Mercado ferido busca por alívio

10.12.2018

 

 

O cenário internacional está sendo desafiado pelos sinais emitidos pelos ativos de risco e pelos indicadores econômicos. Se por um lado, os investidores estão “readequando” as apostas para a alta da taxa de juros nos Estados Unidos; por outro, também é importante compreender que menos aperto monetário reflete um crescimento econômico menor.

 

Com isso, o mercado financeiro fica espremido entre as duras realidades de uma prolongada guerra comercial com a China, enquanto espera que o Federal Reserve recue do viés de aumento do custo do empréstimo. A falta de clareza sobre a disputa entre as duas maiores economias do mundo e sobre o plano de voo do Fed tem deixado os negócios voláteis.

 

Os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram em queda, caminhando para mais um dia de perdas, que devem aprofundar o Dow Jones e o S&P 500 no vermelho no acumulado de 2018, faltando cerca de três semanas para o fim do ano. O sinal negativo em Wall Street deve impactar a abertura no pregão europeu e reflete as baixas na Ásia.

 

As bolsas de Xangai e de Hong Kong caíram cerca de 1%, ao passo que Tóquio cedeu mais de 2%, em meio à valorização do iene em relação ao dólar. A moeda norte-americana também perde terreno para os rivais europeus, como o euro e a libra, e as divisas correlacionadas às commodities, como o xará australiano. Mesmo assim, o petróleo também cai.

 

O movimento do dólar reflete o recuo do rendimento (yield) do título dos EUA de 10 anos (T-note) para o menor nível em quatro meses. É bom lembrar que a inversão da curva de juros norte-americana é mais um fator de preocupação no mercado financeiro, diante dos sinais de desaceleração econômica - quiçá recessão - que o achatamento dos bônus mais longos emite.       

 

E essa desaceleração ganha um vetor a mais com a guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo, com impacto em vários outros países. A trégua de 90 dias assinada entre os líderes Donald Trump e Xi Jinping não deve ter vida longa, após a prisão da diretora-financeira (CFO) da Huawei, Meng Wanzhou, em Vancouver no início deste mês.

 

Um dia depois de convocar o embaixador da China no Canadá, o vice-ministro das Relações Exteriores chinês, Le Yucheng, chamou o embaixador dos EUA na China, Terry Branstad, para protestar contra a prisão da filha do fundador da Huawei, pedindo a revogação. Ele disse que Pequim irá tomar medidas “mais profundas”, se necessário.

 

Washington alega que a empresa chinesa de telecomunicações violou sanções contra o Irã. Segundo os EUA, Meng teria escondido relações entre a Huawei e a Skycom, companhia que teria laços com Teerã. Ela passou o fim de semana na cadeia e ainda não há decisão sobre o pagamento de fiança nem a extradição. O caso deve ter continuidade nesta segunda-feira.

 

Há quem diga que a prisão de Meng pode ser um mero pretexto para um melhor acordo comercial dos EUA com a China. Mas o episódio revela uma perigosa nova dimensão do embate sino-americano, que não se refere apenas ao aumento de tarifas contra produtos, mas a uma disputa pelo domínio da indústria de alta tecnologia.

 

Afinal, a Huawei é a segunda empresa chinesa de telecomunicações a sofrer acusações dos EUA - a primeira foi a ZTE, em 2017. Esse duelo entre EUA e China é capaz de intensificar a perda de tração da economia global no ano que vem. O problema é que se essa desaceleração for mais acentuada - e espalhada - pelo mundo, o cenário se torna mais desafiador.  

 

Daí então que, até compreender qual deve ser a intensidade dessa perda de força da economia global, a volatilidade tende a imperar no mercado financeiro. Os dados da balança comercial chinesa divulgados no sábado mostram sinais de enfraquecimento da demanda global, ao mesmo tempo em que reforçam as incertezas de solução da guerra comercial.

 

Afinal, o superávit da China com os EUA renovou o recorde em novembro, alcançando US$ 35,6 bilhões, após uma alta de 9,8% das exportações e queda de 25% nas importações, em base anual, em meio a antecipações de negócios por causa do receio de aumento de tarifas.

 

Já com o restante do mundo, os embarques de produtos chineses cresceram menos que os 10% esperados, em 5,4%, em termos dolarizados, enquanto as compras feitas para território chinês subiram 3%, também abaixo da previsão de 14,4%. Em outubro, as altas haviam sido de 15,6% e de 21,4%. Ainda assim, o saldo comercial ficou positivo em US$ 44,7 bilhões - o maior deste ano - bem acima da previsão de US$ 33,5 bilhões.  

