Mercado se depara com novo cenário



O mercado financeiro já sabe qual cenário econômico global traçar: o de recessão. E também já tem uma ideia de quanto tempo deve durar os impactos da interrupção da atividade por causa da pandemia de coronavírus, com o fechamento de toda a economia podendo se estender até a virada do semestre - embora ainda não se saiba como mensurar os reais efeitos na oferta e na demanda.


Diante dessa maior clareza, os investidores têm melhor noção do “preço justo” dos ativos de risco e podem “cuidar” de seus investimentos. Mas isso não significa que já é hora de aproveitar para ir às compras, em busca de pechinchas, pois os negócios ainda podem cair mais. Afinal, um mercado de baixa (bear market) não exclui ralis, ainda mais em meio a oscilações exacerbadas.


Com isso, não é possível saber se os ativos de risco apenas reduziram a supervalorização, principalmente as ações, ou se já alcançaram níveis de subvalorização. Ainda assim, após Wall Street registrar a pior segunda-feira desde a Black Monday de 1987, o sinal positivo exibido pelos índices futuros das bolsas de Nova York nesta manhã serve de alívio.


Tanto no exterior quanto aqui no Brasil. E depois de o Ibovespa conseguir defender bravamente a faixa dos 70 mil pontos e de o dólar fechar acima de R$ 5,00 pela primeira vez na história, a sequência de circuit breakers na Bolsa brasileira e de renovadas máximas históricas da moeda norte-americana em relação ao real deve ter uma pausa hoje.


Lá fora, os índices futuros das bolsas de Nova York alcançaram o limite de alta ainda no fim da noite de ontem, o que embala a abertura do pregão europeu e ajudou a evitar fortes perdas na Ásia, onde a sessão foi volátil. A Bolsa de Tóquio oscilou entre ganhos e perdas e acabou fechando na linha d’água, enquanto Hong Kong subiu 1% e Xangai caiu 0,3%.


Ao mesmo tempo, as Filipinas se tornaram o primeiro país a fechar seu mercado financeiro, mas as negociações devem ser retomadas na quinta-feira. Ainda no sudeste asiático, a Bolsa de Jacarta caiu quase 5%. Já no Pacífico, a Bolsa de Sydney registrou a maior alta desde 1997, avançando quase 6%.


Nos demais mercados, o dólar está misto em relação às moedas rivais, perdendo terreno para o iene, mas avançando frente ao euro e a libra esterlina, enquanto o xará australiano recua. Nas commodities, o petróleo do tipo WTI volta a se aproximar da faixa de US$ 30, após cair quase 10% ontem.


A bola é sua, BC


Por aqui, o mercado também digere o pacote de Paulo Guedes para reduzir os efeitos econômicos da pandemia. Segundo ele, serão injetados R$ 147,3 bilhões na economia. Boa parte desses recursos refere-se à antecipação de pagamentos (como a segunda parcela do 13º salário a aposentados) ou à redução de alíquotas de importação.


Mas o cenário atual requer uma grande resposta fiscal, com soluções que vão além de indicar a necessidade de reformas (administrativa, tributária etc.) e que escapam do campo teórico do Chicago oldie, criando incentivos por meio de uma atuação mais expressiva do Estado na economia e medidas anticíclicas ao cenário recessivo que se desenha.


Só que sobram críticas ao despreparo do presidente Jair Bolsonaro, que já se resvalam na falta de habilidade política do ministro da Economia. A postura do presidente se destoa da de líderes mundiais, com ele defendendo junto a aliados a mais ignóbil das teorias da conspiração, de que a China teria lançado o coronavírus para recuperar sua economia, após “ajoelhar-se” perante os Estados Unidos para encerrar a guerra comercial, colocando em risco sua própria população, de quase 1,4 bilhão de pessoas.


Ao defender essa tese, Bolsonaro e sua equipe minimizam a gravidade da situação sobre a doença, em nome de uma ideologia e partidarização política que subvertem a realidade. Afinal, da mesma forma, existe o outro lado da “bolha”, que diz que o vírus foi lançado pelo Exército dos EUA durante os jogos militares ocorridos na então desconhecida cidade de Wuhan, em outubro, circulando livremente até chegar ao “mercado de peixe” em dezembro, onde se espalhou. Por isso, é sempre importante saber o que dizem “os dois lados”.


Assim, resta ao Banco Central o bom senso para fazer todo o trabalho, dando como certo um novo corte na taxa básica de juros amanhã. A dúvida, agora, é quanto ao tamanho da queda, com muitos alimentando expectativas de uma Selic em 3,25% já neste mês. Mas essa aposta provoca uma inclinação acentuada dos juros de longo prazo e uma valorização adicional do dólar.


Caberia, então, à autoridade monetária avaliar essa disfuncionalidade - irracionalidade? - do ativos locais e evitar embarcar na onda dos BCs de economias centrais - dos EUA, Canadá, Inglaterra, zona do euro etc. - para permitir, primeiro, uma estabilização dos mercados domésticos. E, só depois, agir - ao invés de atuar agora, gastando munição à toa.


Atividade nos EUA em destaque


A agenda econômica está mais fraca no Brasil, trazendo apenas dados regionais da inflação ao consumidor, logo cedo, mas ganha força nos EUA, onde saem números de fevereiro sobre as vendas no varejo (9h30) e a produção industrial (10h15). Mas esses indicadores da atividade norte-americana devem ser olhados pelo retrovisor, agora que o Federal Reserve e a Casa Branca deixaram notório que uma recessão no país é provável.


Ainda no calendário dos EUA, serão conhecidos os estoques das empresas em janeiro. Também merecem atenção o relatório Jolts sobre as contratações e demissões no país em janeiro e o índice de confiança das construtoras em março - todos às 11h. Já na zona do euro, sai o índice ZEW de sentimento econômico neste mês. Na safra de balanços, a incorporadora XP divulga seus resultados financeiros pela primeira vez.



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