Mercado olha para o exterior

28.11.2018

 

Os Estados Unidos roubam a cena nesta quarta-feira, dia de dados revisados sobre o crescimento econômico no trimestre passado e de discurso da autoridade máxima do Banco Central do país (Fed), que vem sendo cada vez mais pressionado pelo presidente norte-americano, Donald Trump. Os investidores estão cada vez mais assustados com a desaceleração da economia global e os impactos da guerra comercial, o que pode fazer com que o Federal Reserve não seja tão agressivo na estratégia de aumento dos juros.

 

Ontem, o vice-presidente do Fed, Richard Clarida, enfatizou a dependência dos indicadores econômicos na tomada de decisão sobre o rumo da taxa de juros nos EUA, agora que a política monetária se aproxima de uma posição neutra. Segundo ele, é preciso refinar os dados norte-americanos sobre crescimento, inflação e emprego.

 

Hoje, é a vez do presidente do Fed, Jerome Powell, discursar (15h), e ele pode lançar novas pistas sobre o processo de alta dos juros nos EUA. A expectativa ainda é de que os aumentos sejam mais espaçados ao longo de 2019, totalizando, no máximo, três apertos em oito reuniões durante todo o ano - já com vistas ao fim do ciclo.  

 

Aliás, Powell está sob forte pressão de Trump para interromper a subida da taxa, elevando o custo do empréstimo nos EUA. Em entrevista ao jornal Washington Post, Trump culpou “Jay” pela recente onda vendedora (selloff) nas ações da General Motors (GM), alegou que o aumento dos juros está prejudicando a economia e disse que se arrepende de ter nomeado Powell para liderar o Fed. “Não estou nem um pouco feliz com a minha escolha”, disse.

 

Para os investidores, o tom da conversa entre Trump e o líder chinês, Xi Jinping, na Argentina, no sábado também será importante. Trump se diz aberto a um acordo comercial com Pequim, mas também está pronto para impor novas tarifas de importação aos bens chineses, caso as próximas negociações não tenham progresso.

 

O mercado financeiro espera alguma declaração formal dizendo que as discussões sobre a questão comercial entre as duas maiores economias do mundo serão contínuas - e não que um acordo jamais será firmado. Da mesma forma, a expectativa é de que Powell tenha uma fala mais suave (“dovish”), uma vez que menos aumentos nos juros dos EUA favorece a migração de recursos para ativos de maior risco.

 

Assim, a guerra comercial e o Fed vêm mantendo o mercado financeiro refém. Nesta manhã, porém, os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram em alta, embalados pela sessão positiva na Ásia, onde Xangai, Tóquio e Hong Kong subiram mais de 1%, cada. As principais bolsas europeias também caminham para uma abertura no azul.

 

A libra interrompeu as perdas, após a primeira-ministra britânica, Theresa May, recuar em uma batalha sobre o Brexit com o Parlamento inglês, o que também deixa o euro de lado. Já o barril do petróleo tipo WTI sobe mais um degrau e é cotado na faixa de US$ 52, em meio a relatos de forte demanda nos EUA. Nos metais, o cobre se estabiliza após as perdas de ontem.

 

Entre os indicadores econômicos do dia, destaque para a segunda leitura do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA no terceiro trimestre deste ano (11h30). A previsão é de revisão para cima, com a economia norte-americana crescendo ao ritmo de 3,6% na taxa anualizada, de +3,5% no dado original.   

 

No Brasil, o calendário do dia traz o índice de confiança no comércio (8h), que deve seguir a tendência dos demais setores de atividade, com forte avanço nos componentes de expectativas, passado o cenário de incerteza eleitoral e em meio à lua de mel com o governo eleito. O dado tende a reforçar a percepção de retomada da economia nesta reta final do ano.

 

Ainda no calendário norte-americano, saem dados sobre as vendas de imóveis residenciais novos em outubro (13h) e sobre os estoques semanais de petróleo bruto e derivados nos EUA (13h30). Internamente, saem também os dados de outubro sobre o índice de preços ao produtor (9h) e sobre as operações de crédito (14h30). E o Banco Central realiza mais dois leilões de linha, ofertando US$ 1 bilhão, ao passo que o Senado ainda aguarda um acordo entre o governo atual e o eleito sobre a partilha de recursos para votar a cessão onerosa do pré-sal.

 

Por aqui, os investidores seguem otimistas com a agenda liberal-reformista a ser tocada por Paulo Guedes e seu time de Chicago, além das indicações do governo eleito. Ao contrário da percepção de que o mercado financeiro não estaria confortável com os nomes escolhidos, sem articulação partidária, há quem diga que a estratégia de Jair Bolsonaro é perfeita.

 

Ao juntar perfis técnicos com militares, o presidente eleito estaria conciliando a negociação política com a “linha dura”, forçando acordos entre Executivo e Congresso, de modo a não colocar em risco o ritmo das reformas nem autorizar pautas-bombas. Talvez até por isso, Bolsonaro abriu mão da promessa e ultrapassou o número de 15 ministérios. Mas, segundo ele, o total não deve passar de 20. A conferir.

 

 

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