Mercado ignora cisne negro

19.02.2020

 

O mercado financeiro abre o dia vislumbrando uma realidade diferente. O sinal positivo exibido pelos índices futuros das bolsas de Nova York nesta manhã, após uma sessão de ganhos na Ásia - exceto em Xangai (-0,3%) - mostra que os investidores continuam tendo dificuldades para ler a “história do vírus” na China e confiam nas ferramentas dos bancos centrais para blindar o impacto global do surto na economia real e nos ativos de risco. 

 

Aliás, é a expectativa de que o governo chinês irá oferecer mais medidas para dar apoio à economia que sustenta os mercados no azul hoje, com o petróleo subindo enquanto o dólar cai e o ouro e as Treasuries avançando também. Pequim deve lançar estímulos efetivos, reduzindo ou até isentando impostos às empresas e aumentando os gastos públicos, de modo a garantir um ritmo crescente à produção. 

 

Com isso, o mercado financeiro tenta se esquivar de um “cisne negro” que sobrevoa os negócios. A expressão é utilizada para se referir a eventos imprevisíveis, com grande impacto nos preços dos ativos e um potencial transformador do cenário econômico. Mas é bem verdade que o mercado financeiro não será pego de surpresa. Ao contrário, os investidores vêm ignorando as ameaças à atividade global provocadas pela doença. 

 

Não é de hoje que surgem alertas, inclusive aqui, quanto ao impacto do surto de coronavírus na indústria chinesa, espalhando o contágio para outros países por meio da cadeia global de suprimentos, e também no mercado consumidor chinês, reduzindo a demanda por produtos e serviços, além do turismo (a lazer e de negócios).

 

Por mais que o efeito da doença seja temporário, não se sabe a partir de qual ponto a atividade global será retomada, nem se a competitividade será recuperada totalmente e de forma igualitária ou se o consumo será o mesmo de antes. E nada disso está embutido nos preços dos ativos, que parecem ainda viver um momento de “exuberância irracional”. 

 

Daí, então, que, de repente, os investidores podem se deparar com um “cisne negro” - ou “cisne branco” ou ainda um “rinoceronte cinzento”? - e se dar conta de que a doença respiratória na China deve ter um grande impacto na atividade global. Tudo isso em um momento em que a economia já dá sinais de desaceleração. 

 

Ora, logo o mercado financeiro, que é conhecido por antecipar o que vai acontecer na “vida real”, vislumbrando cenários muitas vezes desconectados da realidade. O problema é que esse “boom” - ou “bolha” - nos ativos de risco formado por incertezas conhecidas - mas relegadas - pode em breve estourar.

 

Não é só uma gripe

 

Só que desta vez já não se trata mais de uma surpresa. Da mesma forma que não foi o aviso da Apple - que, aliás, foi posterior ao de Nike e Burberry, entre outras - e tampouco será se outras empresas seguirem a gigante de tecnologia, alertando o impacto no lucro vindo tanto na produção, por causa da paralisação de fábricas e lojas na China, quanto na demanda, diante da redução do consumo chinês.  

 

O mais inusitado é que só agora, quando as cidades na China estão recuperando a vitalidade e as pessoas estão mais bem humoradas e de volta à rotina, o mercado financeiro começa a reavaliar o impacto do vírus. Aliás, dados divulgados ontem reforçam que o surto da doença no país está sob controle. 

 

Os novos casos diários da infecção respiratória fora de Hubei, epicentro da doença, caíram abaixo de 100 pela primeira vez, recuando pelo 14º dia consecutivo. No levantamento mais recente, quase 75 mil pessoas estão infectadas, sendo que 2 mil morreram e pouco mais de 14 mil se recuperaram. Ainda assim, a taxa de mortalidade do coronavírus é de 2,3%, ante taxa de apenas 0,1% para uma gripe sazonal comum. 

 

No Brasil, a essas incertezas externas somam-se as revisões em baixa para o crescimento econômico neste ano, com a alta de 2% sendo teto - e não mais piso das estimativas, bem como rumores envolvendo o ministro Paulo Guedes e a reforma administrativa. Como resultado, a Bolsa brasileira devolveu ontem parte da alta registrada no dia anterior, enquanto o dólar foi além da faixa de R$ 4,35, cravando um novo recorde nominal em relação ao real.

 

Ata do Fed e Petrobras em destaque

 

Para não falar só de vírus, a agenda econômica desta quarta-feira traz como destaque, no Brasil, o balanço financeiro da Petrobras referente ao quarto trimestre de 2019 e ao acumulado de todo o ano passado, após o fechamento dos mercados. A previsão é de um resultado sólido, diante do aumento da produção e da queda nos custos.  

 

Já no exterior, o destaque fica com a publicação da ata da primeira reunião do Federal Reserve neste ano, realizada no mês passado. O documento será divulgado às 16h, mas não deve trazer novidades em relação ao comunicado que acompanhou a decisão de política monetária nem às recentes observações do presidente do Fed, Jerome Powell.  

 

Entre os indicadores econômicos, nos EUA, saem o índice de preços ao produtor (IPP) e dados sobre a construção de moradias, ambos às 10h30 e referentes ao mês de janeiro. No Brasil, saem a prévia da confiança da indústria em fevereiro (8h) e os dados semanais sobre a entrada e saída de dólares (fluxo cambial) do país (14h30).

 

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