Sem alívio nos mercados

27.02.2020

 
Passados os ajustes às fortes perdas dos mercados internacionais no início desta semana, os negócios locais abrem o dia com o Ibovespa no menor nível desde meados de outubro, na faixa dos 105 mil pontos, e o dólar em novo topo histórico pelo quinto pregão seguido, flertando com a marca de R$ 4,45. Mas ainda é muito difícil dizer que haverá algum alívio nos ativos globais em breve. A percepção dos investidores é de que o “efeito coronavírus” ainda pode se agravar mais, contaminando o crescimento econômico global. 

 

Com isso, as bolsas asiáticas tiveram um desempenho misto, com leves altas em Hong Kong e Xangai, mas quedas em Tóquio (-2,1%) e Seul (-1%). As principais bolsas europeias abriram com perdas aceleradas. Já os índices futuros das bolsas de Nova York caem desde ontem à noite, após uma entrevista coletiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, falhar em tranquilizar os mercados em relação ao controle da doença no país. 

 

Logo após Trump mostrar-se disposto em gastar “o que for apropriado”, um novo caso de coronavírus sem origem conhecida foi descoberto na Califórnia. A pessoa contaminada não viajou para áreas infectadas nem teve contato conhecido com quem já esteve, o que levanta uma perspectiva preocupante de que o vírus está se espalhando por outros meios, potencializado sua expansão.

 

Antes, a Microsoft alertou que não irá alcançar as metas trimestrais de desempenho financeiro devido aos efeitos do surto, sinalizando um impacto maior entre as empresas de tecnologia, após o alerta na semana passada da Apple. Esses avisos somados à aceleração de novos casos fora da China elevam o nível de apreensão no mercado financeiro quanto aos impactos econômicos do coronavírus. 

 

Ao mesmo tempo, o mercado de bônus envia outros sinais de alerta aos quais os investidores devem prestar atenção. A inversão no rendimento entre os títulos norte-americanos de 10 anos (T-note) e de três meses acender uma luz amarela, já que precedeu as últimas sete recessões nos EUA. Enquanto isso, o ouro segue em alta e o petróleo cai, apesar de o dólar perder terreno para as principais moedas rivais.

 

Sem horizonte

 

Portanto, é o momento para digerir as fortes perdas recentes dos mercados e reavaliar o cenário a partir de agora, digerindo o impacto total que o coronavírus pode significar para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) global e sobre o lucro de muitas empresas. O problema é que o horizonte econômico global está nebuloso e encoberto pelo vírus.

 

Com as fábricas na China ainda paradas e várias cidades bloqueadas, crescem os riscos à cadeia de suprimentos e aumentam as chances de recessão em economias centrais - europeias, em especial - e de recuperação ainda mais fraca nos países emergentes, resultando em um cenário de menor crescimento econômico global. 

 

Com isso, o mercado financeiro tende a ler a “história do vírus” como desinflacionária e com grande impacto na atividade, o que calibra as apostas por novos cortes nas taxas de juros pelo mundo. Porém, um eventual choque de oferta pode provocar inflação, em meio à falta de insumos utilizados no processo produtivo, deixando os bancos centrais com pouca ação.

 

Mas nessa conta também entram a queda no preço das commodities e a desaceleração da demanda global, contribuindo para uma perda adicional de tração do crescimento econômico, em um mundo já marcado por juros negativos. Tudo isso entra na seara de incertezas e baixa previsibilidade, deixando os investidores sem saber o que vai acontecer. 

 

O fato é que ontem, pela primeira vez desde o início da contagem da doença, o total de novos casos confirmados de coronavírus em locais fora da China superaram os registros da doença no país onde o surto começou. Trata-se de um ponto de virada, sinalizando que a batalha contra o COVID-19 está saindo da China e espalhando-se pelo mundo. 

 

Talvez seja o tal ponto de inflexão da doença que era amplamente esperado - mas não nesse molde, saindo para fora da China. Agora, será interessante observar se haverá uma inversão por parte de Pequim, com o governo chinês tornando-se ainda mais rígido quanto à entrada de estrangeiros, principalmente se vierem de países que têm casos do vírus.

 

Dia de agenda cheia

 

E agenda econômica está carregada hoje, no Brasil e no exterior, o que tende elevar a volatilidade dos mercados. Por aqui, o destaque fica com o resultado deste mês do IGP-M (8h), que deve registrar deflação, após iniciar janeiro mostrando uma dissipação do choque de preços das proteínas. 

 

Também serão conhecidos dados regionais da inflação ao consumidor brasileiro, logo cedo. Depois, às 9h30, o Banco Central publica a nota de política monetária, com os dados sobre as operações de crédito e inadimplência referentes ao mês passado, e o Tesouro divulgam às 10h, o resultado das contas públicas do governo central também em janeiro. 

 

À tarde, às 14h30, BC e Tesouro voltam à cena para anunciar os dados parciais de fevereiro sobre a entrada e saída de dólares (fluxo cambial) do país e divulgar o relatório mensal da dívida pública referente a janeiro, respectivamente. Por fim, saem os dados semanais da balança comercial (15h). 

 

Já no exterior, o destaque fica com a segunda prévia do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA no quarto trimestre de 2019. A previsão é de confirmação da leitura original, de alta de 2,1%. Os números efetivos serão divulgados às 10h30. No mesmo horário, saem os pedidos de bens duráveis em janeiro e os de seguro-desemprego na semana passada.

 

Por fim, o calendário norte-americano traz ainda as vendas pendentes de imóveis residenciais em janeiro (12h). Na zona do euro, logo cedo, merecem atenção o índice de sentimento econômico na região em fevereiro e a participação da presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, em evento em Londres.

 

 

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