Mercado vira o semestre sem norte

01.07.2020

 

Depois de registrar o pior e o melhor desempenho em anos nos últimos dois trimestres, o mercado financeiro inicia a segunda metade de 2020 sem saber o que esperar. Os investidores nunca estiveram tão confusos em relação às perspectivas para a economia global e continuam enfrentando o desafio mais desconcertante de todos os tempos.   

 

A virada do semestre ainda segue sob impacto das incertezas em relação à pandemia de coronavírus. Além dos riscos de uma segunda onda de contágio de covid-19, em meio à aceleração de casos em alguns lugares onde houve reabertura da atividade, há dúvidas quanto ao formato da recuperação - se em “V”, W”, “U”, “L” ou nenhuma das opções. 

 

Os indicadores econômicos recentes - inclusive os que serão conhecidos hoje - ainda alimentam a narrativa de retomada rápida e acelerada - portanto, em formato em “V”. Mas a melhora dos dados entre maio e junho sequer recupera totalmente as perdas sofridas no bimestre anterior, o que refuta a tese otimista do mercado financeiro de volta à normalidade.  

 

Ainda mais se levar em conta as previsões sombrias da Organização Mundial da Saúde (OMS), de que a pandemia de coronavírus não está “nem perto de acabar” e que “o pior ainda está por vir”. Com mais de 10 milhões de casos e meio milhão de mortes, a realidade em relação à doença ainda é dura e o vírus está acelerando.  

 

Nova fase

 

Além dos casos crescentes de Covid-19 nas Américas, sobretudo nos Estados Unidos e no Brasil, a doença também está afetando o sul da Ásia e a África, onde o pico da pandemia está previsto para chegar no fim de julho. Mesmo que essa calamidade não se confirme, o mercado financeiro sabe que está entrando em uma nova fase em relação ao coronavírus.

 

Afinal, depois de sofrer um duro golpe em março, que culminou na maior queda histórica do Ibovespa e do Dow Jones em um primeiro trimestre, a recuperação acelerada dos preços das bolsas brasileira e em Nova York nos três meses seguintes levou às melhores marcas dos anos 2000 - o Ibovespa teve o melhor trimestre desde 2003; o Dow, desde 1987. Já o S&P 500 cravou o resultado trimestral desde 1998, após iniciar o ano revivendo a crise de 2008. 

 

Mas sabe-se que esse comportamento foi um “efeito mola”, com um longo salto dos ativos de risco após forte compreensão. O movimento foi estimulado pela liquidez sem precedentes injetada pelos bancos centrais, com o dinheiro correndo como água, onde havia menos resistência. O problema é que essa mesma analogia não é válida para a economia real. 

 

Ou seja, não é simplesmente porque a atividade e o consumo foram reprimidos durante as medidas de isolamento social que haverá uma recuperação em maior intensidade da capacidade produtiva e da demanda após o fim dos bloqueios. O cenário pós-pandemia é diferente, com danos permanentes no emprego e nas empresas - portanto, na confiança - agravando a desaceleração econômica que já estava em curso. 

 

E essa nova fase de extraordinária incerteza começa hoje. Após encerrar o mês, o trimestre e o semestre ontem com o coronavírus ainda desenfreado no mundo e o mercado financeiro sustentado por estímulos artificiais, resta saber até quando os bancos centrais seguirão conduzindo os investidores a uma dança nada ordenada com a economia real. 

 

Exterior sem rumo

 

Dito isso, os mercados internacionais iniciaram julho sem rumo. Os índices futuros das bolsas de Nova York oscilam na linha d’água, com um ligeiro viés de baixa, ao passo que as principais bolsas europeias abriram sem uma direção única. Na Ásia, a sessão ainda foi beneficiada pelos ganhos da véspera em Wall Street.   

 

Ainda assim, Tóquio caiu 0,8%, após a famigerada pesquisa Tankan mostrar que o sentimento do empresariado da indústria japonesa caiu ao nível mais baixo desde 2009, em meio aos estragos nas exportações e no turismo. Na China, o índice dos gerentes de compras (PMI) medido pelo Caixin confirmou a melhora da atividade industrial apontada ontem pelo dado oficial e subiu a 51,2 em junho, de 50,7 em maio.  

 

Apesar da recuperação lenta e gradual da economia chinesa, a fraca demanda global por exportações, com muitos países ainda enfrentando a pandemia, combinada com o receio de consumidores e empresas locais de novos surtos da doença na China limitam o ritmo de retomada da atividade. Percebe-se, então, que ao contrário do que se temia, de que haveria um grave choque na oferta, é o choque na demanda que reduz o ímpeto da economia.

 

Nos demais mercados, destaque para o ouro, que é negociado nos maiores níveis desde 2011, cotado acima de US$ 1,8 mil por onça-troy, refletindo a busca por proteção em ativos seguros (e físicos). A prata também avança, assim como o petróleo, com o barril do tipo WTI voltando à faixa de US$ 40. O dólar, por sua vez, perde terreno para as moedas de países desenvolvidos e correlacionadas às commodities. 

 

Agenda dos EUA em destaque

 

A agenda do dia nos EUA está repleta de indicadores e eventos econômicos relevantes. Pela manhã, às 9h15, as atenções se voltam para os dados da ADP sobre o emprego no setor privado norte-americano. A previsão é de abertura de 2,5 milhões de vagas nas empresas do país, após o fechamento de 2,760 milhões de postos de trabalho em maio. 

 

À tarde (15h), merece atenção a ata da última reunião do Federal Reserve, quando foram divulgadas, pela primeira vez neste ano, as projeções da autoridade monetária para as principais variáveis macroeconômicas dos EUA. Na ocasião, o Fed também assegurou que os estímulos monetários seguirão no ritmo atual e em larga escala. 

 

Ao longo da manhã, ainda no exterior, saem as leituras finais dos índices PMI sobre a atividade industrial na zona do euro e nos EUA. Por aqui, o calendário reserva o índice de preços ao produtor (PPI) em maio (9h) e os dados da balança comercial em junho (15h). 

 

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