Mercado atento à cena política

17.08.2020

 

Parafraseando James Carville e sua célebre frase durante a campanha presidencial de Bill Clinton contra Bush pai nos anos 90, “é a política (...)” que segue no foco do mercado financeiro. E não só nos Estados Unidos, mas também no Brasil. Ainda mais diante de uma agenda econômica mais fraca hoje e nos próximos dias. Afinal, soluções econômicas passam por decisões políticas.

 

E os ruídos vindos de Brasília em relação à questão fiscal podem incomodar mais os negócios, em meio à falta de sintonia entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes, que pode estar com os dias contados no governo, sendo substituído por Roberto Campos Neto, do Banco Central. Mas a segunda-feira começa com a não-notícia do fim de semana, após EUA e China adiarem a reunião sobre o acordo comercial.   

 

Autoridades dos dois países deveriam ter realizado uma videoconferência no sábado para revisar os termos da primeira fase do acordo, firmado no início do ano e em vigor há seis meses. Porém, devido a um “conflito de agenda”, com muitos líderes do Partido Comunista Chinês (PCCh) reunidos no resort à beira-mar de Baidahe, o encontro foi cancelado e nenhuma nova data foi marcada. 

 

Trata-se de mais um episódio que evidencia a piora na relação sino-americana. Até então, o mercado apostava que a escalada da tensão geopolítica não iria afetar a questão comercial. Mas sabe-se que a disputa vai muito além do comércio, envolvendo também o domínio tecnológico e até assuntos de soberania nacional, como Hong Kong e Xinjiang, com direito a sanções e retaliações - sendo as mais recentes envolvendo os apps TikTok e WeChat.

 

Isso sem falar na “guerra de narrativas”, indo desde a responsabilidade pela disseminação do coronavírus até uma retórica neo macartista que dá ares de uma nova Guerra Fria. Talvez, por isso, a liderança do PCCh preferiu reunir-se no badalado litoral norte, próximo a Pequim, para definir os pontos-chave do próximo plano quinquenal, que entra em vigor no ano que vem. E a discussão deve concentrar-se nos temas em conflito com Washington.

 

Joga y joga

 

Enquanto isso, no Brasil, após o ministro da Economia trucar o presidente, cobrando uma defesa explícita da agenda liberal-reformista em tempos de pandemia, os investidores ficaram com o pé atrás diante dos sinais contraditórios vindos do Executivo. Bolsonaro parece disposto em dobrar a aposta e adotar medidas populistas, ainda mais depois da melhora da popularidade entre os trabalhadores informais e desempregados. 

 

Isso mesmo após o país ultrapassar a marca sombria de 100 mil mortes por covid-19, sendo que quase a metade da população isenta Bolsonaro da culpa. Se conseguir manter essa avaliação positiva, crescem as chances de reeleição em 2022. Porém, Guedes teria de fazer malabarismos a contragosto para manter o auxílio emergencial, flexibilizando o “teto dos gastos públicos” - que já nasceu frágil e que balançaria com qualquer vento contrário. 

 

Se não fizer isso, não se pode descartar a saída de Guedes. Seja como for, será uma sinalização ruim ao mercado financeiro, com repercussão significativa (e negativa) nada desprezível nos ativos locais. Os investidores e economistas ortodoxos defendem o controle das despesas, mesmo com o país já quebrado e sabendo-se que a crise das dívidas será um tema global em um cenário pós-coronavírus. Mas esse jogo tem data para acabar: dia 31 a proposta do Orçamento tem de ser entregue. 

 

O mesmo não se pode dizer sobre o confronto EUA-China. Seja quem for o vencedor nas eleições em novembro, o entendimento é de que a disputa é suprapartidária, com o democrata Joe Biden também vendo Pequim como ameaça. E por mais que as pesquisas apontem a Casa Branca sob nova direção a partir de janeiro, Donald Trump segue no páreo - ainda mais em um sistema eleitoral em que os colégios definem o vencedor.

