Mercados tentam se recuperar


O fluxo de notícias sobre o surto de coronavírus no mundo continuou negativo durante o fim de semana, o que não impede uma pausa nas perdas do mercado financeiro hoje, após Wall Street amargar a pior semana desde a crise de 2008. Com isso, os negócios locais tendem a ampliar a recuperação vista na última sexta-feira, com os investidores confiando no poderio dos bancos centrais para salvar os ativos de risco.


Após a declaração rara e totalmente inesperada do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, no fim da semana passada - o que sustenta os índices futuros das bolsas de Nova York no azul nesta manhã e embala a abertura do pregão europeu - hoje foi a vez do BC do Japão. O presidente do BOJ, Haruhiko Kuroda, disse, em comunicado, que irá fornecer “amplia liquidez através de operações de mercado aberto e compra de ativos”.


Em reação, a Bolsa de Tóquio apagou as perdas e fechou em alta de quase 1%. Mas os ganhos na região foram liderados pela Bolsa de Xangai, que saltou 3,1%, apesar de os primeiros dados econômicos de fevereiro mostrarem o estrago da doença na atividade, com a indústria e o setor de serviços desabando a um recorde de baixa.


Ainda na região, as bolsas de Seul e de Hong Kong subiram pouco menos de 1%, enquanto, no Pacífico, a de Sydney caiu 0,8%, observando o recuo no rendimento (yield) do título australiano de 10 anos para um mínimo histórico, com os investidores dando como certo um novo corte na taxa de juros da Austrália. O BC do país (RBA) reúne-se amanhã.


O papel de 10 anos dos Estados Unidos (T-note) também renovou recorde de baixa, indo a 1,10% hoje, com os investidores se amontoando em ativos seguros à medida que se tornam mais pessimistas quanto ao crescimento econômico global. Nas moedas, o dólar perde terreno para os rivais euro e iene, o que permite uma recuperação firme do petróleo, mas o ouro também avança.


In central banks we trust


Mas é a perspectiva de uma ação coordenada por parte dos principais bancos centrais globais que anima o mercado financeiro no exterior. Os investidores mostram menor receio em tomar risco desde que Powell afirmou que irá “agir como apropriado” para conter o “risco em evolução” que o vírus representa à economia.


A declaração reverteu boa parte das perdas de Wall Street na última sexta-feira e levou a apostas de duas quedas nos juros norte-americanos neste ano - sendo a primeira já neste mês. Declarações do presidente Donald Trump, de que a Casa Branca estaria discutindo cortes de impostos, de modo a evitar mais danos ao mercado financeiro e impedir uma desaceleração acentuada da economia dos EUA também animam.


Contudo, crescem as dúvidas quanto à eficácia dessas ações para atenuar o impacto da doença na economia global. Ainda não está claro que estímulos monetários adicionais e novas medidas fiscais possam resolver os problemas que o vírus está causando à atividade, tando do lado da oferta quanto da demanda, o que reduz as expectativas sobre o lucro das empresas e o crescimento econômico.


Afinal, por mais que o Fed (e outros BCs) diminua o custo do empréstimo e a Casa Branca reduza a carga tributária para incentivar o consumo, pouco podem fazer para impedir que lojas, fábricas, escolas e universidades sejam fechados, cidades sejam bloqueadas e as pessoas fiquem em suas casas em quarentena, para impedir a propagação do vírus.


Ou seja, não importa o que os bancos centrais e governos façam. As fábricas não podem produzir mercadorias se não conseguirem as matérias-primas necessárias; nem o comércio terá produtos para vender. Também é improvável que as pessoas vão às compras ou às escolas, se tiverem medo de deixar suas casas e serem infectadas.


Atividade em foco


Portanto, o surto de coronavírus é uma ameaça significativa às perspectivas econômicas. Por mais que um ciclo de corte de juros nos EUA e em outros países do mundo seja capaz de estabilizar o humor dos mercados no curto prazo, o processo pode ser insuficiente para lidar com a desaceleração da atividade, que já vem dando sinais de fragilidade. Por isso, merecem atenção dados sobre o setor industrial, hoje, e de serviços no exterior.


