Promessas do governo seduzem mercado

02.09.2020

 
O voto de confiança dado pelo mercado financeiro ao governo ontem permitiu ao Ibovespa voltar à faixa dos 100 mil pontos, perdida na última sessão de agosto, e retrocedeu o dólar para abaixo de R$ 5,40. Resta saber se o Congresso irá aprovar as reformas administrativa, tributária e o Orçamento de 2021, ou se os investidores caíram no canto da sereia.   

 

Afinal, foi grande o poder de atração do presidente Jair Bolsonaro e do ministro Paulo Guedes (Economia) para desviar a atenção do tombo histórico do Produto Interno Bruto (PIB) do país no segundo trimestre deste ano, confirmando que a economia doméstica entrou em recessão técnica. Não faltaram câmeras nem microfones em Brasília. 

 

Mas os investidores precisam tomar cuidado para não serem envolvidos pelo tom suave vindo do Planalto Central e acabarem naufragando. Afinal, por mais que a queda acentuada do PIB fosse esperada, os ruídos emitidos pela atividade já eram ouvidos desde a virada de 2019 e, em março, o som produzido entre a oferta e a demanda estava menos harmônico. 

 

O desafio agora é criar uma nova sintonia entre produção e consumo, em meio à necessidade das famílias pela extensão do auxílio emergencial, ainda que em um valor menor, de R$ 300. Aliás, tampouco se sabe como Guedes irá fazer para atender às demandas eleitorais do presidente e encaixar o Renda Brasil sem “furar” o “teto dos gastos”. E ainda tem os anseios da ala militar por recursos para obras públicas.

 

Por isso, pareceu um pouco estranha toda a animação do mercado doméstico com a promessa da equipe econômica de que tais propostas passarão pela intermediação do Congresso e de que a queda do PIB brasileiro foi um “barulho de um raio” que caiu em abril - conforme palavras do ministro. Segundo ele, agora, o país está “decolando em V”.

 

Mundo encantado

 

A ver, então, se os ativos locais seguirão seduzidos hoje. Lá fora, os investidores também estão encantados com as palavras suaves (“dovish”) do presidente do Federal Reserve. Desde a semana passada, quando Jerome Powell anunciou uma mudança na estratégia de política monetária, percebe-se um renovado apetite por risco.

 

Esse movimento desenfreado reflete a perspectiva de manutenção do juro zero nos Estados Unidos por um longo período, ainda que a inflação no país fique acima do desejado. Isso porque o Fed colocou mais foco no combate ao desemprego do que no controle da alta dos preços, priorizando apenas um dos pontos de seu duplo mandato. 

 

Por isso, merecem atenção hoje os dados da ADP sobre a criação de emprego no setor privado dos EUA em agosto (9h15). A previsão é de abertura de 1 milhão de vagas, com a geração de postos de trabalho ganhando força frente ao saldo positivo de 167 mil em julho. O número ganha mais importância em tempos de disputa presidencial pela Casa Branca. 

 

Aliás, o presidente Donald Trump tenta um trunfo para garantir a reeleição em novembro e insiste que o Congresso norte-americano aprove um novo pacote fiscal para que a economia dos EUA consiga superar os danos causados pela pandemia. As negociações entre republicanos e democratas sobre o estímulo adicional estão paralisadas.

 

Ainda assim, os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram em alta, sinalizando uma continuidade dos ganhos na primeira sessão do mês. Os investidores alimentam esperanças de que a combinação de estímulos monetários e fiscais nos EUA com a possibilidade de uma vacina contra a covid-19 irá impulsionar a recuperação econômica.

 

As principais bolsas europeias também abriram no positivo, seguindo a sinalização vinda de Wall Street, após uma sessão mista na Ásia, onde Xangai e Hong Kong caíram, com -0,2%, cada, mas Tóquio subiu (+0,5%). No Pacífico, destaque para a alta de quase 2% da Bolsa de Sydney, apesar de a Austrália ter entrado em recessão pela primeira vez em 29 anos.

 

Nos demais mercados, o euro devolve boa parte dos ganhos registrados ontem, quando quebrou a barreira de US$ 1,20 e alcançou o maior valor em relação ao dólar desde maio de 2018. A moeda norte-americana recupera terreno frente aos rivais hoje, o que não impede o avanço do petróleo. 

 

Ainda na agenda do dia, saem as encomendas às fábricas nos EUA em julho (11h), os estoques semanais de petróleo bruto e derivados (11h30) e o Livro Bege (15h). No fim do dia, a China anuncia o índice sobre a atividade no setor de serviços no mês passado. Por aqui, tem o índice de preços ao produtor em julho (9h) e os dados do fluxo cambial (14h30).

 

 

 

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