Mercado segue na contramão

04.01.2019

 

Mais um pregão, mais um recorde. O mercado financeiro brasileiro segue em lua de mel com o novo governo, o que levou a Bolsa brasileira a uma nova pontuação histórica ontem, enquanto o real se valorizou mais um pouco, com o dólar já na faixa de R$ 3,75. O movimento foi novamente na contramão dos negócios no exterior, onde prosseguem os temores em relação à desaceleração econômica global.

 

Já nesta sexta-feira o mercado doméstico não deve ficar tão imune ao cenário internacional, uma vez que serão conhecidos dados sobre o emprego nos Estados Unidos (11h30). Também é grande a expectativa lá fora pela fala do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, em um painel econômico (13h15). Mas o que deve agitar os negócios aqui é a primeira entrevista do presidente Jair Bolsonaro após a posse.

 

O presidente sinalizou que pretende uma reforma da Previdência mais leve, com a idade mínima para aposentadoria ficando em 62 anos para os homens e 57 anos para as mulheres. Além disso, Bolsonaro afirmou que a proposta será aplicada de maneira gradativa, de modo a “não fazer maldade com o povo”. Segundo ele, a idade mínima de 65 anos fica “pesada” para algumas profissões.

 

Com isso, haverá diferenciações nas regras para aposentadoria, com a reforma não sendo “a mesma para todo mundo”. Para Bolsonaro, só assim a proposta tem chances de passar na Câmara e no Senado, pois a “boa reforma” não é aquela que está “na cabeça” do presidente ou da equipe econômica.

 

As declarações do presidente vão de encontro com o tom mais duro do ministro Paulo Guedes (Economia) e pode frustrar as expectativas dos investidores em relação à principal medida na área fiscal, abrindo espaço para uma correção dos ativos locais. Porém, hoje, o mercado externo amanhece favorável, após dados econômicos mostrarem a expansão do setor de serviços na China, o que pode aliviar qualquer pressão doméstica.

 

O chamado índice dos gerentes de compras (PMI) oscilou em alta em dezembro, passando de 53,8 em novembro para 53,9 no mês passado, segundo o Caixin. A leitura ficou em linha com o dado oficial do setor, divulgado recentemente, e reforça os sinais de que a segunda maior economia do mundo segue firme no plano de reduzir a atividade na indústria pesada e ampliar a participação da demanda chinesa.

 

Com isso, as principais bolsas na Ásia fecharam em alta, com ganhos de até 2% em Xangai, ao passo que Tóquio voltou do feriado com um ajuste negativo e caiu pouco mais de 2%. Em Wall Street, os índices futuros das bolsas de Nova York exibem alta firme, ao redor de 1%, após a Câmara dos Representantes aprovar um pacote de gastos, em um esforço para encerrar a paralisação do governo (shutdown).

 

Além disso, os investidores seguem na expectativa pelo encontro na próxima semana entre EUA e China para tratar de questões comerciais. O mercado financeiro ainda espera comentários construtivos da delegação dos EUA que viaja a Pequim sobre a guerra comercial, em busca de sinais de desfecho da disputa, após a trégua de 90 dias assinada entre os dois países durante o encontro do G-20.

 

Porém, os mais recentes comentários do presidente chinês Xi Jinping, durante o discurso de ano-novo, mais uma vez invocou o termo maoísta de que a China deve “manter sua autossuficiência”, mostrando que Pequim está preparado para um conflito de prazo mais longo.

 

Afinal, se fosse apenas para reduzir o enorme déficit comercial dos EUA com a China, o presidente Donald Trump poderia, agora, estar mais inclinado a encerrar a disputa. No entanto, o embate ganha cada vez mais contornos de que o objetivo final de Washington é impedir o progresso chinês rumo a uma superpotência global, desafiando o atual status da Casa Branca.

 

Assim, apenas uma pressão suficientemente forte vinda do mercado financeiro pode ser capaz de fazer com que Trump desista de levar a cabo a guerra de tarifas contra os produtos chineses, diante dos receios de que a economia norte-americana (e suas empresas) será atingida. Para Trump, o movimento em Wall Street serve como um verdadeiro índice de popularidade da presidência.

 

O fato é que o mundo começa 2019 sem seus dois principais motores à economia global, pela primeira vez em uma década. Afinal, a China já não cresce mais como outrora, a taxas de dois dígitos, enquanto a era de “dinheiro fácil” despejado pelo Fed ficou para trás. É a esse novo cenário que o mercado financeiro precisa se adaptar, assumindo mais riscos para ter maiores retornos.

 

Com isso, as atenções do dia se voltam para os números do relatório oficial sobre o mercado de trabalho nos EUA em dezembro, o chamando payroll. A previsão é de geração de 180 mil vagas, com a taxa de desemprego caindo a 3,6%, no menor nível em quase 50 anos, ao passo que o ganho médio por hora deve manter o ritmo de crescimento anual de 3%.

 

Juntos, esses números tendem a calibrar as apostas em relação aos próximos passos do Fed. O Banco Central dos EUA ainda prevê mais dois aumentos na taxa de juros norte-americana neste ano, mas os investidores não esperam nenhuma alta e já acham até que o custo do empréstimo no país deve cair, após a inversão da curva de juros futuros sinalizar uma recessão econômica à frente.

 

Ainda na agenda econômica no exterior, merecem atenção dados de atividade (PMI) no setor de serviços em dezembro nos EUA e na zona do euro. O calendário norte-americano traz também os estoques semanais de petróleo bruto e derivados (14h), enquanto na região da moeda única será conhecida a inflação ao produtor (PPI) no mês passado.

 

No Brasil, esse indicador sobre os preços no atacado, referente ao mês de novembro, sai às 9h. Mas é o noticiário político que segue no radar do mercado financeiro brasileiro. A percepção é de que o otimismo com o governo Bolsonaro deve durar enquanto for factível acreditar na agenda de reformas e de privatizações, em meio à articulação política do Executivo com o Congresso Nacional.

 

Aos olhos dos investidores, o apoio do PSL à reeleição de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara reforça as chances de aprovação dessa pauta entre os deputados - principalmente do chamado “Centrão”. Mas os protagonistas dessa pauta só entram em cena em fevereiro.

 

Até lá, os investidores - estrangeiros, principalmente - devem evitar montar posições mais arriscadas, à espera de sinais concretos sobre os avanços na área fiscal e dos detalhes sobre como essas propostas mais liberais serão implementadas. Essa sinalização é fundamental para que o mercado financeiro possa embutir nos preços dos ativos um bom cenário de reformas e crescimento para o Brasil no cenário à frente.

 

 

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