Mercado tenta manter rali

08.06.2020

 
O domingo de manifestações no Brasil e no mundo - em atos contra e a favor o governo Bolsonaro e para denunciar o racismo - não ofusca o otimismo do mercado financeiro com uma recuperação mais rápida da economia global. Os números surpreendentes sobre o emprego nos Estados Unidos (payroll) aumentaram as chances de uma retomada em “V”, com um rápido retorno da atividade após a parada forçada pela pandemia de coronavírus.

 

Esse otimismo mantém o apetite por risco, alimentado por estímulos monetários e fiscais, mas os investidores já começam a ponderar quanto mais dá para esticar o rali. O foco se volta à agenda de indicadores e eventos econômicos da semana, que traz como destaque a reunião do Federal Reserve. A dúvida é se o Fed irá manter o compromisso de usar toda sua gama de ferramentas para apoiar a economia norte-americana e os mercados. 

 

Com isso, o payroll positivo animou hoje apenas as bolsas da Ásia, que reagiram pela primeira vez à inesperada geração de 2,5 milhões de vagas nos EUA no mês passado, ante previsão de eliminação de 8,5 milhões de postos de trabalho, e a queda da taxa de desemprego no país para 13,3%, contrariando a estimativa de alta para perto de 20%. Tóquio liderou os ganhos na região (+1,4%), enquanto Xangai oscilou em alta e Hong Kong, em baixa. 

 

As praças chinesas também digerem o superávit comercial recorde de quase US$ 63 bilhões na China em maio, após as exportações caírem (-3,3%) menos que o esperado (-6,5%), enquanto as importações no país tombaram (16,7%) acima do previsto (-8,1%). Os números levantaram dúvidas em relação à demanda, mas não anulam a percepção de que a retomada econômica já começou e o formato em “V” pode se espalhar pelo mundo.

 

Com isso, os índices futuros das bolsas de Nova York tentam se manter no campo positivo, mas oscilam na linha d’água, monitorando também o comportamento do petróleo, que tem alta firme, rumo à marca de US$ 40 por barril, após países produtores e exportadores (Opep e aliados) chegarem a um acordo que estende o corte de produção em quase 10 milhões de barris por dia até o fim de julho. Já as praças europeias abriram no vermelho.  

 

A ver como o comportamento no exterior se reflete nos negócios locais, após o Ibovespa encerrar a semana passada no maior nível desde março, cravando a sexta alta seguida e a terceira valorização semanal, enquanto o dólar fechou abaixo de R$ 5,00 pela primeira vez também desde março, na terceira semana de queda. Já os juros futuros embutiram prêmios, pois o impacto deflacionário e recessivo do coronavírus foi colocado em xeque. 

 

Qual é a letra?

 

Mas, afinal, qual será o formato da recuperação econômica após a pandemia? Apesar da confiança do mercado financeiro de que a retomada se dará de forma rápida e acentuada, na mesma velocidade e magnitude em que se deu a queda - portanto em formato em “V” - não se pode descartar alguns fatores que levantam dúvidas quanto a esse cenário.

 

O primeiro fator é que o mundo ainda vive a pandemia, sendo que alguns países, como o Brasil, sequer atingiu o pico do contágio de Covid-19. Aliás, a decisão do governo Bolsonaro de omitir dados sobre o doença, informando apenas o número acumulado de mortes e casos confirmados, bem como de sugerir a recontagem de óbitos, foi criticada pela falta de transparência. 

 

Além disso, enquanto não surgir uma vacina para a imunização do coronavírus ou algum tratamento/medicamento eficaz no combate à doença, o risco de uma segunda onda de contágio de Covid-19 tampouco deve ser relegado. Por se tratar de uma pandemia, essa segunda onda é uma ameaça real, sendo controlável em países que adotaram medidas de controle pós-surto e endêmica onde não houve planejamento. 

 

No front econômico, por mais que sejam robustos os indicadores que refletem o fim das medidas de isolamento social em várias partes do mundo, é preciso levar em conta que a atividade está repondo somente uma fração das perdas sofridas durante a quarentena e o bloqueio (lockdown). Mais que isso, não se pode perder de vista que a economia global já estava em desaceleração e, agora, retrocede a um nível ainda inferior ao do início do ano.   

