Mercado entre vírus e estímulos


O fim de semana foi marcado por um novo número recorde de infectados pelo coronavírus no mundo, puxado pelo registros diários nos Estados Unidos, Brasil e Índia - que, aliás, tornou-se o terceiro país a superar a marca de 1 milhão de casos da doença. O trio somou mais de 60% do total de contaminações pela covid-19 e mostra que o avanço da pandemia continua sendo um obstáculo à recuperação da economia global.


Mas enquanto o vírus segue no comando em alguns países, a China deu sinais de resiliência na semana passada e mostrou uma verdadeira recuperação em “V” da atividade no trimestre passado, após sofrer com o primeiro surto de covid-19 no início do ano. Além de evitar cair em recessão, o crescimento econômico do país reverteu toda a queda do período anterior, crescendo a metade do que vinha registrando até o fim do ano passado.


E é a esse cenário que o mercado financeiro está atento. Após a pandemia nivelar todos os países com a paralisação da atividade e do consumo por causa das medidas para conter a disseminação da doença, o ritmo de retomada será definido pela eficácia de cada governo no combate ao coronavírus. E o quadro que se desenha coloca em campos antagônicos as duas maiores economias do mundo, o que tende a elevar a tensão geopolítica.


A escalada da relação sino-americana já foi sentida na semana passada, com Washington impondo sanções contra indivíduos, bancos e empresas, seja por causa da atuação de Pequim sobre Hong Kong ou em relação à minoria étnica em Xinjiang. Também houve declarações envolvendo a tensa situação no Mar do Sul da China. Em contrapartida, o governo chinês retaliou, lançando sanções sobre empresas e legisladores dos EUA.


A perspectiva é de que essa “guerra fria” entre EUA e China esquente, à medida que se aproxima a disputa pela Casa Branca. A quatro meses do pleito, a reeleição de Donald Trump já não é mais dada como certa, o que aumenta a verborragia do republicano contra inimigos externos e internos. Além do alvo na Ásia, o republicano também tem mirado no médico e especialista Anthony Fauci, diante do fracasso em combater a pandemia no país.


Os EUA estão no topo da lista global de infecções por coronavírus, com quase 4 milhões de casos e mais de 140 mil mortes. Logo atrás está o Brasil, com mais de 2 milhões de contaminados e quase “um Maracanã lotado” de óbitos. Por aqui, os investidores continuam apostando na agenda de reformas e no ajuste fiscal para a retomada do crescimento econômico. A bola da vez é a reforma tributária, que deve chegar ao Congresso amanhã.


Mas a falta de clareza sobre a duração da doença no Brasil, a elevada capacidade ociosa da atividade, a queda no consumo em meio ao aumento do desemprego e a falência e/ou rombo no caixa das empresas dificultam os planos do governo. Portanto, não se pode descartar o risco de que haja um retrocesso, seja nos ânimos entre Executivo e Legislativo, seja na retomada da atividade por causa da evolução da crise sanitária no país.


Entre vírus e estímulos


Em meio a tudo isso, os sinais emitidos pelas bolsas de valores não são os mais críveis, pois são “maquiados” pela liquidez sem precedentes jorrada pelos bancos centrais. O Ibovespa terminou a semana passada nos níveis pré-pandemia, apesar de os “gringos” retirarem até julho mais que o dobro de recursos sacados da renda variável local em todo o ano passado. O movimento se assemelha ao de Wall Street, onde os índices de ações também estão mais de 60% acima das mínimas do ano.


Pode-se dizer, no máximo, que o mercado financeiro mudou de fase, abandonando o modo pânico. Mas a discussão sobre a velocidade da retomada econômica global, que ainda é desconhecida, é mais evidente nos negócios com títulos, que prenuncia cada vez mais dúvidas sobre o ritmo da recuperação e sinaliza que o crescimento ficará abaixo do normal por algum tempo, à medida que novos casos do vírus ameaçam os planos de reabertura.


Em outras palavras, os sinais de exuberância nas ações são abundantes, mas a pandemia mantém a renovada pressão sobre o crescimento econômico. Com isso, a queda nos rendimentos (yield) dos bônus soberanos é acompanhada pela busca por proteção em ativos seguros, como o ouro, ao mesmo tempo em que as bolsas avançam, com a temporada de balanços intensificando o diferencial de desempenho entre os diferentes setores.


