Ibope tira a prova dos nove

24.09.2018

 

O mercado financeiro brasileiro esperava começar os últimos dias de setembro já vislumbrando um cenário mais claro sobre a corrida presidencial, a duas semanas do primeiro turno. Mas a ascensão de Fernando Haddad na disputa frustra as expectativas de que Jair Bolsonaro poderia levar o pleito já no início de outubro e também parece consolidar o candidato do PT em segundo lugar. À noite, um novo levantamento do Ibope pode confirmar (ou não) essa tendência, tirando a prova dos nove.

 

Os investidores ignoraram o levantamento do Poder 360 divulgado na última sexta-feira, que indicou um empate técnico entre o candidato do PSL e Haddad, com 26% contra 22%, respectivamente, e resolveram desmontar as posições que tinham construído para se defender (hedge) de um “pior cenário”. Mas uma nova pesquisa feita por uma instituição privada pode deixar o mercado doméstico mais preocupado.

 

Segundo o BTG, Bolsonaro manteve os 33%, enquanto Haddad subiu de 16% para 23%, afastando-se de Ciro Gomes, que caiu de 14% para 10%. Em uma disputa de segundo turno, o candidato do PT reduziu a diferença contra o candidato do PSL, de 46% a 38% para 44% contra 40%, agora. O DataPoder360 também mostrou empate técnico entre Bolsonaro e Haddad no segundo turno, com 40% contra 43%, respectivamente.

 

Porém, ambas as instituições têm uma metodologia questionável e uma abrangência não muito representativa em relação ao eleitorado brasileiro. A ver, então, os números mais confiáveis do Ibope. O instituto foi a campo desde a semana passada para ouvir cerca de 2,5 mil eleitores e a nova pesquisa eleitoral servirá para tirar a prova do salto de 11 pontos apontado para Haddad na mais recente sondagem.

 

No meio da semana, o mesmo instituto deve divulgar uma nova pesquisa, desta vez, encomendada pela CNI. Já o próximo Datafolha começa na quarta-feira. Serão mais de 9 mil entrevistas em todo o país, de modo a abranger as intenções de voto também para governo do Estado e Senado. O resultado será divulgado na sexta-feira, quando termina a coleta, à noite, no Jornal Nacional.

 

Com os ajustes feitos na sexta-feira passada em meio à redução da postura defensiva dos ursos (bear market) para embolsar os lucros no período mais recente, os ativos domésticos tendem a adotar uma postura mais lateral nesta reta final das eleições, à espera de uma definição sobre a disputa. Os investidores precisam estar convencidos de que haverá um segundo turno e o embate será entre o candidato do PSL e Haddad - ou Ciro.

 

Bolsonaro não é, exatamente, o candidato dos sonhos do mercado financeiro - que tinha preferência por Geraldo Alckmin, devido ao perfil fiscalista e viés reformista. Mas a parceria com o economista liberal Paulo Guedes é um dos motivos pelo qual o capitão da reserva conquistou a simpatia dos investidores.

 

Porém, grandes são as dúvidas em relação à longevidade da relação dos dois, em meio às divergências entre eles. Após a confusão relacionada à recriação da CPMF, Guedes reduziu as atividades eleitorais e cancelou a participação em ao menos três eventos em São Paulo à plateia de investidores, além do programa “Roda Viva”, alegando “conflito de agenda”.

 

“Guru” da equipe econômica e provável ministro de Bolsonaro em uma Super-Pasta da Economia, a interdição do propalado "Posto Ipiranga", no mínimo, arranhou a imagem de Guedes. O candidato até saiu em defesa dele e apareceu em uma foto ao lado do economista, tentando minimizar o mal-estar criado na campanha presidencial.

 

“Faltou experiência política”, disse Bolsonaro, que permanece internado no hospital, mas já foi transferido para o quarto, saindo do tratamento semi-intensivo. Segundo o candidato, tudo terá de passar pelo crivo dele e afirmou, então, que é melhor falar IVA (Imposto sobre Valor Agregado) do que CPMF. Já a alíquota única de 20% para as faixas de renda “é uma boa ideia”.

