Era uma vez um PIB chinês

17.04.2020

 
O coronavírus levou a economia da China a registrar contração no início do ano pela primeira vez desde o fim da era Mao Tse-Tung, em 1976. Mas a queda de 6,8% do Produto Interno Bruto (PIB) chinês entre janeiro e março, em relação ao mesmo período de 2019, não foi tão ruim quanto o declínio de dois dígitos previsto por alguns analistas. Nem mesmo no confronto com o trimestre anterior, o recuo foi tão grande, com o tombo sendo de -9,8%.

 

Além disso, os dados de março sobre a atividade já sugerem uma lenta recuperação do país, com a produção industrial cedendo 1,1%, bem menos que o esperado (-7,5%). Já as vendas no varejo desabaram 15,8%, muito mais que a previsão (-8%), com a taxa de desemprego urbana ainda alta (5,9%), mas abaixo do recorde de 6,2% em fevereiro, após a criação de 2,3 milhões de postos de trabalho nas cidades. 

 

Com isso, o mercado financeiro digere esses números vendo uma luz no fim do túnel, em meio à percepção de que a segunda maior economia do mundo já atingiu o fundo do poço. Esse otimismo, somado a um tratamento promissor contra a Covid-19 e aos planos de reabertura dos Estados Unidos e da Europa, impulsiona os ativos de risco no exterior.

 

O sinal positivo prevalece desde ontem em Nova York, após relatos de um remédio experimental de remdesivir desenvolvido pela Gilead Sciences no combate à doença, o que garante ganhos firmes aos índices futuros nesta manhã. As principais bolsas europeias também sobem forte com a notícia de que o medicamento permite uma recuperação rápida dos pacientes.

 

Na Ásia, a sessão foi com menos brilho, com Xangai ficando na lanterna entre os destaques positivos (+0,7%), enquanto Hong Kong subiu bem (+1,5%) e Tóquio saltou 3%. Mas o destaque de negativo fica com o petróleo, com o barril do tipo WTI caindo mais de 7%, cotado abaixo de US$ 20, ao passo que o tipo Brent apenas oscila em baixa. Já o dólar mede forças ante as moedas rivais. 

 

Sopa de letrinhas

 

Após o choque na atividade de natureza diferente de tudo o que já foi visto nos registros históricos, com a China registrando a primeira queda do PIB desde que Pequim começou a divulgar os dados trimestrais, em 1992, é cedo para dizer que o pior já ficou para trás. A percepção é de que a economia chinesa permanece em um estado frágil de recuperação.

 

Tudo indica que o cenário pós-coronavírus tem um formato em “V”, com uma acentuada recuperação econômica sucedendo um tombo profundo da atividade. Mas o fato é que não será uma tarefa fácil para a China obter uma taxa de expansão acima de zero neste trimestre, o que tende a demandar estímulos fiscal e monetário de forma rápida (e ampla). 

 

Após declarar vitória contra o vírus SARS-CoV-2, a China reabriu fábricas, lojas e outras empresas por todo o país, mas ainda deve levar meses para que a atividade retorne ao ritmo normal de produção, uma vez que o consumo (interno e externo) segue reprimido. E com milhões de desempregados no mundo, o abalo na confiança (e na renda) é duradouro. 

 

Assim, os dados da China colocam em xeque a noção de uma retomada econômica em “V" depois que as medidas de combate à disseminação do coronavírus no mundo forem suspensas. Afinal, nem todos os países irão se recuperar em conjunto (e por inteiro) após o fim da pandemia, o que tende a provocar estragos na cadeia produtiva, tornando-se um desafio para a retomada global. 

 

Daí então que a recuperação da economia mundial em um cenário pós-coronavírus possa se dar em forma de “L”. Ou seja, com a atividade se normalizando em um ritmo mais baixo após uma queda abrupta, tanto do lado da oferta quanto da demanda. E isso sem falar de uma retomada em “W”, com uma segunda onda de contágio provocando novos tremores.

 

Por ora, Pequim e o Banco Central chinês (PBoC) estão trabalhando contra o relógio. Mesmo assim, o crescimento econômico da China no acumulado de 2020 deve ficar ao redor de 3% - a metade do ano passado (+6,1%) - mas não tão baixo quanto a alta de pouco mais de 1% prevista pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para este ano. 

 

Novo normal

 

Da mesma forma, a promessa do presidente Jair Bolsonaro, ao anunciar o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, de que “a economia, o emprego tem que voltar à normalidade”, não deve ser cumprida tão cedo. Afinal, mesmo após o fim do isolamento social e a reabertura da economia brasileira, a vida não será tão normal como antes, pois há um novo normal.

 

O ponto de partida é outro, tanto do lado da renda e do (des)emprego quanto em relação à atividade econômica das empresas. Mas, acima de tudo, quase 2 mil pessoas morreram, oficialmente, vítimas de Covid-19. No total, já são mais de 30 mil casos confirmados no país, sendo que esses números podem ser bem maiores, em meio à subnotificação.

 

Assim, a mensagem que o presidente passa é de que houve um trade off entre economia e saúde. Afinal, o Brasil passa a ser o único país no mundo, entre os cerca de 180 que lutam para combater o coronavírus, que demitiu o seu ministro da Saúde, que vinha seguindo a cartilha de organizações internacionais e orientações científicas para vencer a pandemia.

 

Porém, aqui, a questão de saúde pública aflorou posições ideológicas e partidárias, transformando a doença em uma disputa política entre os Três Poderes, as esferas da federação e até mesmo dentro do próprio governo. A troca de comando no Ministério da Saúde em um momento tão crítico eleva o temor em relação ao controle da doença - que pode virar endêmica. 

 

Daí, então, que não fica difícil entender por que o Ibovespa foi o mercado que mais se desvalorizou no mundo desde que a correção teve início, em fevereiro, por que o dólar é cotado acima de R$ 5,00 há cerca de 30 dias nem por que os “gringos” já retiraram R$ 65 bilhões da Bolsa [mercado secundário] em apenas quatro meses neste ano, após sacarem o recorde de R$ 45 bilhões em 2019. 

 

Aliás, tampouco deve ser à toa o pedido feito pelas embaixadas dos EUA, Alemanha e outros países aos seus cidadãos residentes no Brasil para voltarem logo ao seus países de origem. Com certeza, esses governos e investidores estrangeiros sabem, mais do que o governo Bolsonaro e os investidores locais, o que pode estar por vir por aqui…

 

A ver, então, como o desempenho positivo dos mercados internacionais irá se refletir nos negócios locais, após a demissão do ministro Luiz Henrique Mandetta deixar um vácuo na liderança da crise de coronavírus, ainda antes do pico de casos no país. Mais que isso, os ativos domésticos terão de lidar com uma nova frente aberta por Bolsonaro, que, pouco depois da saída de Mandetta, atacou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. 

 

Agenda perde força

 

A semana chega ao fim com a agenda econômica do dia trazendo apenas a leitura final da inflação ao consumidor (CPI) na zona do euro, logo cedo, os indicadores antecedentes de março nos EUA (11h) e a segunda prévia de abril do IGP-M (8h), ao longo da manhã. Entre os eventos de relevo, o Senado vota em segundo turno o chamado “Orçamento de Guerra”.

 

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