Mercado entre a esperança e o medo

11.05.2020

 
O fim de semana foi definido pela marca sombria de 4 milhões de pessoas infectadas pelo novo coronavírus no mundo e com o Brasil ultrapassando a faixa de 10 mil óbitos por Covid-19. Mas o mercado financeiro está mesmo atento é na retomada da economia na Europa, com França e Espanha vivendo hoje o primeiro dia após o confinamento. Os Estados Unidos também promovem uma reabertura gradual das atividades, o que alimenta esperança de que o pior da pandemia já ficou para trás. 

 

O problema é que a cidade chinesa de Wuhan, onde a doença surgiu, registrou cinco novos casos desde sábado, pela primeira vez em mais de um mês, fazendo aparecer o fantasma de uma segunda onda de contágio. A cidade de Shulan, no noroeste da China, na província de Jilin, foi bloqueada ontem. Ainda na Ásia, a Coreia do Sul também se viu forçada a fechar bares e clubes noturnos, diante do novo aumento de casos.     

 

Esse temor de um novo surto do coronavírus se contrasta com o desempenho relativamente favorável dos ativos de risco, em meio às "injeções monetárias" dos bancos centrais, lideradas pelo Federal Reserve. Wall Street conduz o movimento global, descolando-se do desastre econômico nos Estados Unidos e se apoiando na perspectiva de recuperação econômica global, apesar de a pandemia ter dizimado o boom do emprego na última década e levado um número crescente de empresas à falência.   

 

A questão é que se ainda não se sabe a duração da propagação do vírus no mundo, a profundidade do impacto dessa calamidade na economia também é desconhecido. Assim, os preços dos ativos globais não refletem essa realidade. Até porque há uma “sopa de letrinhas” para os cenários de recuperação econômica, com formatos possíveis em “V”, “W”, “U” ou “L”. Nessa disputa, a letra “D”, de depressão, também ganha força. 

 

Mas eis que surge mais uma consoante do alfabeto: o “R”. Há quem diga que as consequências econômicas após a catástrofe do coronavírus irão resultar em uma “Grande Repressão”, que pode ser ainda mais feia que a “Grande Recessão” no pós-crise financeira de 2008, com a taxa de desemprego atingindo patamares mais elevados na casa dos dois dígitos e a deflação tomando conta dos índices de preços.

 

Tal cenário não envolve vacina nem tratamento eficaz, ao mesmo tempo em que contempla uma segunda e, quiçá, terceira onda de contágio até o próximo inverno (no hemisfério norte), agravando ainda mais a confiança de empresários e consumidores. Esse risco de um ou mais novos surtos da doença já foi mencionado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 

 

Rali continua

 

Ainda assim, os índices futuros das bolsas de Nova York dão continuidade ao rali observado na semana passada e sinalizam mais um dia de ganhos hoje. As principais bolsas europeias também estão otimistas com o fim das restrições e bloqueios por causa do coronavírus, o que contagiou as praças asiáticas, que fecharam em alta - exceto Xangai. Já o petróleo recua, enquanto o dólar ganha terreno frente às moedas rivais.  

 

De um modo geral, os investidores relegam os dados sombrios sobre emprego e atividade no mundo e alimentam esperança na recuperação global, precificando o cenário pós-pandemia. Esse otimismo cresce à medida que a China e outros países começam a reviver suas economias. Mas com o número de casos da doença ainda subindo nos EUA e, mais notavelmente, África, Brasil e Rússia, a retomada pode estar um pouco distante...

 

O próprio presidente norte-americano, Donald Trump, está tentando convencer os cidadãos de que é seguro voltar ao trabalho e à vida social, ao mesmo tempo em que um caso de Covid-19 se aproxima da Casa Branca. O vice-presidente do EUA, Mike Pence, foi infectado pelo coronavírus, mas ele não ficará em quarentena. Outros dois funcionários da Casa Branca também teriam testado positivo para a doença.    

 

Aqui no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que era fake o churrasco, mas voltou a dizer, durante passeio de jet ski, que 70% da população do país será infectada pela doença. Considerando-se que 15% das infecções resultam em casos graves e, destes, mais da metade dos quadros críticos e cerca de 20% dos severos podem levar o paciente à óbito, o presidente estaria repetindo que mais de 5 milhões de brasileiros serão mortos pela doença - e ele nada pode fazer.

 

A ver, então, como esse desempenho no exterior irá influenciar os negócios locais hoje, após encerrarem a semana passada com valorização. O Ibovespa reconquistou a faixa dos 80 mil pontos, ao passo que o dólar encerrou cotado abaixo de R$ 5,75. Já os juros futuros retiraram prêmios, diante da perspectiva de Selic abaixo de 3% no mês que vem.  

