Mercado ainda enfrenta o vírus

10.07.2020

 
O aumento de casos de coronavírus nos Estados Unidos e em outros países, como o Brasil, está deixando o mercado financeiro preocupado. O receio dos investidores é de que a necessidade de controlar a pandemia obrigue os governos a reverem seus planos de reabertura da atividade, retomando as medidas de bloqueio (lockdown) e de isolamento social, fazendo desaparecer a recente recuperação econômica.

 

E esse risco de períodos intermitentes de paralisação da economia global pesa sobre os ativos hoje, com os investidores evitando se expor à medida que o fim de semana se aproxima. O alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS), de que a pandemia segue acelerando e está fora de controle, com o mundo registrando um milhão de novos casos de covid-19 a cada sete dias, serve de lembrete que ainda é necessário combater a doença.   

 

Com isso, os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram em queda, dando continuidade às perdas registradas ontem em Wall Street, enquanto as praças europeias apagaram o sinal negativo visto logo na abertura do pregão e exibem ganhos nesta manhã, deslocando o foco para o noticiário corporativo. Na Ásia, a Bolsa de Xangai interrompeu uma sequência de oito altas seguidas e caiu quase 2%, com o fluxo de venda vindo de fundos estatais sinalizando que o rali recente foi longe demais. Hong Kong também perdeu quase 2% e Tóquio cedeu pouco mais de 1%.

 

Nos demais mercados, percebe-se uma ligeira aversão ao risco, mas o apoio monetário e fiscal dado por bancos centrais e governos de países desenvolvidos inibe uma busca desenfreada por proteção (hedge). O ouro, por exemplo, está estável acima da faixa de US$ 1,8 mil por onça-troy, ao passo que o juro projetado pelo título norte-americano de 10 anos (T-note) está abaixo de 0,6% e o dólar mede forças em relação às moedas rivais. Já o petróleo cai, com o barril do tipo WTI cotado abaixo de US$ 40.  

 

Pandemia x Atividade

 

Esse comportamento no exterior tende a prejudicar o mercado doméstico, tal qual visto ontem. O Ibovespa até que beliscou os 100 mil pontos durante o pregão, mas acabou cedendo ao sinal negativo no exterior - exceto Nasdaq. O noticiário sobre a evolução dos casos de coronavírus nos EUA, que pode retardar o processo de recuperação da economia, e envolvendo o presidente Donald Trump, que vive situação complicada na campanha eleitoral contra o rival Joe Biden, pesou nos negócios. 

 

Mas a principal dúvida ainda é em relação à recuperação econômica após a reabertura da atividade. Com os EUA batendo recorde de casos diários por covid-19 e o Brasil somando mais de mil mortes pela doença há mais de um mês, segundo critérios internacionais, a pergunta é se a economia será capaz de manter o ritmo de retomada na ausência de uma solução estrutural para a pandemia. E o temor é de uma reversão das medidas de flexibilização do isolamento social. 

 

Apesar de ter ficado claro que a primeira fase da recuperação ocorreu em forma de “V” no mundo, com uma melhora rápida e acentuada dos indicadores econômicos nos últimos dois meses após o tombo histórico no bimestre anterior, esse movimento pode não ser sustentável olhando-se para frente. O risco, portanto, é de que o processo de retomada seja paralisado pela evolução da doença. 

 

Mas isso tende a ser algo desigual. Daí que os países que conseguiram combater o vírus e controlar novas ondas de contágio de forma eficaz podem largar na frente - desde que superem os desafios da demanda interna, que deve ser impactada pelo desemprego elevado, e também externa, afetando as relações comerciais de bens e serviços no mundo - logo, o fluxo global de recursos. 

 

Ou seja, se, de início, a preocupação era com um eventual choque de oferta, com a pandemia podendo colocar em risco toda a cadeia global de suprimentos, o cenário tende a ser mais apreensivo do ponto de vista do consumo, com as pessoas adiando decisões de compra seja por causa da queda na renda, seja por causa da disseminação do vírus. Mas esse processo tende a ser heterogêneo pelo mundo.    

 

Aos poucos, portanto, o mercado financeiro no Brasil e no exterior vai se dando conta que, após um primeiro semestre de fortes emoções, a segunda metade de 2020 promete ser igualmente agitada. E a única certeza é que a volatilidade tende a ficar cada vez mais em evidência entre os ativos de risco, ainda mais em dias de agenda absolutamente escassa, em termo de indicadores e eventos econômicos.

 

IPCA em destaque 

 

Hoje, porém, o calendário econômico ganha força, ao menos no Brasil. O destaque do dia fica com o índice oficial de preços ao consumidor (IPCA), que deve interromper dois meses seguidos de deflação e subir 0,3% em junho. Ainda assim, a taxa acumulada em 12 meses deve seguir abaixo do piso do intervalo de tolerância perseguido pelo Banco Central (2,5%).

 

Os números efetivos serão conhecidos às 9h e devem calibrar as expectativas sobre o rumo da Selic na próxima reunião do BC, em agosto. Mas a chance de um corte “residual”, de 0,25 ponto, na taxa básica de juros já está abaixo de 50%, apesar da sinalização do Comitê de Política Monetária (Copom) no encontro anterior, em junho. 

 

Ainda no mesmo horário, sai o desempenho do setor de serviços em maio, que deve reforçar o cenário de recuperação após a queda recorde em abril. E é justamente essa percepção de uma retomada forte da atividade doméstica - sob o formato em “V” - que vem reduzindo a possibilidade de uma queda adicional no juro básico. 

 

Antes, ainda na agenda doméstica, sai a primeira prévia deste mês do IGP-M. Já no exterior, o calendário traz apenas o índice de preços ao produtor nos EUA (PPI) em junho, às 9h30. Na Europa, os ministros de Finanças dos ainda 27 países da União Europeia (UE) reúnem-se.

 

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