O tal do meteoro

30.03.2020

Mercado financeiro digere falas de Guedes sobre “meteoro” que atingiu Brasil e de Bolsonaro a favor da retomada da atividade econômica, enquanto Trump amplia isolamento social nos EUA


O mercado financeiro até que gostaria de iniciar a semana acreditando que o “meteoro” de coronavírus que se produz no mundo irá causar menos estragos do que se imagina e que as decisões de líderes globais serão capazes de mudar o impacto da pandemia na atividade econômica - que, para muitos, precisa ser retomada logo. O problema é que os mais de 730 mil casos confirmados e as 34 mil mortes mostram que qualquer medida que não seja combater a doença pode acelerar esse fenômeno que se produz na atmosfera terrestre.

 

Durante o fim de semana, o ministro da Economia, Paulo Guedes, apareceu em algumas videoconferências. Na primeira, promovida pela maior corretora de valores nacional, ele afirmou que o Brasil foi atingido por um “meteoro” e reconheceu que não se sabe “a amplitude dessa bomba genética”, mas afirmou que o Brasil vai “saber fazer a coisa certa” para “combater o meteoro”. Na ocasião, ele pediu desculpas pelo “sumiço”, várias vezes. 

 

Porém, Guedes admitiu que o tempo que a economia aguenta é menor que o que a saúde exige para combater a pandemia de coronavírus no país. Em outra videoconferência, desta vez, com prefeitos, o ministro afirmou que, “como economista”, gostaria de retomar a produção antes do prazo de três meses estimado pelo Ministério da Saúde. “Como cidadão, ao contrário, quero ficar em casa”, ressaltou. 

 

Tal dilema, porém, já parece estar resolvido para o presidente Jair Bolsonaro. Além de ignorar a recomendação da OMS, reforçada pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, sobre o isolamento social, Bolsonaro afirmou, durante passeio em Brasília, que estuda liberar o retorno às atividades de trabalhadores formais e informais via decreto, talvez já nesta segunda-feira, de modo que estes tenham como “levar sustento” para casa.       

 

A questão é que basta um pequeno escorregão (como esse) no combate à Covid-19 no país para que o número de casos da doença cresça exponencialmente em um ritmo mais acelerado do que o já observado. Oficialmente, o país tem mais de 4 mil infectados e de 130 mortos. Mas se sabe que os números reais são bem maiores, pois o Brasil é um dos países que realiza menos testes no mundo e há muitos infectados sem sintomas. 

 

Aliás, essa subnotificação dificulta o enfrentamento da doença e a adoção de medidas que incentivem a volta ao trabalho, como quer Bolsonaro (e grande parte dos empresários), pode incorrer em erros vistos em países como a Itália. Ao mesmo tempo, o presidente (e sua equipe econômica) ignora outras opções para manter a renda dos cidadãos, focando mais no acesso das empresas ao crédito e na rolagem de dívidas de estados e municípios.

 

Afinal, o coronavírus está obrigando diversos países - e não apenas o Brasil - a frear a atividade econômica e o desemprego é uma ameaça em todo o mundo. Mas apesar dos riscos em manter as pessoas circulando e das experiências negativas no exterior, bem como das alternativas em debate no mundo, Bolsonaro (e parte dos agentes econômicos) insiste em incentivar a exposição ao vírus. Quem sabe um meteoro cause menos estrago... 

 

Trump Muda Tom e Afeta NY

 

Lá fora, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mudou o discurso e pediu para a população ficar em casa até 30 de abril. O prazo anterior estipulado por ele para o fim da quarentena era na Páscoa, no dia 12. Trump vinha defendendo o afrouxamento das medidas de isolamento e chegou a declarar, no sábado, que não era necessário bloquear (lockdown) Nova York, Nova Jersey e Connecticut.

 

Trump parece ter dado ouvido aos conselhos do principal especialista em doenças infecciosas dos EUA, o médico Anthony Fauci, que afirmou que a Covid-19 ainda deve infectar milhões de “americanos”, com o total de mortes podendo chegar a 200 mil. A “América” segue no topo da lista como o país com mais casos da doença, totalizando mais de 140 mil e 2,5 mil óbitos. Segundo Trump, o pico das mortes será daqui a duas semanas. 

 

Em reação, os índices futuros das bolsas de Nova York caem desde ontem à noite, sinalizando um início de semana de perdas em Wall Street, após interromper na última sexta-feira uma sequência de três altas consecutivas. Na Europa, que entrou ontem em horário de verão, o sinal negativo também prevalece, com as ações de bancos liderando as perdas após o Banco Central Europeu (BCE) pedir a interrupção do pagamento de dividendos até outubro.