Nesta manhã, porém, os índices futuros das bolsas de Nova York estão no vermelho, apagando os ganhos registrados durante a noite, com os investidores monitorando o aumento de casos de coronavírus nos EUA, enquanto aguardam a divulgação de mais resultados trimestrais de empresas nesta semana, incluindo Tesla, Microsoft e Intel.


Na Europa, as principais bolsas também abriram em queda, ainda acompanhando a discussão de líderes da região sobre um fundo de resgate financeiro em resposta à crise econômica causada pela pandemia. A reunião de dois dias em Bruxelas se transformou em um encontro de quatro dias, o que levanta dúvidas sobre o desfecho das negociações.


Ainda assim, o euro se fortalece em relação ao dólar e é cotado no maior nível em quatro meses, com os investidores alimentando esperanças de que algum acordo entre os líderes europeus seja alcançado. A expectativa é de que seja anunciado um pacote de estímulos de 750 bilhões de euros.


Já na Ásia, a sessão foi mista, com leve queda em Hong Kong (-0,1%), diante do número recorde de infecções por coronavírus, o que exigirá que as pessoas trabalhem em casa e o uso de máscaras em todas as áreas internas compartilhadas. Xangai, por sua vez, deu um salto de mais de 3%, enquanto Tóquio ficou de lado (+0,1%).


Ou seja, após três semanas de ganhos das ações globais, os investidores avaliam a possibilidade de estímulos monetários e fiscais adicionais, à medida que a pandemia continua impactando muitas economias. O cenário básico de recuperação rápida e acentuada em “V” dá lugar a uma retomada mais lenta e instável, o que deixa os ativos de risco vulneráveis a uma correção, ainda mais com temporada de balanços em foco. Novos bloqueios em alguns países e as eleições presidenciais dos EUA são os principais reveses.


Semana de agenda (muito) fraca


Não fossem os indicadores a serem conhecidos na sexta-feira, a agenda econômica desta semana estaria totalmente sem destaques. Mas nesse dia, saem as prévias do mês sobre a inflação ao consumidor no Brasil e sobre a atividade nos setores industrial e de serviços nos EUA e na zona do euro.


Enquanto o IPCA-15 servirá para calibrar as expectativas em relação ao rumo da taxa básica de juros em agosto, sendo que a chance de um “ajuste residual” vem perdendo espaço, as leituras preliminares dos índices dos gerentes de compras (PMI) nos dois lados do Atlântico Norte podem lançar luz sobre o ritmo da atividade no início deste semestre.


Merecem atenção ainda o índice de confiança do consumidor brasileiro em julho, que também sai na sexta-feira, e a leitura preliminar do mês da confiança da indústria nacional, na quarta-feira. Lá fora, tem também a prévia da confiança do consumidor na zona do euro e dados do setor imobiliário norte-americano, ao longo da semana.


Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia:

*Horários de Brasília


Segunda-feira: A semana no Brasil começa trazendo apenas as tradicionais publicações do dia, a saber, o relatório de mercado Focus, do Banco Central (8h25), e os dados parciais da balança comercial em julho (15h). No exterior, o calendário econômico está esvaziado.


Terça-feira: A agenda econômica segue fraca no Brasil e no exterior, trazendo apenas o índice regional de atividade em Chicago no mês passado.


Quarta-feira: Ainda sem destaques, a agenda do dia traz dados parciais de julho sobre a confiança da indústria nacional e sobre a entrada e saída de dólares (fluxo cambial) do Brasil. Lá fora, saem os números semanais sobre os estoques de petróleo nos EUA e sobre o setor imobiliário norte-americano.


Quinta-feira: O dia é de agenda novamente fraca no Brasil, enquanto no exterior saem a leitura preliminar deste mês do índice de confiança do consumidor na zona do euro e os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos nos EUA.


Sexta-feira: A semana termina, enfim, trazendo um destaque no calendário doméstico, com a divulgação da prévia deste mês do índice oficial de preços ao consumidor brasileiro (IPCA-15). Ainda por aqui, também será conhecido o índice de confiança do consumidor em julho. No exterior, saem leituras preliminares do mês sobre a atividade na indústria e no setor de serviços nos EUA e na zona do euro, enquanto no Japão é feriado.


*Durante o mês de julho, a Bula do Mercado será semanal, publicada somente às segundas-feiras. Os textos voltam a ser diários em agosto.


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