Mercado avalia comentários e alianças políticas

10.10.2018

 

O mercado financeiro brasileiro segue empolgado com a possibilidade de Jair Bolsonaro ser eleito e avalia que dificilmente Fernando Haddad conseguirá superar o rival, dada a diferença de quase 20 milhões de votos no primeiro turno. Os investidores seguem atentos aos comentários dos candidatos e às alianças políticas, enquanto aguardam a divulgação da pesquisa Datafolha (19h) e o primeiro confronto entre direita e esquerda - talvez amanhã.    

 

Ontem, Bolsonaro concedeu entrevista ao Jornal da Band e falou em rever a privatização da Eletrobrás “para não entregar tudo aos chineses”. Falou ainda em baixar impostos, isentando o Imposto de Renda para ganhos mensais de até cinco salários mínimos e onerando a classe média com uma alíquota de 20%. Defendeu também uma reforma da Previdência mais branda e o projeto de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos.  

 

Hoje, é a vez de Haddad falar ao Jornal da Band. Mas ontem chamou atenção o comentário do candidato do PT sobre a necessidade de uma reforma previdenciária parcial, atingindo estados, municípios e também o poder Judiciário. Questionado sobre quem seria seu ministro da Fazenda, ele esquivou e disse que, se eleito, será alguém ligado à produção - mas não será um banqueiro.

 

A movimentação dos candidatos em busca de apoio e os nomes que podem compor suas eventuais equipes de governo também estão no radar. A tendência é de que confirmado o amplo favoritismo de Bolsonaro, nas pesquisas e nos debates, o mercado financeiro brasileiro comece uma “lua de mel” com o próximo presidente, apostando na agenda liberal e reformista para o país a partir de 2019.

 

Porém, a implementação dessa pauta pode encontrar resistência no Congresso. Com vários partidos abrindo mão de apoiar qualquer um dos dois candidatos que disputam o segundo turno - como já se posicionaram PSDB, PP, DC e Novo - e o PT ou o PSL saindo derrotado na disputa, a oposição tende a desempenhar um papel importante, acirrando as discussões.

 

As executivas de Solidariedade, PDT, Podemos e Rede reúnem-se hoje e devem anunciar se apoiam algum candidato ou se irão optar pela neutralidade. A grande expectativa está em torno do PDT de Ciro Gomes, terceiro colocado na disputa presidencial e que obteve mais de 10 milhões de votos.

 

Já o PTB irá apoiar Bolsonaro; enquanto PSOL, PSB e PPL apoiarão Haddad. Ainda falta o MDB, mas o candidato do partido, Henrique Meirelles, derrotado no domingo, já afirmou que não apoiará nenhum dos candidatos no segundo turno.

 

Assim, a governabilidade pode ser difícil, seja quem for o vencedor. A sensação é de que deputados e senadores tendem a sabotar a agenda de governo, se for o Haddad, e a chantagear as propostas de Bolsonaro, se ele vencer. Nesse caso, o peso da chantagem (ou da sabotagem) pode ser maior que o da aliança.

 

Com isso, os investidores devem se preparar para vivenciar um período de elevada volatilidade, com as pesquisas, os debates e todo o noticiário eleitoral trazendo um intenso vaivém aos negócios locais. Esses altos e baixos só tendem a diminuir quando houver certeza em relação ao resultado do segundo turno das eleições e à agenda de reformas a partir de 2019.

 

É um clássico da política brasileira dizer que o segundo turno é uma nova eleição. Mas a polarização entre os candidatos, marcada pelo anti-petismo e os contrários a posturas antidemocráticas, torna o embate final bem diferente de qualquer outro desde 1989.

 

Talvez por isso, ambos os candidatos iniciaram a disputa sinalizando que devem rumar em direção ao Centro, vindo dos extremos, comprometendo-se com a democracia e com a Constituição vigente. Nesse caminho, o candidato do PT precisa ser cauteloso para não perder o apoio atual, ao passo que o candidato do PSL teria de abrir mão do discurso autoritário que sempre teve ao longo da carreira - construída em defesa da ditadura e da tortura.

 

A ver como essas questões serão tratadas na propaganda eleitoral gratuito nos meios de comunicação de massa, que começa na sexta-feira, e nos debates entre os presidenciáveis. O primeiro duelo na TV está previsto para amanhã, na tela da Band, mas vai depender de autorização médica da equipe que acompanha Bolsonaro, que ainda se recupera após o ataque a faca em ato de campanha em Minas Gerais.  

 

Já o Datafolha confirmou para hoje a divulgação da primeira pesquisa eleitoral do segundo turno. A coleta acontece nesta quarta-feira e os números serão conhecidos à noite - salvo, algum vazamento, como ocorrido com o levantamento da quinta-feira passada. Serão feitas 3.240 entrevistas para medir a repercussão do resultado do primeiro turno junto aos eleitores.

 

Entre os indicadores econômicos, a agenda segue esvaziada e sem divulgações relevantes. No Brasil, sai a primeira prévia do IGP-M deste mês e os dados parciais do fluxo cambial (12h30). Nos Estados Unidos, destaque para o índice de preços ao produtor (PPI) em setembro (9h30) e para os estoques no atacado em agosto (11h).

 

Lá fora, os mercados internacionais estão sem um rumo definido, monitorando o comportamento dos títulos norte-americanos, que dão sinais de estabilização, porém em níveis mais elevados. O juro projetado pelo papel soberano de 10 anos segue acima da faixa de 3,20%, o que mantém o vigor do dólar em relação às moedas rivais e reduz o ímpeto dos negócios com ações.

 

Os índices futuros das bolsas de Nova York estão no vermelho nesta manhã, contaminando o início do pregão na Europa, após uma sessão de ganhos na Ásia. As bolsas da China passaram a sessão de lado e encerram o dia com leves altas em Hong Kong e em Xangai. Já o dólar absorve os comentários do presidente dos EUA, Donald Trump, de que o Federal Reserve estaria subindo a taxa de juros em um ritmo muito acelerado.

 

 

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