Mercado vaivém como uma onda

29.06.2020

 
O mundo ultrapassou a marca de 10 milhões de casos de coronavírus e 500 mil mortes, com os Estados Unidos cravando recordes diários de novas infecções durante o fim de semana. E essa aceleração da doença parece refutar a hipótese do mercado financeiro de recuperação rápida e acentuada, em forma de “V”, da economia global pós-pandemia. 

 

Ao que tudo indica, a retomada da atividade - do consumo e do emprego - será lenta e desigual, entre setores e países. E a escalada de novos casos de coronavírus nos lugares que buscam voltar à normalidade apenas reforça a percepção, já dita aqui, de que quando o mundo voltar ao normal, nada mais será normal.  

 

Como na música brasileira, que diz que “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”, ou na literatura estrangeira, na qual a personagem que caiu em um poço sem fundo se pergunta se “alguma coisa jamais voltaria a ser normal outra vez". Porém, o mercado financeiro é pragmático e não se encanta com as licenças poéticas.

 

Por isso, os investidores ainda relutam em corrigir o otimismo recente, o que leva os ativos de risco a um intenso vaivém, como em ondas, “num indo e vindo infinito”. Aliás, o rebalanceamento de carteiras com a chegada do fim do mês - e, de quebra, do trimestre e do semestre - potencializa essa volatilidade, deixando os negócios em um impasse.  

 

Tanto que os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram alternando altas e baixas, ainda sem forças para firmar uma direção para o dia, após Wall Street encerrar a semana passada no nível mais baixo em duas semanas. Da mesma forma, as principais bolsas europeias não exibem um rumo definido. 

 

Na Ásia, prevaleceu o sinal negativo, com as perdas lideradas por Tóquio (-2,3%). Nem mesmo a primeira alta em 2020 no lucro das empresas industriais na China, de +6% em maio em base anual, animou o pregão em Xangai (-0,6%). Hong Kong caiu um pouco mais (-1%), com as bolsas chinesas voltando da pausa prolongado de um feriado. Já o petróleo cai, enquanto o dólar mede forças em relação às moedas rivais.    

 

A ver, então, como o mercado doméstico irá se comportar diante dessa indefinição externa. É importante observar se o Ibovespa sustentará a faixa dos 90 mil pontos e se o dólar seguirá abaixo de R$ 5,50. A moeda norte-americana engatou a terceira semana seguida de alta, ao passo que a Bolsa brasileira vem acumulando retiradas de capital externo.

 

Pandemia avança

 

Mas o avanço da covid-19 reduz a confiança de que será possível combater novos focos sem a necessidade de repetir as medidas de bloqueio (lockdown) e isolamento social, provocando um novo solavanco na atividade. Afinal, quase seis meses após o mundo registrar oficialmente o primeiro caso da doença, a pandemia ainda ganha força. 

 

A China, por exemplo, confinou meio milhão de pessoas em uma cidade perto de Pequim, onde um novo surto surgiu em meados deste mês, isolando áreas residenciais e fechando escolas. Segundo o governo, a situação nos arredores da capital é “séria e complexa”, o que levou ao bloqueio de uma cidade localizada ao sul, na província de Hebei. 

 

Essas medidas adotadas pelo país asiático, que praticamente já havia contido a pandemia, elevaram o temor de uma segunda onda de contágio de coronavírus em lugares onde houve reabertura da economia. Há, ainda, o receio de uma primeira onda estendida em países que sequer conseguiram conter a fase inicial de casos. 

 

É o caso do Brasil, que já contabiliza mais de 1,3 milhão de casos de coronavírus e quase 60 mil óbitos, tendo registrado recorde mundial de infecções e mortes nas últimas 24 horas. O país está atrás apenas dos EUA, que amargam a liderança, depois de terem superado ontem o recorde de novos casos de covid-19 registrados no dia anterior, com 44 mil. 

 

E esse avanço do coronavírus nos EUA deixou indefinido não apenas o cenário econômico, que pode ter novos ondas de desemprego, mas também a corrida presidencial, colocando em risco a tentativa de reeleição do presidente Donald Trump. Antes favorito, o republicano vê agora o rival Joe Biden na liderança em várias pesquisas para o pleito de novembro.

 

A disputa mais acirrada com o candidato democrata reflete a postura errática de Trump em relação ao coronavírus que, inicialmente era contrário às medidas de combate e duvidava da letalidade da doença. Essa incompetência da Casa Branca se contrasta com o sucesso de outros países em controlar a doença, reduzindo as chances do republicano nas eleições. 

 

Emprego e atividade em destaque

 

Na agenda econômica, os últimos dias de junho e a virada para o novo semestre trazem como destaque dados sobre a atividade e o emprego no Brasil e no exterior, ainda refletindo os impactos da pandemia de coronavírus. Por aqui, as atenções locais os dados do Caged e da Pnad sobre o mercado de trabalho devem seguir alarmantes, enquanto os números sobre a produção industrial devem mostrar recuperação da atividade. 

 

Já no exterior, serão conhecidas as leituras finais deste mês sobre a atividade da indústria na China, Europa e nos EUA. Na quarta-feira, saem a ata da última reunião do Federal Reserve, ocorrida ao final do mês passado, e os dados da ADP sobre o emprego no setor privado norte-americano em junho. O relatório oficial de emprego no país (payroll) será publicado na quinta-feira, por causa do feriado pela Independência no dia seguinte.

 

Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia: 

*Horários de Brasília

Segunda-feira: A semana começa carregada no Brasil. Logo cedo, às 8h, saem a leitura final deste mês do índice de confiança da indústria e o resultado do IGP-M em junho. Na sequência, é a vez da tradicional publicação do dia, a saber, o relatório de mercado Focus, do Banco Central (8h250. No exterior, o calendário econômico está mais fraco, trazendo números do setor imobiliário norte-americano, pela manhã, e o índice dos gerentes de compras (PMI) da China em junho, no fim do dia.

 

Terça-feira: Um nova sondagem, desta vez, referente à confiança no setor de serviços no Brasil será conhecida hoje. Mas o destaque por aqui fica com os dados da Pnad sobre o emprego e a renda no Brasil no período até maio. Lá fora, merecem atenção a inflação ao consumidor na zona do euro e o índice de confiança do consumidor norte-americano, ambos referentes a este mês.

 

Quarta-feira: O calendário doméstico reserva o índice de preços ao produtor (PPI) em maio e os dados da balança comercial em junho. Também são esperados dados privados sobre a indústria nacional e o setor automotivo. No exterior, saem as leituras finais dos índices PMI sobre a atividade industrial na zona do euro e nos EUA. Ainda por lá, merece atenção a ata da reunião do Fed e a pesquisa ADP sobre o emprego no setor privado. 

 

Quinta-feira: As atenções do dia se dividem entre os dados sobre a produção industrial brasileira em maio e sobre o mercado de trabalho nos EUA em junho, com ambos devendo mostrar recuperação. Enquanto aqui fica a sensação de que o pior da atividade ficou para trás, o payroll deve mostrar a geração de 3 milhões de vagas, levando a uma redução da taxa de desemprego, mas também acompanhada na queda do ganho médio por hora. 

 

Sexta-feira: A semana chega ao fim com um feriado nos EUA pelo Dia da Independência (Independence Day), o que esvazia a liquidez nos mercados globais. Ainda assim, merecem atenção as leituras finais dos índices PMI sobre a atividade nos setores industrial e de serviços na zona do euro.

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