Mercado prepara apostas para eleição

20.07.2018

 

Já que os tempos de inflação baixa e atividade em recuperação ficaram para trás, a bola da vez no Brasil é olhar para o futuro e tentar adivinhar quem será o próximo presidente do país. Com o fim da Copa do Mundo após a saída precoce da seleção canarinho, as eleições presidenciais de outubro vêm aí e entram de vez no radar do mercado financeiro doméstico.    

 

Ainda nem havia sido definida a posição do chamado “Centrão” - formado pelas legendas PP, PR, PRB, DEM e SD - no pleito e os negócios locais já estavam animados com a chance de a maior coligação partidária apoiar o ex-governador Geraldo Alckmin. A decisão foi anunciada ontem à noite, renovando as esperanças dos investidores em relação ao próximo presidente.

 

O tucano ainda é quem mais agrada ao mercado devido ao perfil reformista e viés fiscalista. Ter o Centrão como aliado implica maior tempo de TV e capilaridade em pequenas cidades do país, o que pode facilitar a vitória na primeira batalha da eleição, garantindo um lugar na disputa em segundo turno contra Jair Bolsonaro.

 

Os investidores também estão atentos às convenções partidárias, que começam hoje e podem tornar o cenário político mais claro. O prazo para que os partidos anunciem seus candidatos vai até 5 de agosto, sendo que um dos primeiros nomes para a corrida eleitoral deve ser anunciado pelo PDT de Ciro Gomes - que vinha apavorando o mercado.

 

Por ora, os investidores mantêm as apostas de que o Banco Central terá de dar início a um ciclo de alta dos juros básicos antes do fim do ano, em meio aos receios com as eleições e as contas públicas. O cenário fiscal continua sendo o principal risco doméstico e o mercado acredita que somente um governo eleito com caráter reformista será capaz de colocar em prática medidas de ajuste.

 

Com a inflação sob controle e a atividade fraca, o mercado doméstico está convicto de que o Comitê de Política Monetária (Copom) irá adiar um aumento da Selic, segurando-a em 6,50% na virada deste mês. Desde o solavanco sofrido pela greve dos caminhoneiros, os investidores acreditam que os efeitos da paralisação na economia foram dissipados ainda antes da virada para o segundo semestre.

 

Mas o IPCA-15, a ser conhecido hoje (9h), tende a mostrar que não é bem assim. A prévia deste mês do índice oficial de preços ao consumidor deve vir bem salgada, com alta de 0,8%, acumulando taxa de 4,6% em 12 meses. Ou seja, apesar da desaceleração em relação a junho (+1,11%), a inflação medida pelo IPCA-15 no período de um ano deve ficar acima da meta (4,5%) perseguida pelo Banco Central pela primeira vez desde março de 2017.

 

Não se pode dizer, portanto, que os efeitos da greve foram dissipados. Existe, de fato, algo de passageiro, mas também há traços de perenidade, dando a entender que os preços de alimentos e combustíveis não voltaram aos níveis que estavam antes da paralisação. Aproveitou-se, então, a oportunidade para repassar custos que estavam represados.

 

A mesma ideia vale para a atividade. A queda maior que a esperada do índice do BC (IBC-Br) em maio acendeu a luz amarela, chamando a atenção para a possibilidade de a economia brasileira (PIB) ficar estável ou até voltar a cair no segundo trimestre deste ano, interrompendo cinco trimestres consecutivos de resultados positivos.

 

Apesar de os recuos nos setores de varejo e de serviços apontados pelo IBGE na semana passada terem sido inferiores ao esperado, as perdas na cadeia produtiva enquanto o transporte de cargas estava parado são irrecuperáveis e o impacto sobre a confiança do empresário no período à frente pode impedir uma retomada da atividade.

 

Os dados preliminares sobre a confiança da indústria neste mês (8h) podem ilustrar melhor isso. Assim, os indicadores econômicos domésticos do dia tendem a embaralhar o cenário sobre uma possível elevação da taxa básica de juros em breve. Nesse quebra-cabeça, vale lembrar as recentes medidas de impacto fiscal aprovadas pelo Congresso antes do recesso.  

 

No exterior, a agenda econômica esvaziada do dia abre espaço para os investidores avaliaram se a tomada de risco recente em meio à escassez de recurso por causa das férias de verão foi longe demais. O atual período no hemisfério norte é sazonalmente mais positivo para os ativos, mas é cedo para afirmar que esse momento favorável vai ficar para trás em breve.

 

O fato é que tão logo o cenário estrutural de longo prazo volte à pauta, o caminho para o mercado financeiro voltará a ficar permeado de incertezas e com mais volatilidade. Nesta manhã, os índices futuros das bolsas de Nova York mantêm o sinal negativo que prevaleceu na sessão regular da véspera em Wall Street.

 

As principais bolsas europeias são contaminadas por esse desempenho, apesar da recuperação das praças asiáticas. Os mercados no Oriente apagaram as perdas e fecharam a maioria em alta, após o BC chinês agir para impedir um renovado enfraquecimento do yuan (renminbi). O índice Xangai Composto registrou o maior ganho em uma semana, de +2%.    

 

Ao longo desta semana, a China confirmou que está em desaceleração, em meio aos ajustes na concessão de crédito e à redução dos investimentos em infraestrutura. A evolução moderada da segunda maior economia do mundo se dá ainda antes dos efeitos da guerra comercial, cujos novos lances do governo Trump tornaram-se efetivos no início deste mês.

 

Nos Estados Unidos, o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, reafirmou o plano de elevar a taxa de juros norte-americana de modo gradual, confirmando a intenção de mais dois aumentos até o fim do ano. Porém, Jay não deixou de alertar para os riscos das investidas protecionistas na inflação e na atividade do país.

 

Por enquanto, prevalece a percepção de que a economia norte-americana não está aquecida o suficiente para provocar pressão nos preços nem perdeu tração a ponto de causar uma recessão no curto prazo. O que ainda não se sabe é até quando essa interpretação por lá pode durar…

 

Ainda mais depois de o presidente dos EUA Donald Trump dizer que “não está feliz” com a decisão do Fed de elevar a taxa de juros. Para ele, o processo de alta pode colocar o país em “desvantagem”, uma vez que outros bancos centrais mantêm uma política monetária mais acomodatícia. O dólar segue em baixa nesta manhã após essa declaração.

 

No entanto, a Casa Branca tratou logo de explicar que a opinião de Trump respeita a independência do Fed e que a posição dele sobre os juros já é bem conhecida. Mais uma vez, foi preciso esclarecer o que disse o líder da maior potência mundial, dias após ele mesmo desdizer o que havia dito sobre a interferência russa nas eleições de 2016.

 

Para tentar desfazer o furor que o encontro com o presidente Vladimir Putin causou nos EUA, Trump convidou o mandatário russo para uma visita oficial em Washington. O encontro deve acontecer às vésperas da eleição legislativa (mid term elections) no país, marcada para o início de novembro, e deve ser a última cartada do republicano para não virar um pato manco.   

 

 

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