Fed antecipa decisão de juros e assusta mercados


O mercado financeiro reabre hoje após a pior semana desde 2008 em Wall Street e na Bolsa brasileira reagindo a um novo corte emergencial promovido pelo Federal Reserve na taxa de juros dos Estados Unidos, desta vez, de um ponto percentual, e digerindo uma queda sem precedentes da atividade chinesa nos dois primeiros meses deste ano.


Mas a segunda maior economia do mundo já olha para esses números pelo retrovisor, após o país conseguir encobrir (e depois conter) o coronavírus. Por isso, os investidores estão mais concentrados nas medidas efetivas adotadas por governos e autoridades para conter a disseminação da doença pelo mundo do que em ações de bancos centrais para amortecer os impactos econômicos.


Com isso, a decisão do Fed de se antecipar novamente à reunião deste mês, que aconteceria nesta semana, e anunciar mais uma queda nos juros - a segunda em duas semanas - assusta o mercado financeiro internacional hoje. O anúncio feito ontem foi ainda mais agressivo, reduzindo em um ponto percentual (pp) a taxa básica, que ficou perto de zero. Assim, a reunião que começaria amanhã e terminaria na quarta-feira foi cancelada.


Afinal, ainda não é o momento para juros negativos nos EUA, observou o presidente Jerome Powell. O Fed também quase zerou a taxa de depósito (equivalente ao compulsório bancário) e anunciou US$ 700 bilhões em um novo programa de recompra de títulos, além de ampliar para 90 dias o prazo de empréstimos. A decisão extraordinária teve apenas um voto contrário (Loretta Mester) e foi tomada devido à interrupção da atividade econômica em várias partes do mundo, incluindo nos EUA.


Mercados assustados


Mas o tiro saiu pela culatra e deixou a sensação de que a situação nos EUA (e no mundo) é muito pior do que parece, elevando o temor de recessão global. A demora da Casa Branca em agir, desperdiçando semanas para criar um plano de testes da doença, restringir a população e aprimorar o sistema de assistência médica de emergência - é responsável pela intensa volatilidade nos ativos globais hoje, o que tende a se refletir nos mercados domésticos.


Lá fora, os índices futuros das bolsas de Nova York alcançaram o limite de baixa, caindo mais de 4,5%, cada. As bolsas europeias abriram com queda de mais de 5%, após uma sessão no vermelho na Ásia. Xangai (-3,4%) e Hong Kong (-4,3%) caíram mais que Tóquio (-2,5%), com as praças chinesas reagindo aos dados de atividade no país, enquanto os estímulos adicionais do BC do Japão (BoJ) amorteceram a queda da bolsa japonesa.


A produção industrial da China tombou 13,5% em janeiro e em fevereiro, ante previsão de recuo menor, de -3,%. Da mesma forma, as vendas no varejo despencaram -20,5% no período, de -4% estimados e os investimentos em ativos fixos desabaram 24,5%, bem mais que a projeção de -2%. Os números refletem os primeiros impactos do surto de coronavírus, com medidas mais severas tendo início às vésperas do principal feriado no país.


Com isso, é certo que o Produto Interno Bruto (PIB) chinês irá registrar forte contração nos três primeiros meses deste ano em relação a igual período do ano passado pela primeira vez desde o início da série histórica, em 1989. Essa constatação somada à antecipação das decisões de política monetária do Fed e do BoJ levou à percepção de que a economia global está se deteriorando rapidamente por causa da pandemia, com as empresas sentindo a pressão da redução da atividade.


A Nike e a Apple, por exemplo, anunciaram um fechamento maciço das lojas fora da China, como prevenção ao contágio da doença a seus funcionários. Outras vêm adotando o esquema de trabalho em casa, o que reduz parte das funções. Os investidores partem, então, em busca de proteção em ativos seguros, em meio às dificuldades de traçar um cenário econômico global à frente.


Assim, o rendimento (yield) dos títulos norte-americanos (Treasuries) têm queda acelerada, ao passo que o iene avança, juntamente com o franco suíço, enquanto o dólar ganha terreno dos xáras australiano (aussie) e neozelandês (kiwi). O ouro também volta a subir, mas é cotado abaixo de US$ 1,6 mil por onça-troy, enquanto o petróleo afunda, voltando a testar a marca de US$ 30 por barril.


Dinheiro não mata vírus...


Assim, o mercado financeiro já não alimenta mais esperanças de que uma ação coordenada dos principais bancos centrais globais será capaz de evitar que o coronavírus se transforme em uma crise mais aguda. Afinal, como já dito aqui várias vezes, tais ações são inócuas se nada for feito para prevenir a disseminação do vírus.


Até porque as taxas de juros nas principais economias ocidentais já estão no chão e o balanço da maioria dos BCs, inflados. Além disso, tais medidas têm poucos (ou nenhum) efeitos nas óticas da produção e da oferta, diante do fechamento de fábricas e lojas, férias escolares, cancelamentos de eventos e adoção de quarentenas em cidades e países.


É como se o mercado se desse conta de que não adianta querer curar gangrena com curativo superficial (band-aid), ou dando placebo a um paciente terminal. E isso, em termos financeiros, gera mais volatilidade nos negócios, com os investidores tendo dificuldades para formar um “preço justo” dos ativos. Como resultado, tem-se mais oscilações violentas.


