também usou as redes sociais para exigir retratação do parlamentar, dizendo que o filho do presidente feriu a relação amistosa com o Brasil e “precisa assumir todas as consequências”. Nas mensagens, o embaixador aciona o chanceler Ernesto Araújo e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. 

 

O perfil da Embaixada da China no Brasil também rebateu a acusação - sem provas - feitas por Eduardo Bolsonaro, atrelando a ignóbil teoria à extrema-direita dos EUA. “Ao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, vírus mental, que está infectando a amizade entre os nossos povos”, escreveu no Twitter, citando o deputado federal. 

 

Agenda sem destaques

 

A agenda econômica doméstica volta a perder força hoje e está esvaziada, enquanto nos EUA saem o saldo em conta corrente no trimestre passado e os pedidos semanais de auxílio-desemprego, ambos às 9h30, além dos indicadores antecedentes de fevereiro (11h). Na Ásia, é esperado o anúncio da decisão de política monetária do BC da China (PBoC).  

 

 

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