Mercado tem semana agitada na reta final de julho



A última semana de julho deve ser agitada no mercado financeiro, diante dos indicadores e eventos econômicos programados para os próximos dias nos Estados Unidos. Com a pandemia de coronavírus se acelerando no país a cem dias das eleições, a decisão de juros do Federal Reserve e o tombo da economia norte-americana no trimestre passado adicionam ingredientes aos desafios de Donald Trump para continuar na Casa Branca.


Sem conseguir acumular triunfos em solo nacional, o republicano deve aguçar a estratégia de confrontar-se com o inimigo externo, o que tende a elevar a tensão com a China, minando o apetite dos investidores por risco e intensificando a busca por proteção em ativos seguros - notadamente o ouro. O fechamento do consulado em Houston - o primeiro chinês nos EUA - teve um caráter simbólico, colocando em xeque a relação entre os dois países.


E a postura de Pequim de retaliar na mesma medida ajuda apenas a recrudescer o clima, exacerbando os fracassos acumulados pelo presidente norte-americano dentro de casa e dando munição à “guerra de narrativas” alimentada pelos dois lados - e seus aliados. Mas são os números que evidenciam esse confronto - por ora verbal.


Enquanto o país asiático declara vitória sobre a covid-19 e se vê como incompreendido no êxito em conter a disseminação da doença, a maior potência mundial se depara com três estados de Nova York - primeiro surto nos EUA - em meio ao aumento de casos e óbitos na Califórnia, Flórida e Texas. Além disso, a China conseguiu mostrar uma verdadeira recuperação em “V”, ao passo que a economia norte-americana deve entrar em recessão técnica, caindo mais de 30% no segundo trimestre, após recuar 5% no início do ano.


E o mundo está atento a esse antagonismo, já que a economia global tenta se reerguer de uma nova crise - desta vez, causada por fatores externos. Nem mesmo a injeção de recursos sem precedentes jorrada pelos bancos centrais tem sido capaz de fomentar a atividade real, com os EUA enfrentando a primeira contração econômica ocasionada pelo setor de serviços. Mas enquanto o capitalismo neoliberal procura se reinventar, a China apresenta um modelo econômico alternativo, fazendo reaparecer alguns fantasmas.


Nessa guerra ideológica, o Brasil já escolheu seu lado e segue firme na proposta de prosseguir com a agenda de reformas, ainda mais agora que o presidente Jair Bolsonaro tem evitado uma conduta agressiva. O Congresso deve instalar amanhã uma comissão mista que irá debater a reforma tributária, apenas uma semana após o governo apresentar a proposta sobre o assunto.


O plano desagradou justamente o setor de serviços no país, por causa do aumento da carga de impostos nas atividades do segmento - e no consumo, afetando, principalmente, a classe média. Resta saber o que os estímulos monetários nas economias desenvolvidas e a reformas liberais por aqui irão representar em termos de crescimento econômico, notadamente à geração de riqueza e criação de emprego.


Pandemia ainda assusta


Enquanto isso, a pandemia continua somando casos de infectados e vítimas. E não apenas nos EUA e no Brasil, onde o total de mortos por covid-19 já se aproxima dos 100 mil. O temor de uma segunda onda de contágio na Espanha prejudica a abertura do pregão na Europa, com a Bolsa de Madri caindo perto de 1,5% e liderando as perdas na região.


As ações do setor aéreo estão entre os destaques de baixa, após o Reino Unido e outros países europeus alertarem sobre viagens para a Espanha, em meio ao foco de casos de coronavírus na região da Catalunha. O euro, por sua vez, avança e é cotado ao redor de US$ 1,17. Aliás, a moeda norte-americana perde terreno de forma generalizada.


Os investidores continuando vendo uma proteção mais segura no ouro. O metal precioso renovou o maior valor da história e é cotado acima de US$ 1,9 mil por onça-troy, em meio às preocupações com o estado da economia global atingida pela covid-19 e com a sustentação do rali estelar das bolsas.


Os índices futuros das bolsas de Nova York apontam para um início de semana no azul, relegando a tensão sino-americana e os surtos de coronavírus nos dois lados do Atlântico Norte, ao mesmo tempo em que aguardam a decisão do Fed e mais balanços. Na Ásia, a sessão foi mista, com leve alta em Xangai e ligeiras perdas em Tóquio e Hong Kong.