Portanto, o foco deveria estar concentrado nos esforços para evitar a propagação do coronavírus, pois há pouco o que fazer via estímulos monetários se as economias mundiais não conseguirem combater a doença. Daí que, então, é a hora de políticas fiscais, ampliando os gastos dos governos e lançando medidas públicas para superar a pandemia.


A Europa, novo epicentro da doença, registra agora mais casos diários do que a China no auge do surto. A Itália teve um número recorde de mortes em 24 horas por Covid-19, somando 368, com quase 25 mil pessoas infectadas. Na Espanha, o segundo país europeu mais afetado pela doença, o número de óbitos mais que dobrou de um dia para o outro.


Diante disso, o governo espanhol anunciou sérias restrições à mobilidade dos seus 46 milhões de habitantes. A França também tomou medidas drásticas e mandou fechar restaurantes, cinemas e estabelecimentos comerciais considerados “não essenciais”. A Alemanha, por sua vez, decidiu fechar as fronteiras do país com França, Suíça e Áustria.


… mas o vírus mata a economia


Por aqui, manifestantes ignoraram os alertas para evitar aglomerações e foram às ruas. Capitais da região Sudeste do país, além de Brasília e algumas cidades no interior paulista e também do Nordeste registraram atos a favor do governo e contra o Congresso Nacional e a Suprema Corte (STF). Até mesmo o presidente Jair Bolsonaro descumpriu o monitoramento por coronavírus e participou do ato.


Afinal, segundo ele, “cedo ou tarde” terá de se enfrentar o vírus e “muitos pegarão” a doença, independente dos cuidados. Aliás, o número de casos confirmados de coronavírus no país subiu em 79 para 200 ontem. A maioria está concentrada em São Paulo (136) e no Rio de Janeiro (24), onde já há transmissão sustentada da doença. Há ainda quase 2 mil casos suspeitos em 25 estados e no Distrito Federal.


Ou seja, enquanto os europeus enfrentam restrições draconianas na luta para não difundir o coronavírus; aqui, apoiadores e o próprio presidente se juntam em manifestações insuficientes para mostrar a força do governo, mas com risco de acelerar a curva da doença no Brasil, provocando uma crise no sistema de saúde e podendo agravar a atividade doméstica, que já vinha capengando na virada de 2019 para 2020.


Mas o presidente Bolsonaro mostrou-se contra medidas “muito rígidas”, que partem para o “histerismo” e afetam a economia real. Para ele, a economia tem de funcionar e tais ações para conter a expansão do vírus não podem paralisar a atividade, gerando desemprego, o que tende a piorar a alimentação de parte da população, “levando até a óbito”.


Daí então que, para estimular a atividade, o Banco Central deve anunciar nesta semana um novo corte na taxa básica de juros brasileira. Mas a queda da Selic para 4% - ou menos - na quarta-feira pode agravar a desvalorização do real. Na última sexta-feira, o dólar fechou em novo recorde nominal, colado à faixa de R$ 4,80, apesar de novas atuações do BC.


Aliás, o Comitê de Política Monetária (Copom) reúne-se amanhã e depois, quando anuncia a decisão sobre o juro básico. Trata-se do grande destaque da agenda econômica desta semana. Já nesta segunda-feira, o relatório de mercado Focus pode dar pistas do que esperar para as principais variáveis do país.


Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia:

*Horários de Brasília


Segunda-feira: A semana começa com as tradicionais publicações domésticas do dia, a saber, pesquisa Focus (8h25) e balança comercial semanal (15h), tendo a companhia do primeiro IGP deste mês, o IGP-10 (8h). No exterior, destaque para os dados norte-americanos sobre a atividade da indústria na região de Nova York (9h30) e o fluxo de capital nos EUA em janeiro (17h).


Terça-feira: A agenda econômica está esvaziada no Brasil, mas ganha força nos EUA, onde saem dados sobre as vendas no varejo e a produção industrial, ambos em fevereiro, além dos estoques das empresas em janeiro. Também merecem atenção o relatório Jolts sobre as contratações e demissões no país em janeiro e o índice de confiança das construtoras em março. Na zona do euro, sai o índice ZEW de sentimento econômico neste mês. Já na safra de balanços, a incorporadora XP divulga seus resultados financeiros.


Quarta-feira: O Copom anuncia sua decisão de política monetária, no grande destaque do dia, após o Fed antecipar no domingo os eventos previstos para hoje. Por aqui, o foco estará também no comunicado. Entre os indicadores econômicos, saem a segunda prévia deste mês do IGP-M, números parciais do fluxo cambial no país, dados do setor imobiliário nos EUA em fevereiro, além dos estoques semanais norte-americanos de petróleo e da leitura final de fevereiro da inflação ao consumidor (CPI) na zona do euro.


Quinta-feira: A agenda econômica doméstica volta a perder força, enquanto nos EUA saem os indicadores antecedentes de fevereiro e os pedidos semanais de auxílio-desemprego. Na Ásia, China e Japão anunciam decisões de política monetária.


Sexta-feira: A semana chega ao fim sem divulgações relevantes. No Brasil, sai a prévia da confiança da indústria em março e, nos EUA, mais dados do setor imobiliário. Já no Japão é feriado, o que mantém a Bolsa de Tóquio fechada.

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