Crise dos caminhoneiros agrava “desabastecimento” dos mercados

30.05.2018

 

O mercado financeiro no Brasil deve seguir pressionado, diante das dúvidas relacionadas ao fim da greve dos caminhoneiros e à possibilidade de paralisação das refinarias, com os petroleiros cruzando os braços a partir de hoje. O investidor tende a redobrar a cautela nesta véspera de feriado nacional, que antecipa o fim do mês de maio e fecha os negócios locais amanhã, espremendo a sessão de sexta-feira com o fim de semana, enquanto os negócios lá fora seguirão a pleno vapor.  

 

O ambiente internacional tampouco está favorável ao risco, em meio às incertezas políticas na Itália, que reacende o temor em relação a uma crise do euro. A moeda única europeia, porém, se recupera nesta manhã, saindo das mínimas do ano e voltando à faixa de US$ 1,16. As principais bolsas da região também ensaiam uma melhora, embaladas pelo sinal positivo vindo de Nova York, após uma sessão de perdas aceleradas na Ásia. O petróleo avança.   

 

Esse alívio externo pode contribuir para o desempenho dos ativos locais no último dia de maio, após terem sido duramente atacados ao longo do mês. Até ontem, a Bolsa brasileira acumulada perdas de quase 12%, o que anulou os ganhos acumulados no ano, ao passo que o dólar avança pouco mais de 5% no mês, depois de ter avançado 6% em abril, na maior alta mensal desde novembro de 2016. Em março, a moeda norte-americana subiu quase 2%.

 

Nos mercados tradicionais, faltam itens alimentícios e de higiene pessoal, em um cenário similar ao de países que sofrem desastre natural. O desabastecimento provocado pela greve dos caminhoneiros afeta, principalmente, centros urbanos do Sul e Sudeste do país, mas também se espalha para as demais regiões. Essa falta de oferta dos produtos encarece os preços dos itens que estão disponíveis, em meio à demanda do consumidor para estocar.   

 

O problema no Brasil se agravou neste mês, com o país sendo atingido pelos caminhoneiros e vivendo agora um “apocalipse do diesel”, conforme destaca uma consultoria internacional. O risco é de que a paralisação dos caminhões provoque uma crise político-institucional. Afinal, por mais que os brasileiros estejam divididos quanto ao movimento, a recusa em pagar mais caro pelo combustível é um ponto em comum a todos.

 

E um dos motivos pelo qual a população não aceita pagar nenhum centavo a mais pelo litro da gasolina - agora que o preço do diesel foi congelado por 60 dias - é que a classe política vem sendo, cotidianamente, acusada de desviar recurso público. “Antes de aumentar os impostos ou cortar subsídios, parem de desviar o dinheiro do povo para seus bolsos”, diriam as vozes nas ruas.   

 

Com isso, o temor é de que a situação migre para um cenário parecido com o de 2013, quando uma “simples” manifestação contra o aumento de R$ 0,20 na passagem de transporte público migrou para uma onda de protestos com palavras de ordem “contra tudo”, principalmente contra a classe política. Tal cenário evidencia uma situação social cada vez mais fragilizada.

 

A imprensa tradicional mantém o papel de articuladora, tentando unificar tais reivindicações, e já fala na ausência de governabilidade no Congresso e na impossibilidade de o presidente Michel Temer encerrar o mandato. O Palácio do Planalto quer uma “união anticrise”, diante da preocupação com a reação de militares, mas líderes na Câmara já falam em fim do governo.

 

Assim, enquanto o Brasil caminha em direção a uma eleição crucial, o “apocalipse do diesel” mostra o quanto o contrato social do país está quebrado. Apesar da trégua parcial com os caminhoneiros, o cenário de Mad Max continua: prateleiras dos supermercados seguem vazias, aeroportos pararam e bombas de gasolina secaram.

 

Enquanto tudo isso tenta voltar à normalidade, com os postos de combustível voltando a ser abastecidos e os alimentos voltando às mesas, o país já se prepara para uma nova crise. Os petroleiros cruzam os braços a partir de hoje, em uma tentativa de barrar a venda de mais ativos da Petrobras e em defesa da redução do preço do gás de cozinha e dos combustíveis.

 

Entidades representantes dos petroleiros buscam captar a insatisfação da população com o aumento da gasolina e do etanol nas bombas, pegando carona na greve dos caminhoneiros. Juntas, as duas federações pedem o fim da política de preços da Petrobras e a demissão do presidente da companhia, Pedro Parente.

 

O Tribunal Superior do Trabalho (TST) considerou abusiva e ilegal a paralisação de 72 horas de funcionários da Petrobras convocada para hoje, que tem “potencial grave dano” à população. Em caso de descumprimento da decisão, os sindicatos estão sujeitos a multa de R$ 500 mil por dia. A liminar foi pedida pela Advocacia-Geral da União (AGU) e pela petrolífera.

 

Em meio a todo esse noticiário, a agenda econômica doméstica perde relevância. Ainda assim, o dia reserva os números do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no início deste ano, que merecem atenção.

 

A expectativa é de que a atividade econômica tenha crescido pelo quinto trimestre consecutivo, em +0,3%, ganhando tração em relação à alta apurada ao final de 2017 (+0,1%). Em relação ao primeiro trimestre do ano passado, porém, o ritmo deve ter sido menor, de +1,4%, no quarto resultado positivo seguido nesse tipo de confronto, após avanço de 2,1% no confronto entre o início de 2017 versus o início de 2016.

 

Os números efetivos serão divulgados às 9h. De qualquer forma, os dados devem ser olhados pelo retrovisor, pois, no horizonte à frente é crescente o risco de o PIB do país crescer menos que 2,5% em 2018. Ainda mais diante do impacto da paralisação dos caminhoneiros sobre os setores produtivos e a inflação.

 

No exterior, também serão conhecidos os números do PIB dos Estados Unidos no primeiro trimestre deste ano (9h30). Porém, a segunda leitura do dado não deve trazer revisão e tende a confirmar a expansão de 2,3% da economia norte-americana na taxa anualizada do período. Antes, saem os dados sobre a criação de emprego no setor privado do país em maio (9h15).

 

O relatório da ADP é tido como uma prévia do relatório oficial sobre o mercado de trabalho nos EUA (payroll), na sexta-feira. Ainda hoje, o Federal Reserve publica o Livro Bege (15h). No fim do dia, a China informa dados sobre a atividade industrial e no setor de serviços em maio, enquanto logo cedo a zona do euro traz dados do mês sobre a confiança do consumidor.

 

Ainda no calendário doméstico, o Banco Central informa números das contas públicas em abril (10h30), com os dados sobre o resultado primário do setor público consolidado, e do fluxo cambial, sobre a entrada e saída de dólares no país (12h30) em maio até a sexta-feira passada.

 

 

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