Esse comportamento no exterior tende a aguçar o vaivém do mercado doméstico, uma semana após os ativos locais andarem de lado, com o Ibovespa defendendo os 100 mil pontos e o dólar orbitando em R$ 5,20, apesar das renovadas apostas por um corte “residual” na Selic em agosto.


Fed e PIB em destaque


A reunião do Federal Reserve e o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA e da zona do euro no segundo trimestre deste ano são os destaques da agenda econômica desta semana. Não se espera alterações na taxa de juros norte-americana, que deve seguir perto de zero, o que desloca a atenção para o comunicado que acompanhará o anúncio da decisão de política monetária e a entrevista do presidente, Jerome Powell.


Os eventos estão previstos para quarta-feira. A expectativa é de que o Fed mantenha os estímulos monetários vigentes, em meio à liquidez colossal jorrada como tentativa de resposta aos danos econômicos causados pela pandemia de coronavírus. Aliás, os números do PIB dos EUA, na quinta-feira, devem refletir o tamanho do estrago, com a maior economia do mundo encolhendo nada menos que 35% entre abril e junho.


Se confirmado, a economia norte-americana deve entrar em recessão técnica, após cair 5% nos três primeiros meses de 2020, quando sentiu os efeitos iniciais da disseminação de covid-19 na atividade. Na sexta-feira, a zona do euro anuncia os dados preliminares do PIB na região no segundo trimestre deste ano, quando também deve ter amargado uma queda de dois dígitos, porém bem menor, em torno de 10%.


Além do impacto na atividade, também merecem atenção os dados sobre a renda pessoal e os gastos com consumo nos EUA, ainda na sexta-feira, em uma tentativa de medir os efeitos sobre a oferta e a demanda. Sob essa mesma ótica, destaque para o desempenho dos setores industrial e de serviços na China, medido pelo índice dos gerentes de compras (PMI), na noite de quinta-feira.


Já no Brasil, as atenções se dividem entre os dados econômicos e a safra de balanços. Empresas peso-pesado como Petrobras, Vale, Bradesco e Ambev divulgam seus resultados trimestrais, entre quarta e quinta-feira, o que deve agitar a Bolsa. Entre os indicadores, destaque para os números sobre o desemprego (Pnad) ao final da primeira metade deste ano, com a diferença entre o total de pessoas fora da força de trabalho e as ocupadas ficando ainda maior.


Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia:

*Horários de Brasília

Segunda-feira: A semana no Brasil começa com uma agenda mais carregada no Brasil, que traz o índice de confiança no setor do comércio em julho (8h), além das tradicionais publicações do dia: o relatório de mercado Focus, do Banco Central (8h25), e os dados parciais da balança comercial em julho (15h). No exterior, destaque para os pedidos de bens duráveis nos EUA em junho (9h30) e o índice IFO de confiança do empresário alemão neste mês.


Terça-feira: Novos indicadores de confiança, desta vez, na construção civil no Brasil e do consumidor nos EUA serão conhecidos hoje. A agenda do dia reserva também os dados do Banco Central sobre o setor externo em junho e dados do setor imobiliário norte-americano.


Quarta-feira: A decisão de política monetária do Fed e a entrevista coletiva do presidente da instituição são os destaques do dia. Também merecem atenção os números sobre o mercado de trabalho no Brasil (Pnad) até junho, além da confiança da indústria neste mês e os números do BC sobre as operações de crédito e a inadimplência em junho. Na safra doméstica de balanços, saem os resultados do Santander e da Vale.


Quinta-feira: A agenda econômica norte-americana segue em destaque, com a divulgação da primeira estimativa do PIB dos EUA no segundo trimestre deste ano. Ainda por lá, saem os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos no país. Por aqui, as atenções se dividem entre os resultados de julho do IGP-M, da confiança no setor de serviços e os balanços de Ambev, Bradesco e Petrobras. No fim do dia, a China informa o desempenho da atividade nos setores industrial e de serviços em julho.


Sexta-feira: A semana chega repleta de divulgações relevantes no exterior. Nos EUA, saem os dados sobre a renda pessoal e os gastos com consumo em julho, além da leitura final da confiança do consumidor norte-americano. Já na zona do euro, destaque para os números preliminares do PIB da região no trimestre passado. No Brasil, será conhecido apenas o índice de preços ao produtor.


*Durante o mês de julho, a Bula do Mercado será semanal, publicada somente às segundas-feiras. Os textos voltam a ser diários em agosto.


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