 

Do lado da inflação, os preços nas fábricas (PPI) chinesas perderam força e subiram 2,7% em novembro, em relação a um ano antes, no ritmo mais lento em dois anos, em meio à queda nos preços das commodities, o que pode sinalizar uma redução no lucro das indústrias. Já a alta dos preços ao consumidor (CPI) segue moderada, em +2,2%, abaixo do esperado.

 

Índices de preços ao produtor e ao consumidor no mês passado também  serão conhecidos nos Estados Unidos, amanhã e quarta-feira, respectivamente. Na sexta-feira, saem dados sobre a atividade na indústria e no comércio em novembro. Hoje, é divulgado apenas o relatório Jolts sobre o total de vagas de emprego disponíveis em outubro.   

 

Do outro lado do Atlântico Norte, merece atenção a decisão da Justiça Europeia hoje sobre a possibilidade de recuo unilateral do Brexit pelo Reino Unido, que será feita dias antes da votação do acordo no Parlamento britânico. Na zona do euro, destaque para a decisão do Banco Central Europeu (BCE) na quinta-feira, quando deve confirmar o fim do programa de estímulos monetários, elevando as dúvidas sobre o ritmo da atividade na região.

 

Porém, se o cenário de desaceleração acentuada nos próximos meses não se confirmar, com os países desenvolvidos sofrendo apenas um pouso suave nesta fase do ciclo econômico, as economias emergentes tendem a ser beneficiadas, com os ativos de maior risco atraindo recursos estrangeiros, em busca de rendimentos mais atrativos.

 

O Brasil pode ser um dos principais aportes, com o cenário inflacionário se colocando como um vetor positivo. Aliás, a queda maior que a esperada do índice oficial de preços ao consumidor (IPCA) em novembro reforçou a percepção de que o Banco Central pode demorar mais tempo para subir a taxa básica de juros.

 

Hoje, o calendário doméstico traz as tradicionais divulgações do dia: Pesquisa Focus (8h25) e balança comercial semanal (15h). O relatório semanal do mercado financeiro junto ao BC deve manter a melhora nas estimativas para a inflação, após os resultados negativos dos índices de preços em novembro, mas piora nas previsões para crescimento e o dólar.

 

A grande dúvida fica com a projeção para o comportamento da Selic em 2019, após uma ala crescente alimentar expectativas de que o Comitê de Política Monetária (Copom) poderia voltar a cortar o juro básico em breve. Embora seja precipitada, essa expectativa abriu espaço para um ciclo menor de aperto monetário no ano que vem, com a taxa ficando abaixo de 8% - se é que vai mesmo subir.

 

Aliás, o Copom reúne-se nesta semana para anunciar a última decisão do ano sobre a taxa básica de juros, na quarta-feira. A previsão é de que a Selic seja mantida no piso histórico de 6,50% pela sexta vez, depois de o ciclo de cortes ter sido interrompido em maio. No comunicado, o BC pode reforçar a percepção de juros baixos por tempo prolongado.

 

A agenda econômica brasileira desta semana também traz como destaque dados de atividade nos setores do comércio e de serviços em novembro, na quinta e sexta-feira, respectivamente, além dos números atualizados da safra agrícola neste e no próximo ano, amanhã. Também merece atenção o primeiro IGP deste mês, o IGP-10, na sexta-feira.

 

No front político, o presidente eleito, Jair Bolsonaro, indicou o vigésimo segundo - e último - ministro que faltava para a composição da Esplanada dos Ministérios a partir do ano que vem. Trata-se de Ricardo Salles, do Movimento Endireita Brasil e do Partido Novo, que irá ocupar a Pasta do Meio Ambiente.

 

O anúncio feito ontem parece mais uma estratégia para desviar o foco do noticiário em torno de movimentações financeira atípicas que envolvem a esposa, Michelle, e um dos filhos de Bolsonaro, Flávio, citadas em relatório do Conselho de Controle de Atividade Financeiras (Coaf). Segundo o presidente eleito, o ex-assessor do filho Fabrício José de Carlos Queiroz irá explicar à Justiça como movimentou mais de R$ 1,2 milhão em um ano, em contas bancárias que também envolvem mulher e filhas do ex-assessor, entre outros.

 

Trata-se de um ruído de curto prazo, mas que pode afetar o ambiente político - e econômico - no Brasil, antes mesmo da posse do novo governo. A diplomação de Bolsonaro na Justiça Eleitoral (TSE) acontece hoje, em meio a esse desgaste.

 

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