Aliás, o tombo de quase 15 pontos do índice dos gerentes de compras (PMI) de manufatura na China em fevereiro, de 50 para 35,7, e o do setor de serviço a 29,6, de 54,1 em janeiro, ambos em um piso histórico, levou a uma revisão na estimativa do desempenho da economia no primeiro trimestre deste ano. Agora, a previsão é de contração entre 1,5% e -2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) chinês no período em relação aos últimos três meses de 2019.


E a economia brasileira não vai sair imune dessa desaceleração global, com potencial de reduzir significativamente o PIB deste ano. Aliás, o resultado efetivo do crescimento econômico do país em 2019 é o grande destaque da agenda desta semana, que traz também o índice de preços ao produtor (IPP) em janeiro, que pode sinalizar se um eventual choque de oferta por causa do coronavírus está pressionando os preços no atacado.


Esses números podem ajudar a medir o quanto o choque externo e seus efeitos [no setor externo, na produção industrial e nos índices de confiança] podem afetar a o crescimento do país em 2020. Após os dados fracos de atividade na reta final do ano passado, o mercado financeiro já vinha se preparando para um crescimento menor neste ano - com uma expansão de 2% passando a ser teto, ao invés de piso das estimativas.


O risco é se houver uma nova rodada de piora nessas projeções, com a alta do PIB em 2020 ficando ao redor de 1,5%. A ver o que traz o boletim Focus de hoje. Com isso, os mercados domésticos ficam à mercê do cenário internacional, mas também assimilando questões internas.


A crise institucional do Executivo com os outros dois poderes tende a colaborar ainda mais com o viés negativo dos ativos locais. Afinal, os ruídos políticos vindos do Palácio do Planalto podem retardar ou mesmo impedir a aprovação de matérias importantes no Congresso, principalmente na questão fiscal e das reformas econômicas.


Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia:

*Horários de Brasília


Segunda-feira: A semana começa com as tradicionais publicações do dia no Brasil, a saber, o relatório de mercado Focus, do Banco Central (8h25), e os dados da balança comercial (15h) com os números de fevereiro. No exterior, merecem atenção dados de atividade do setor industrial nos EUA e na zona do euro, ao longo da manhã.


Terça-feira: O calendário econômico do dia está esvaziado, o que desloca o foco para o front político nos EUA, onde saem os resultados da chamada “Super Terça”, referentes às eleições primárias presidenciais em vários estados norte-americanos. Ainda assim, merecem atenção os número na zona do euro sobre a inflação ao consumidor (CPI), ao produtor (PPI) e a taxa de desemprego, logo cedo. No fim do dia, saem novos dados de atividade na China.


Quarta-feira: Hoje é dia de divulgação do PIB brasileiro no quarto trimestre de 2019 e no acumulado de todo o ano passado (9h). Lá fora, destaque para a pesquisa ADP sobre a geração de postos de trabalho no setor privado norte-americano em fevereiro e para o Livro Bege do Fed. Também saem dados sobre a atividade no setor de serviços na zona do euro e nos EUA.


Quinta-feira: A agenda econômica doméstica traz apenas o índice de preços ao produtor (IPP) brasileiro em janeiro. Nos EUA, saem dados sobre a produtividade e o custo da mão de obra no trimestre passado, além das encomendas às fábricas.


Sexta-feira: A semana chega ao fim trazendo como destaque o relatório oficial sobre o emprego nos EUA (payroll) em fevereiro, com dados sobre a criação de vagas, a taxa de desemprego e o ganho médio por hora no país. Ainda no calendário norte-americano, saem os estoques no atacado, o crédito ao consumidor e a balança comercial. Também são esperados para hoje os números da Anfavea sobre a indústria automotiva e os dados da balança comercial da China.


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