 

Nos dados já conhecidos, o número de trabalhadores nos EUA é quase 20 milhões menor que em comparação ao último mês antes do início da pandemia - mesmo após o retorno de 2,5 milhões de empregos em maio. Na China, apesar de o setor de serviços ter registrado a maior expansão em quase uma década no mês passado, o desemprego no país e a incerteza em relação ao controle do vírus no exterior ainda ameaçam a retomada interna.  

 

Ao mesmo tempo, os estímulos monetários e fiscais injetados por bancos centrais e governos tendem a perder força em algum momento ao longo dos próximos meses, drenando parte da liquidez abundante que vem sendo vazada para os ativos de maior risco, em especial de países emergentes. E ainda que não haja espaço para uma queda livre dos mercados, tal qual foi em março, a euforia atual também incomoda. 

 

No fim, fica a impressão de que havia uma demanda muito reprimida e houve alguma volta à normalidade do lado da oferta - como se uma mola se soltasse depois de ter sido fortemente comprimida. Mas no longo prazo a recuperação pode não ser tão aguda e acelerada e sim desigual entre os setores, refletindo a perda de renda das pessoas, o aumento do desemprego e o tamanho menor da economia em vários países.

 

Fica, então, em aberto a possibilidade de outras letras, como “W”, “L” e “U”. A única certeza é que o retorno da economia global ao patamar pré-pandemia ainda vai demorar, podendo ser alcançado apenas no fim do ano que vem, ou quiçá, em 2022. Só depois, é que se deve engatar um ritmo de aceleração do crescimento econômico - contanto que sejam adotadas medidas para evitar que o mundo entre em depressão - o que mantém o “D” no radar. 

 

Semana tem Fed, deflação e feriado

 

A agenda econômica desta semana traz como destaque a reunião de dois dias de política monetária do Fed, a partir de amanhã. O anúncio da decisão de juros será feito na quarta-feira, mas não deve trazer novidades, com a taxa permanecendo próxima a zero. Ainda assim, merecem atenção o comunicado e a entrevista do presidente do Fed, Jerome Powell.

 

Será importante observar se a autoridade monetária se mostrará encorajada pelos sinais nascentes de recuperação da economia dos EUA ou se irá manter a retórica, de que os indicadores recentes não justificam uma alteração de cenário, por ora. Tal percepção estará expressa no chamado gráfico de pontos (dot plot), que traz as previsões para as principais variáveis econômicas do país e será divulgado pela primeira vez neste ano.  

 

Entre os indicadores de relevo, entre amanhã e quarta-feira, saem índices de preços ao consumidor no Brasil (IPCA), na China e nos EUA, que devem registrar deflação. Também serão conhecidos os preços ao produtor (PPI) chinês e norte-americano, que devem refletir a queda das commodities. Além disso, o feriado de Corpus Christi na quinta-feira mantém fechado o mercado doméstico, que não antecipou a data no mês passado.  

 

Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia: 

*Horários de Brasília

Segunda-feira: A semana começa com as tradicionais publicações domésticas do dia, a saber, o relatório de mercado Focus, do Banco Central (8h25), e os dados semanais da balança comercial (15h). No exterior, destaque apenas para o discurso da presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde (10h45), no Parlamento Europeu. 

 

Terça-feira: A agenda doméstica traz uma nova estimativa para a safra agrícola neste ano, dados regionais da produção industrial, além de indicadores antecedentes sobre o mercado de trabalho e da primeira prévia do IGP-M neste mês. Lá fora, merecem atenção a terceira e última estimativa do Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro no início deste ano, índices de preços na China e o relatório Jolts sobre as contratações e demissões nos EUA.

 

Quarta-feira: O destaque do dia fica com a decisão de juros do Fed, que deve ser acompanhada das projeções contidas no dot plot e seguida de uma entrevista coletiva de Powell. Entre os indicadores de relevo, saem o índice de preços ao consumidor brasileiro (IPCA) e norte-americano (CPI).

 

Quinta-feira: A Bolsa brasileira não abre hoje, devido ao feriado de Corpus Christi, apesar da antecipação da data na cidade de São Paulo no mês passado. A agenda doméstica está esvaziada. No exterior, serão conhecidos os pedido semanais de auxílio-desemprego feitos nos EUA e o índice de preços ao produtor (PPI).

 

Sexta-feira: A semana chega ao fim trazendo como destaque o desempenho da indústria na zona do euro em abril e a prévia da confiança do consumidor norte-americano neste mês. 

 

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