Um candidato para chamar de seu


O mercado financeiro está à procura de um candidato, com perfil reformista e viés fiscalista, para bancar nas eleições presidenciais deste ano. Após o susto com a largada de dois dígitos do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa, na primeira pesquisa eleitoral depois da prisão do ex-presidente Lula, os investidores começaram a olhar com bons olhos a possibilidade de o Brasil ter um líder negro, depois de ter eleito uma mulher ao cargo.

Aos poucos, Barbosa vai quebrando o caráter enigmático, embora a opinião econômica dele continue sendo uma incógnita. Por ora, o jurista está tentando quebrar a resistência dentro do próprio partido e a reunião ontem à tarde, em Brasília, com as principais lideranças do PSB já foi um primeiro passo. Novos contatos devem ser feitos. Afinal, é bom lembrar, o magistrado ainda nem se lançou candidato e disse ainda não estar convencido de que deva sê-lo.

Por ora, os investidores tentam se apoiar na trajetória já conhecida dele. Nascido na pobreza e tendo trabalhado como faxineiro em um tribunal, Barbosa se tornou o primeiro juiz negro da Suprema Corte e conquistou a fama de combater a corrupção, ao ser o relator do processo do Mensalão, durante o governo Lula. A expectativa, agora, é descobrir, da boca de Barbosa qual é a visão dele sobre as questões de caráter econômico.

A falta de experiência política, no entanto, pode pesar. Até por isso, não está totalmente descartada a possibilidade de uma nova presidenta no Brasil. Afinal, também chama atenção o flerte de Marina Silva com o mercado, após os acenos dela à direita, dizendo que as reformas (tributária, previdenciária e, quiçá, política) serão tratadas com prioridade, caso seja eleita, e que não vai tirar nenhum “coelho da cartola”.

Para cair de vez na graça do mercado, a chapa poderia ser, então, Barbosa-Marina, uma vez que, em 2014, ela se uniu ao então candidato Eduardo Campos, do mesmo PSB, e aceitou ficar como vice. Mas isso tampouco é garantia de governabilidade caso tomem o poder. Já o candidato preferido pelos investidores, o tucano Geraldo Alckmin, ainda patina nas pesquisas e o noticiário negativo sobre o metrô de São Paulo pode servir de munição aos adversários.

Seja como for, o mercado doméstico está mesmo relegando o empenho da esquerda e o papel de Lula enquanto cabo eleitoral na tomada de decisão do voto do eleitor, esquivando-se da diversidade no racional da população, que não vê, necessariamente, as reformas estruturais e o ajuste das contas públicas como prioridade. Por isso, é cedo para dizer que o cenário está menos turvo e é perigoso jogar a eleição de forma otimista - para ter de vender os fatos reais no próximo ano.

Como paralelo, vale a pena citar uma pesquisa recém-divulgada nos Estados Unidos, que revela que apenas dois subgrupos são favoráveis às tarifas impostas pelo presidente norte-americano, Donald Trump, contra a China: brancos sem curso superior e eleitores rurais. Trata-se justamente da base eleitoral que colocou o republicano na Casa Branca e de quem ele espera apoio para seguir por lá depois de 2020.

Além disso, muito se tem falado sobre as eleições presidenciais no México, que acontecem em julho - portanto, antes do pleito no Brasil, e com potencial de influência por aqui. O que chama a atenção é que pela primeira vez, a disputa na segunda maior economia da América Latina não se dá entre os tradicionais partidos PAN e PRI. Na liderança das pesquisas, com quase 50%, aparece o populista de esquerda AMLO, como é chamado Andrés Manuel López Obrador.

Assim, o tema das eleições deve seguir em voga nos negócios locais por um bom tempo, com os ativos oscilando ao sabor do noticiário envolvendo os candidatos e também dos números sobre a corrida presidencial. Aliás, a próxima pesquisa de intenção de votos deve sair apenas na semana que vem, quando o Ibope divulga os números, provavelmente na terça-feira. O instituto vai a campo a partir de hoje, mas apenas no Estado de São Paulo.

Além de ficar à mercê do quadro político local, os mercados domésticos também seguem reféns da situação externa. Lá fora, o que chama a atenção é o avanço do rendimento (yield) do título dos EUA de 10 anos (T-note) para o maior nível desde fevereiro, acima de 2,90%. Esse movimento sustenta o dólar em nível global e pressiona as commodities, além de refletir, em parte, a perspectiva de que as políticas adotadas por Trump podem trazer um desequilíbrio fiscal acentuado à frente combinado com um aumento da inflação.

O receio, então, é de que a T-note avance rumo ao nível psicológico de 3%. Nas bolsas, as principais praças europeias recuam, após uma sessão negativa na Ásia, onde as ações de empresas de tecnologia e ligadas às matérias-primas lideraram as perdas. Os índices futuros das bolsas de Nova York também estão no vermelho nesta manhã, indicando mais um dia de baixa, em meio à agenda econômica esvaziada nos EUA.

Entre as moedas, destaque para a renovada onda vendedora (selloff) no peso mexicano, assim como para o recuo da libra esterlina, diante da falta de acordo sobre o chamado Brexit na fronteira irlandesa. Também merece atenção a queda da rupia indiana para o menor valor desde março de 2017, apesar dos sinais mais duros (“hawkish”) vindos do banco central local (RBI). Nas commodities, o petróleo e o cobre recuam, assim como o ouro.

Na agenda econômica do dia, destaque para a prévia da inflação oficial ao consumidor brasileiro (IPCA-15), às 9h. A previsão é de aceleração da taxa para 0,25% em abril, após leve alta de 0,10% em março, quando foi registrado o menor resultado para o mês desde o ano 2000.

Ainda assim, a taxa acumulada em 12 meses tende a seguir abaixo do piso inferior de 3% perseguido pelo Banco Central pela terceira vez, em 2,85%. A estimativa é de que os preços no varejo sigam abaixo da meta ao longo do primeiro semestre deste ano, com a inflação nos alimentos compensando os reajustes constantes nos combustíveis e nas contas de luz.

Ainda no calendário doméstico, têm a percepção dos consumidores sobre a inflação à frente (8h) e o balanço da Usiminas, antes da abertura do pregão local. No exterior, sai apenas a leitura preliminar deste mês do índice de confiança do consumidor (11h) na zona do euro.

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