 

Volatilidade reina

 

Diante disso, a volatilidade deve reinar no mercado financeiro, ainda mais diante de uma agenda econômica magra nesta semana - porém, mesmo assim, relevante. A ata das reuniões de julho dos bancos centrais dos EUA (Fed) e da zona do euro (BCE), na quarta e quinta-feira, está em destaque. No dia seguinte, merecem atenção dados preliminares deste mês sobre a atividade na indústria e no setor de serviços dos dois lados do Atlântico Norte.

 

Aliás, os sinais de recuperação rápida e acelerada da economia global vêm perdendo força. À medida que vão ficando para trás os dados estelares de maio e junho após o tombo em março e abril, crescem as dúvidas sobre o ritmo neste semestre, pois a atividade sequer voltou aos níveis de fevereiro. Com a avalanche de famílias sem emprego e sem renda demandando mais auxílio dos governos, as incertezas criadas pela pandemia persistem. 

 

Mas nem mesmo a ausência de novidades nas negociações entre republicanos e democratas em torno de um novo pacote fiscal trilionário, que parece emperrado por causa da disputa eleitoral, impede um sinal positivo nos índices futuros das bolsas de Nova York nesta manhã. Os leves ganhos em Wall Street, porém, tentam embalar a abertura do pregão europeu, ao passo que o dólar perde força e o petróleo avança.  

 

Na Ásia, a sessão foi mista, com ganhos firmes em Xangai (+2,3%) e alta em Hong Kong (+0,7%), enquanto Tóquio caiu (-0,8%), reagindo à queda de 7,8% do Produto Interno Bruto (PIB) do Japão no segundo trimestre deste ano em relação ao período anterior. Trata-se da maior contração desde o início da série, em 1980, aprofundando-se em relação ao tombo de 4,8% nos três primeiros meses de 2020, o que configura uma recessão técnica.

 

O Japão, a terceira maior economia do mundo depois dos EUA e da China, teve um desempenho melhor que seus pares ocidentais. A economia norte-americana encolheu 9,5% no trimestre passado, em relação ao período anterior, enquanto as principais economias europeias encolheram em geral  mais de 10%, sendo que o Reino Unido lidera a fila, com um tombo de 20%.

 

Com isso, o mercado financeiro já começa a semana reagindo a novos sinais do andamento da economia sob impacto da pandemia do novo coronavírus, que registrou no sábado novo recorde de casos em 24 horas, totalizando 294 mil no mundo. No total, já são mais de 21 milhões de infecções por covid-19, sendo que mais da metade está concentrada nas Américas. 

 

Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia: 

*Horários de Brasília

Segunda-feira: A semana começa com as tradicionais publicações do dia no Brasil, a saber, o relatório de mercado Focus, do Banco Central (8h25), e os dados parciais da balança comercial neste mês (15h). No exterior, saem o índice regional de atividade em Nova York (9h30), além de dados do setor imobiliário norte-americano (11h) e sobre o fluxo de capital de/para os EUA (17h). 

 

Terça-feira: Novos indicadores sobre o setor imobiliário nos EUA recheiam a agenda, que

segue mais fraca no Brasil, trazendo apenas a segunda prévia deste mês do IGP-M.

 

Quarta-feira: A ata da última reunião do Fed é o destaque do dia. O documento será conhecido apenas à tarde. Antes, saem mais números do setor imobiliário nos EUA. Logo cedo, saem índices de preços na zona do euro e no Reino Unido. No Brasil, o calendário reserva somente os dados parciais do fluxo cambial.

 

Quinta-feira: Mais uma ata de reunião de política monetária, desta vez, do Banco Central Europeu (BCE) será conhecida hoje. Já nos EUA, saem os pedidos semanais de auxílio-desemprego e dados sobre a atividade na região da Filadélfia. Por aqui, tem a prévia da confiança da indústria neste mês.

 

Sexta-feira: A semana chega ao fim trazendo como destaque a leitura preliminar de agosto sobre a atividade nos setores industrial e de serviços na zona do euro e nos EUA, além de novos indicadores do setor imobiliário norte-americano e a confiança do consumidor europeu.

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