 

As principais bolsas asiáticas também fecharam em queda, diante do aumento acelerado de novos casos de coronavírus no mundo, que pulou 100 mil em apenas um dia. Tóquio liderou as perdas, em meio a rumores de que o Japão iria proibir a entrada de estrangeiros vindos dos EUA, China, Coreia do Sul e grande parte da Europa. Seul e Xangai reduziram as perdas e fecharam com leves baixas, enquanto Hong Kong cedeu 1,3%. No Pacífico, a Bolsa de Sydney saltou 7%, diante da promessa de novos estímulos.

 

Nos demais mercados, destaque para a queda ao redor de 5% do petróleo, com o barril do tipo WTI cotado na faixa de US$ 20. Já o petróleo Brent, tido como padrão internacional, cai ainda mais (-8%), mas é cotado acima de US$ 25. O derretimento dos preços das commodities faz lembrar a previsão do Goldman Sachs à época do estouro da guerra de preços entre sauditas e russos, de que o petróleo cairia abaixo de US$ 20, por causa dos estoques elevados.

 

Ao mesmo tempo, o dólar ganha terreno em relação às moedas de países desenvolvidos e emergentes - exceto o iene - enquanto o rendimento (yield) do título norte-americano de 10 anos é cotado abaixo de 0,7%, refletindo as expectativas de recessão econômica global e a maior demanda por proteção em ativos seguros. O ouro, por sua vez, oscila em alta, cotado acima da marca de US$ 1,6 mil por onça-troy.  

 

Esse desempenho no exterior tende a contaminar o Ibovespa, que também passou por realização após três dias seguidos de ganhos, enquanto o dólar engatou a décima sessão acima de R$ 5,00. Resta saber se Bolsonaro também irá mudar de ideia em relação à flexibilização do isolamento social e à retomada da atividade econômica e passará a ecoar o (novo) posicionamento de Trump sobre o coronavírus - como já fez em diversos momentos.

 

Atividade, Emprego e Balanços em Destaque

 

As atenções desta semana estão voltadas aos indicadores sobre o mercado de trabalho e a atividade no Brasil e no exterior. Enquanto as leituras finais de março dos índices dos gerente de compras (PMI) sobre os setores industrial e de serviços pelo mundo recheiam a agenda; aqui, os dados da Pnad saem amanhã e lá fora o payroll é na sexta-feira. 

 

Antes, os números da ADP sobre o emprego no setor privado norte-americano, na quarta-feira, e as solicitações semanais de auxílio-desemprego, calibram as expectativas para o relatório oficial de emprego nos EUA. A expectativa é de aumento na taxa de desemprego e fechamento de vagas no mês passado. 

 

Ainda nos EUA merece atenção a safra de balanços referente ao primeiro trimestre deste ano, que pode dar pistas sobre o impacto do coronavírus e do isolamento social nos negócios das empresas. Entre os destaques, saem os resultados financeiros de Conagra Brands e McCormick, amanhã; Lamb Weston, no dia seguinte, Walgreens Boots e Chewy, na quinta-feira e Constellation Brands, na sexta.  

 

Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia: 

*Horários de Brasília

 

Segunda-feira: A semana começa com uma agenda carregada no Brasil. Logo cedo, saem os resultados de março do IGP-M e da confiança do setor de serviços, ambos às 8h, além do relatório de mercado Focus (8h25). Já os dados da balança comercial ficaram para quarta-feira. No exterior, destaque apenas para o índice dos gerentes de compras (PMI) na indústria chinesa neste mês.

 

Terça-feira: Os números atualizados do mercado de trabalho no Brasil pela Pnad serão conhecidos hoje. É válido lembrar que, devido à pandemia de coronavírus, a coleta de dados sobre emprego e renda referente ao mês de fevereiro foi feita por telefone. Ainda na agenda doméstica, saem os dados fiscais compilados pelo Banco Central. Lá fora, merecem atenção a leitura preliminar deste mês do índice de preços ao consumidor (CPI) na zona do euro e o resultado final de março da confiança do consumidor norte-americano.   

 

Quarta-feira: As leituras finais  sobre o desempenho da atividade industrial no Brasil e no exterior recheiam a agenda econômica do dia. Destaque também para os números da ADP sobre o emprego no setor privado dos EUA em março. 

 

Quinta-feira: A agenda do dia perde força, trazendo apenas como destaque os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos nos EUA. No levantamento anterior, houve uma salto de 3 milhões de solicitações. No fim do dia, sai o PMI composto dos setores industrial e de serviços na China em março.

 

Sexta-feira: A semana chega ao fim trazendo como destaque os dados sobre o mercado de trabalho nos EUA em março. Também serão conhecidos as leituras finais do PMI composto da indústria e dos serviços na zona do euro, além do índice ISM do setor de serviços nos EUA. 

 

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