 

Semana tem de tudo um pouco

 

Aliás, a agenda econômica desta semana está carregada de eventos e indicadores relevantes, no Brasil e no exterior. Por aqui o destaque fica com a ata da reunião deste mês do Comitê de Política Monetária (Copom), que surpreendeu ao cortar a Selic em 0,75 ponto e sinalizar uma queda adicional, não maior que a anterior, na próxima reunião, em junho.

 

O documento pode trazer detalhes sobre a discussão entre os membros do Copom durante o encontro, com alguns avaliando que um corte ainda maior (de 1 ponto? 1,5 ponto?) era mais adequado. Como pano de fundo, o Banco Central deve frisar, na ata, que está agindo para minimizar as sequelas a serem deixadas pela crise do coronavírus.

 

Além da ata do Copom, que será divulgada amanhã, também merecem atenção os dados sobre a atividade doméstica em março, que tendem a indicar os primeiros impactos da pandemia no ritmo da economia. Na mesma terça-feira, sai o desempenho do setor de serviços e, no dia seguinte, é a vez das vendas no varejo brasileiro. 

 

Ambos os setores estão entre os mais atingidos pelas medidas de isolamento social e os números já devem refletir o início da quarentena no Estado de São Paulo, no fim de março. No exterior, também serão conhecidos dados sobre a indústria e o varejo na China e nos Estados Unidos, no fim da semana, referentes ao mês de abril.

 

As duas maiores economias do mundo também informam seus respectivos índices de preços ao consumidor (CPI) e ao produtor (PPI), a partir de hoje. Já na zona do euro, destaque para o desempenho da indústria em março (quarta-feira) e para os dados preliminares do Produto Interno Bruto (PIB) no início deste ano, na sexta-feira.   

 

De volta ao Brasil, a temporada de resultados corporativos e o noticiário político também estão no radar. A partir de hoje, ministros e delegados irão depor sobre a suposta interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal. Eles estavam presentes na reunião ministerial, cuja íntegra da gravação está sob sigilo. Na safra de balanços, destaque para os demonstrativos contábeis da Petrobras, na quinta-feira.

 

Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia: 

*Horários de Brasília

Segunda-feira: A semana começa com a divulgação das tradicionais publicações domésticas do dia, a saber, o boletim Focus do Banco Central (8h25) e os dados da balança comercial referentes ao mês de abril (15h). No front político, devem ser ouvidos hoje o diretor-geral da Abin, Alexandre Ramagem, que teve a indicação para a direção-geral da PF barrada, e o delegado Ricardo Saadi, que deixou a superintendência do Rio em agosto de 2019. No exterior, o calendário econômico está esvaziado, trazendo apenas índices de preços ao consumidor e ao produtor chinês em abril, no fim do dia. 

 

Terça-feira: A agenda doméstica está repleta de divulgações relevantes, mas o destaque fica com a ata da reunião da semana passada do Copom. Entre os indicadores, merece atenção o desempenho do setor de serviços em março. Ainda no Brasil, saem a primeira prévia deste mês do IGP-M e os dados atualizados da safra agrícola. Já a PF deve ouvir, no Palácio do Planalto, os ministros Augusto Heleno (Segurança Institucional); Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo). Lá fora, será conhecido o índice de preços ao consumidor dos EUA.    

 

Quarta-feira: Mais um indicador sobre a atividade doméstica será conhecido hoje, desta vez, referente às vendas no varejo em março. Também merece atenção o desempenho da indústria na zona do euro no mesmo período. Nos EUA, saem os estoques semanais de petróleo bruto e derivados, além do índice de preços ao produtor. Mas o destaque fica com um discurso do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell. Na cena política, são esperados os depoimentos da deputada Carla Zambelli (PSL) e dois delegados.

 

Quinta-feira: A agenda econômica doméstica perde força, o que desloca as atenções para a safra de balanços, que traz o resultado trimestral da Petrobras, após o fechamento do pregão. Já a PF conclui a rodada de depoimentos ao ouvir mais um delegado hoje. Entre os indicadores, no exterior, o foco continua nos pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos nos EUA. No fim do dia, a China anuncia dados sobre a atividade na indústria e no varejo em abril, além dos investimentos em ativos fixos. 

 

Sexta-feira: A semana chega ao fim trazendo como destaque mais dados de atividade. No Brasil, sai IBC-Br de março. Já nos EUA, será conhecido o desempenho da produção industrial e das vendas no varejo em abril, enquanto a zona do euro informa  os números preliminares do PIB nos três primeiros meses deste ano. Também será divulgada a leitura preliminar da confiança do consumidor norte-americano neste mês. 

 

 

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