Ou esse poço não tem fundo ou essa queda não tem fim

12.03.2020

 
O presidente Donald Trump fez um pronunciamento duro ontem para tentar mostrar força e confiança no combate à pandemia de coronavírus, mas falhou em resgatar Wall Street do território dos ursos (bear market), no qual adentrou ontem pela primeira vez em mais de dez anos. Ao contrário, o mercado financeiro amplia as perdas, com os ativos de risco despencando em um poço muito fundo e ainda longe de alcançar o fim dessa queda. 

 

Os índices futuros das bolsas de Nova York afundam desde ontem à noite, reagindo à decisão de Trump de suspender voos da Europa para os EUA pelos próximos 30 dias. As restrições têm início amanhã e não se aplicam apenas ao Reino Unido. Segundo Trump, tal medida é necessária para evitar novos casos no país, pois a União Europeia (UE) falhou em tomar as precauções e restringir voos da China e outros países. 

 

Do outro lado do Atlântico Norte, as bolsas europeias abriram no vermelho, com o índice referencial Stoxx Europe 600 caindo ao nível mais baixo desde julho de 2016. As ações de  companhias aéreas lideram as quedas. Agora, o foco na região se volta para a reunião de política monetária do Banco Central Europeu (BCE), que também deve anunciar corte nos juros, seguindo as decisões recentes dos BC dos EUA (Fed) e da Inglaterra (BoE).

 

Na Ásia, o tombo também foi feio. A Bolsa de Tóquio liderou as baixas, caindo mais de 4%, mas foi seguida de perto por Seul (-3,9%) e Hong Kong (-3,7%), enquanto Xangai recuou apenas 1,5%. Na Austrália, a Bolsa de Sydney desabou mais de 7%. Nos demais mercados, o dólar cai, assim como o rendimento (yield) das Treasuries e o petróleo. Ao mesmo tempo, os investidores buscam proteção no ouro, no iene e no franco suíço.  

 

Trata-se, portanto, de um típico comportamento de pânico, com os investidores não demonstrando nenhum interesse significativo de compra. E esse movimento totalmente irracional, amparado em nenhum fundamento econômico, pode continuar no curto prazo, ampliando a queda livre dos ativos de risco. O fim do poço vai depender de como a ‘história do vírus” avança e o que está sendo feito para conter a disseminação da doença no mundo. 

 

Brasil contaminado

 

Portanto, o mercado brasileiro deve sofrer um novo baque hoje, um dia após o Ibovespa interromper as negociações durante o pregão pela segunda vez nesta semana, ao cair pouco mais de 10%. A Bolsa brasileira chegou a aprofundar as perdas na volta aos negócios, tocando o limiar dos 80 mil pontos, mas acabou se recompondo e fechou na faixa dos 85 mil pontos, nos níveis mais baixos desde outubro de 2018. 

 

O dólar, por sua vez, retrocedeu e aproximou-se da faixa de R$ 4,70, após flertar com a marca de R$ 4,75. Atento a isso, o Banco Central deixou programado para esta manhã mais um leilão de venda no mercado à vista, no qual ofertará até US$ 1,5 bilhão das reservas internacionais, sinalizando certo “desconforto” com os níveis que a moeda norte-americana vem alcançado, o que pode comprometer a intenção da autoridade monetária de cortar a Selic na semana que vem. 

 

Não se pode descartar que o mecanismo de circuit breaker da Bolsa seja acionado novamente hoje, com os ruídos políticos em Brasília potencializando as perdas. O Executivo e o Legislativo seguem em pé de guerra. O confronto entre Congresso e governo evolui e ameaça as medidas de ajuste fiscal propostas pela equipe econômica do ministro Paulo Guedes. Os parlamentares têm dúvidas quanto à eficácia de medidas pró-cíclicas diante de uma recessão global que se avizinha.

 

O clamor, até mesmo de partidos ultraliberais, como o Novo, é por ações anticíclicas, com intervenção do governo e medidas que visam minimizar os efeitos de tal novo ciclo econômico. Da mesma forma, os investidores esperam uma atuação mais clara da Casa Branca e dos outros governos para combater a pandemia, uma vez que a solução contra a doença não é apenas injetar liquidez nos mercados, visando “afogar” o vírus. 

 

Agora é vez do BCE

 

Depois dos cortes emergenciais nos juros promovidos pelos bancos centrais dos Estados Unidos (Fed), na semana passada, e da Inglaterra (BoE), ontem, hoje é a vez do BC europeu (BCE) anunciar estímulos monetários adicionais. Na semana que vem, é a vez do BC brasileiro (Copom), sendo que o Federal Reserve ainda pode repetir a dose.  

 

Mas enquanto a Selic tem espaço para cair um pouco mais, podendo ir abaixo de 4% ainda neste semestre - apesar da pressão adicional que isso traria ao dólar - e a taxa dos Fed Funds pode ficar próxima a zero em breve, o BCE tem pouca margem de manobra. Afinal, a taxa básica de juros na zona do euro já está em zero há algum tempo. 

 

Há poucos meses no cargo, a presidente da autoridade monetária na zona do euro, Christine Lagarde, deve anunciar hoje a redução da chamada taxa de depósito [equivalente ao compulsório bancário], deixando-a ainda mais negativa, em -0,6%. Além disso, o BCE também deve facilitar o acesso às operações de financiamento de longo prazo, as TLTROs. 

 

A decisão será anunciada às 9h45, seguida de uma entrevista coletiva de Lagarde às 10h30. Trata-se do grande destaque da agenda econômica do dia. Antes, saem os dados da produção industrial na zona do euro em janeiro (7h). Aqui no Brasil, serão conhecidos os números regionais da indústria (9h). 

 

Já nos EUA, sai o índice de preços ao produtor em fevereiro (9h30), que pode sinalizar se um eventual choque de oferta por causa do coronavírus está causando pressão inflacionária no atacado. No mesmo horário, serão conhecidos os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos no país. 

 

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