À espera de um milagre

29.04.2020

 
O Brasil ultrapassou a China no número de óbitos por Covid-19, somando pouco mais de 5 mil mortes, após o salto de 474 registros nas últimas 24 horas, mas o presidente Jair Bolsonaro debochou da situação do coronavírus no país. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, respondeu à pergunta de um repórter em frente ao Palácio do Alvorada, referindo-se ao personagem bíblico.    

 

Da mesma forma, os Estados Unidos alcançaram ontem 1 milhão de casos confirmados da doença, mas o presidente Donald Trump afirmou que o país só reportou essa marca simbólica porque “os nossos testes são muuuito melhores do que em qualquer outro país do mundo”. Portanto, para ele, há um problema generalizado de subnotificação no restante no mundo.

 

Ou seja, nem aqui nem na China os dados sobre a doença são confiáveis - só nos EUA! E Trump nada falou sobre o colapso na cadeia de alimentos no país, que levou a a Casa Branca a acionar a Lei de Produção de Defesa para forçar as fábricas de processamento de carne a permanecerem abertas em plena pandemia.

 

Diante desse retórica dos líderes populistas de “transformar um funeral em casamento”, o mercado financeiro também dá de ombros para a pandemia. Os investidores não demonstram preocupação com a disseminação do coronavírus no mundo nem dão credibilidade aos alertas da OMS, de que a doença está longe de acabar e que há o risco de uma segunda onda de contágio, que pode ser bem maior - tal qual foi com a gripe espanhola.  

 

O foco dos mercados está mais na reabertura das principais economias globais através da flexibilização das medidas de restrição de circulação e de isolamento social, com alguns lugares declarando “vitória” contra o vírus, ainda que o Ocidente tenha falhado no combate e no controle da Covid-19 e que o sistema de saúde esteja em colapso. 

 

Os investidores mantêm, então, o modo risk on, o que sustenta um sinal positivo nos índices futuros das bolsas de Nova York e entre as praças europeias, após uma sessão de ganhos na Ásia. Já o petróleo segue volátil e sobe mais de 10% nesta manhã, com o barril do tipo WTI valendo pouco mais de US$ 13, ao passo que o dólar está na marcha ré e perde terreno para as moedas rivais.

 

E esse ambiente no exterior deve ampliar a melhora dos mercados domésticos, em meio à percepção de alívio na cena política local, passada a turbulência após o pedido de demissão de Sergio Moro do governo e diante da ratificação da permanência do ministro Paulo Guedes (Economia) no cargo, por ora. Ontem, o Ibovespa subiu quase 4%, de volta aos 80 mil pontos, enquanto o dólar afundou 2,5%, mas permaneceu acima de R$ 5,50.

 

Agora, as atenções do dia estão voltadas para a agenda de indicadores e eventos econômicos nos EUA, que está repleta de destaques. Mas à medida que o mundo se aproxima de um fim de semana prolongado, com várias países celebrando o Dia do Trabalho na sexta ou na segunda-feira, o fôlego dos mercados tende a ser encurtado. Seja por causa de um vírus que continua circulando pelo mundo, e causando estragos econômicos, ou por uma simples perda de apetite.

 

Dia de agenda cheia

 

A agenda econômica do dia segue carregada e traz como destaque os indicadores e eventos programados nos EUA. Pela manhã, as atenções se voltam para a primeira estimativa do Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano nos três primeiros meses deste ano. A previsão é de queda de 3,5% da economia dos EUA, na taxa anualizada, representando a primeira retração do PIB do país desde 2014 e a maior desde 2009.

 

Os dados efetivos serão conhecidos às 9h30, mas devem servir apenas de “aperitivo” do que está por vir, já que as medidas de isolamento social se proliferaram nos EUA apenas na segunda metade de março, adiando os maiores impactos na atividade para o segundo trimestre deste ano. Depois, as atenções se voltam para os eventos envolvendo o Federal Reserve, à tarde, a partir das 15h.  

 

O Banco Central dos EUA deve manter a taxa básica de juros na faixa entre zero e 0,25%, onde foi colocada em meados do mês passado após reunião emergencial, mas deve ampliar o volume de recursos disponíveis em seus programas de bônus. Também devem ser anunciadas novas operações de compra de ativos e crédito, de modo a sustentar o funcionamento do mercado e a transmissão desses estímulos à economia.  

 

Mais detalhes sobre essas operações e sobre o cenário econômico dos EUA devem ser dados durante entrevista coletiva do presidente do Fed, Jerome Powell (15h30). Ainda no calendário econômico norte-americano, saem dados do setor imobiliário (11h) em março e sobre os estoques semanais de petróleo bruto e derivados no país (11h30).   

 

Por aqui, merecem atenção o resultado deste mês do IGP-M, que deve desacelerar em relação à alta apurada em março, e também a leitura final do índice de confiança da indústria, que deve cair ao menor nível da série. Ambos serão conhecidos às 8h. Depois, às 10h, é a vez do resultado das contas públicas em março. À tarde (14h30), saem os dados semanais do Banco Central sobre a entrada e saída de dólares (fluxo cambial).

 

No fim do dia, a China informa os índices dos gerentes de compras (PMI) sobre a atividade nos setores industrial e de serviços em abril. 

 

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