Os eleitos

16.11.2018

 

O mercado financeiro brasileiro abre o pregão desta sexta-feira espremida entre o feriado ontem e o fim de semana reagindo aos novos nomes que irão compor a equipe econômica de Paula Guedes. Da presidência do Banco Central, sai o ex-economista do Itaú Ilan Goldfajn e um chega um diretor do Santander, neto do polêmico Roberto Campos, outrora chamado de Bob Fields.

 

Já o atual secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, irá permanecer no cargo no governo Bolsonaro. Também no time do futuro ministro da Economia já foi anunciado o nome de Joaquim Levy, que vem do Banco Mundial para comandar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

 

Esses nomes mostram que Guedes está se cercando de economistas com formação semelhante à dele, de modo a haver convergência na condução da política econômica e de uma agenda liberal-reformista durante o mandato do presidente eleito. Guedes e Levy são Chicagos boys, enquanto Mansueto cursou doutorado no MIT, em Massachusetts.

 

Já o avô de Campos Neto é conhecido também pelo monetarismo - teoria que enfatiza o papel da política monetária para a estabilidade da economia e que foi desenvolvida, principalmente, pela Escola de Chicago. Com esse quarteto, já é possível, então, desenhar o pensamento econômico que irá pautar a equipe comandada pelo “Posto Ipiranga” de Jair Bolsonaro.

 

E esse viés de economia de mercado, que defende o setor privado capitalista, tende a agradar. Afinal, os escolhidos mostram qual é a agenda que o novo governo deve seguir - o que já merece o benefício da dúvida por parte dos investidores. Porém, os riscos de execução dessa proposta estão no Congresso, com essas medidas precisando do aval do Legislativo.

 

Ao mesmo tempo, também é importante observar o alinhamento dessa agenda econômica com o ambiente internacional. Nesse sentido, merece atenção a nomeação do novo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. O funcionário de carreira do Itamaraty é um diplomata pró-Trump, visto como um “bolsonarista” convicto, com ideias ultraconservadoras.

 

Para o novo chanceler, a mudança climática, por exemplo, é parte de uma trama do “marxismo cultural”, criado para sufocar as economias ocidentais e promover o crescimento da China. Sua nomeação, portanto, deve causar arrepios no movimento contra o aquecimento global - e não apenas a Noruega, que tem uma longa parceria com o Brasil pela preservação ambiental. Mais que isso, Araújo mostra-se partidário da visão altamente nacionalista - e antiglobalista - que o presidente dos Estados Unidos Donald Trump encampa.

 

Aliás, por lá, o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, reconheceu que alguns “ventos contrários” vindos de fora, podem impactar a economia norte-americana em 2019. Para ele, os potenciais desafios incluem a desaceleração da demanda externa - vinda do crescimento global menor e da guerra comercial - o enfraquecimento do estímulo fiscal nos EUA e o efeito defasado dos oito aumentos já promovidos na taxa de juros do país desde o fim de 2015.

 

Ainda assim, Jay, como é chamado o presidente do Fed, mostrou-se otimista com o crescimento econômico nos EUA, dizendo que o país pode crescer mais rápido. Por isso, ele observou que todas as reuniões do Fed no ano que vem “estão vivas” para possíveis altas de juros a qualquer encontro - e o mercado financeiro deve se acostumar a isso. Para dezembro, ele sinalizou que deve ocorrer o quarto e último aperto monetário deste ano.

 

Wall Street percebeu que Powell optou por tentar acalmar o mercado financeiro. Após a turbulência recente nos negócios com ações, Jay tentou passar um tom neutro - que acabou sendo percebido como suave (“dovish”). Essa percepção, somada à notícia de que a China estaria estudando uma série de potenciais concessões a serem apresentadas a Trump durante o G-20, animou os negócios com risco ontem.

 

As bolsas de Nova York subiram cerca de 1%, mas os índices futuros sinalizam queda nesta manhã, após uma sessão mista na Ásia, em meio à desconfiança de que China e EUA podem mesmo reduzir a disputa comercial. Xangai subiu (+0,4%), enquanto Hong Kong teve leve baixa (-0,1%) e Tóquio cedeu (-0,6%).  

 

Segundo o secretário do Comércio norte-americano, Wilbur Ross, os EUA ainda planejam elevar tarifas nas importações chinesas em janeiro, com Trump e o líder chinês Xi Jinping propensos a concordar apenas com uma “estrutura” para novas negociações no fim deste mês, em Buenos Aires. Para ele, tudo envolvendo o encontro no G-20 é apenas “preparatório”.

 

Entre as moedas, o destaque fica com a libra esterlina, que busca uma estabilização, um dia após ser duramente atingida pela debandada de ministros britânicos, o que colocou o Brexit de Theresa May em xeque. O euro também é pressionado pelas tensões fiscais na Itália. Já o barril do petróleo tipo WTI exibe ganhos, mas segue abaixo da faixa de US$ 57.  

Nesta sexta-feira, a agenda econômica norte-americana traz dados sobre a produção industrial em outubro (12h15) e sobre o fluxo de capital estrangeiro para os EUA em setembro (19h). Além disso, hoje é a vez do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, discursar, logo cedo.

 

Ainda no calendário europeu, sai a leitura final sobre  a inflação ao consumidor na região da moeda única no mês passado. Já no Brasil, o pregão espremido entre o feriado e o fim de semana esvazia a agenda de indicadores e eventos econômico, trazendo como destaque apenas o Índice de Atividade Econômica do Banco Central.

 

O chamado IBC-Br deve interromper três altas mensais seguidas e cair 0,20% em setembro em relação a agosto, mas avançar pela quarta vez consecutiva na comparação com um ano antes, em +1,00%. Os dados efetivos serão conhecidos às 8h30 e devem refletir o desempenho frágil dos setores industrial, de serviços e do varejo no período.

 

Com a atividade doméstica em ritmo ainda lento nesta reta final do ano e o cenário de inflação ainda benigno, sem pressão de alta nos preços, é crescente a percepção de que a  taxa básica de juros deve ficar estável por um período prolongado. O colapso nos preços do petróleo no mercado internacional e a temporada de chuvas no Brasil reforçam esse cenário.

 

Com isso, as apostas no mercado são de que a Selic não deve subir antes do segundo semestre de 2019. Ainda mais agora, com os eleitos para trabalhar junto com Guedes. Esse time dá mais tempo para o governo eleito negociar a agenda de reformas. Porém, o prazo do próximo presidente tende a ser mais curto. Se Bolsonaro não entregar algo concreto até o primeiro trimestre, as expectativas do mercado financeiro podem piorar... - e muito.

 

 

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