 

No noticiário econômico, os eventos envolvendo o Banco Central roubam a cena nesta semana. Além do relatório de mercado Focus nesta segunda-feira (8h25), amanhã é a vez da ata da reunião de política monetária da semana passada e, na quinta-feira, do relatório de inflação referente ao terceiro trimestre deste ano.

 

Juntas, essas publicações podem calibrar as apostas em relação à redução gradual dos estímulos, sinalizada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), com a possibilidade do início do processo de alta da taxa básica de juros ainda neste ano. Ainda assim, há chances de a Selic seguir estável até dezembro e começar a subir apenas em 2019. É o resultado das eleições que deve definir o momento exato do aperto.

 

Entre os indicadores econômicos, destaque para o IGP-M de setembro e o índice de preços ao produtor em agosto, ambos na quinta-feira, além dos números atualizados sobre o desemprego (Pnad), na sexta-feira. No exterior,  o BC dos Estados Unidos também é destaque e deve anunciar o terceiro aumento deste ano na taxa de juros norte-americana, na quarta-feira.

 

Um dia depois, sai a segunda estimativa do crescimento econômico (PIB) dos EUA entre abril e junho deste ano, enquanto um dia antes é a vez do índice de confiança do consumidor norte-americano neste mês. Na sexta-feira, serão conhecidos os dados sobre a renda pessoal e os gastos com consumo em agosto.

 

Mas lá fora é a escalada da guerra comercial que preocupa os investidores, reforçando a percepção de que o alívio recente no mercado financeiro com a tensão entre as duas maiores economias do mundo era passageiro. Mais que isso, a disputa pode estar entrando em uma nova fase, afetando não apenas a economia real, mas também os ativos globais.  

 

A China recusou o convite feito por Washington para uma rodada de negociações e não enviará uma comissão especial que prepararia os assuntos que seriam discutidos pelo vice-primeiro-ministro, Liu He. Segundo Pequim, não haverá novas conversas enquanto os EUA mantiverem as ameaças de tarifação adicional nos produtos. 

 

A negativa aconteceu após sanções impostas pelos EUA contra a China, na esteira da compra de armamento russo pelo governo chinês. Moscou era o alvo, mas Pequim advertiu que poderá haver consequências se não houver uma retificação. Na capital chinesa, há uma crescente percepção de que conversas significativas com o governo Trump só serão possíveis após as eleições legislativas nos EUA, em novembro.

 

Com isso, US$ 200 bilhões em produtos chineses importados pela América serão taxados em 10% a partir de hoje, totalizando um valor de US$ 250 bilhões com taxação. Como resposta, mais US$ 60 bilhões em bens norte-americanos também sofrerão sobretaxa, o que, somados aos US$ 50 bilhões já taxados, representam 70% do total exportado pelos EUA para a China.  

 

A Bolsa de Xangai não abriu hoje, devido às comemorações pela chegada do Outono no Hemisfério Norte (中秋节), o que também manteve Tóquio, Seul e boa parte dos mercados asiáticos fechada, reduzindo o volume financeiro na região. Em Hong Kong, o pregão funcionou normalmente, com o índice Hang Seng fechando em queda de 1,6%.   

 

No Ocidente, os índices futuros das bolsas de Nova York estão em queda, penalizando o início da sessão na Europa, em meio à tensão com o cancelamento das negociações comerciais entre EUA e China. As mineradoras e montadoras lideram as perdas no pregão europeu. Os ativos de países emergentes também estão no vermelho, no primeiro recuo em uma semana, com destaque para a lira turca, o rand sul-africano e a rupia indiana. 

 

O avanço do dólar em relação às moedas emergentes e correlacionadas às commodities ocorre apesar do avanço do barril do petróleo tipo Brent para a faixa de US$ 80, após o cartel de países produtores (Opep) recusar o pedido de Donald Trump para elevar a oferta. Nos metais, o cobre recua e o ouro também.  

 

 

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