A guerra de Trump


O mundo vivencia um momento sincronizado, com recuperação das principais economias desenvolvidas e fortalecimento dos países emergentes, mas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está pronto para estragar a festa, impondo restrições ao comércio global. O anúncio da tarifação do aço e do alumínio deve ser feito hoje, excluindo inicialmente Canadá e México, e os números da balança comercial chinesa tendem a servir de combustível para a retórica protecionista de Trump.

As exportações da China deram um salto de 44,5% em fevereiro em relação a um ano antes, sendo que as vendas de produtos chineses aos EUA dispararam 46,1%. Já as importações chinesas desaceleram a 6,3%, no mesmo período, o que gerou um superávit comercial para o país de US$ 33,7 bilhões. Apenas as exportações de alumínio subiram ao maior nível em três anos, ao passo que as de aço caíram 27%, pela primeira vez em dois meses.

Apesar de distorcidos por causa das comemorações do Ano Novo Lunar no início do ano, os dados divulgados na China se contrastam com os da balança comercial norte-americana conhecidos ontem. O déficit comercial dos EUA atingiu o pior resultado em nove anos, com um saldo negativo de US$ 56,6 bilhões em janeiro e os números sugerem que as exportações norte-americanas seguem sendo um obstáculo ao crescimento econômico.

Diante dessa natureza desigual no comércio, Trump vem pressionando a China a apresentar um plano para reduzir o déficit comercial com os EUA em pelo menos US$ 1 bilhão. Em janeiro, o volume de comércio entre as duas maiores economias do mundo ficou em quase US$ 36 bilhões, favorável a Pequim. Só que essa conta está longe de ser negativa a Washington.

É bom lembrar que, desde a quebra do padrão dólar-ouro, no início dos anos 1970, o mundo passou a financiar o déficit fiscal dos EUA, o que permite ao país gastar o quanto quiser, desde então. Essa carta branca dada aos governos norte-americanos desde Richard Nixon tem levado aos sucessivos aumentos do teto da dívida norte-americana, que renova recorde de tempos em tempos.

Mas quem paga essa conta não é os EUA nem os cidadãos e/ou empresas norte-americanas. Portanto, tal relação está mais para um “ganha-ganha”, do que um “ganha-perde”, como vem sustentando Trump, que alega desvantagens competitivas em relação aos concorrentes. A questão é que, em um mundo globalizado, as relações comercias não são recíprocas, especialmente quanto as tarifas são colocadas em bens de alta qualidade e baixa custo.

Só que Trump mostra ter claro desconhecimento dos princípios de economia internacional e vai levar adiante a guerra comercial, já que a aproximação entre as duas Coreias e a possibilidade de desnuclearizar a península de Pyongyang minimizaram os riscos de um conflito armado. Afinal, ainda é fresco na memória a ameaça de resposta com "fogo e fúria" feita por Trump em discurso nas Nações Unidas (ONU), mantendo o tom já conhecidos de outros presidentes republicanos que passaram pela Casa Branca.

Com isso, os investidores se preparam para enfrentar uma guerra comercial e será preciso ponderar como os países vão se posicionar, tanto em termos de retaliações aos EUA quanto em relação às ações na Organização Mundial do Comércio (OMC). A China já avisou que uma guerra comercial nunca é a solução certa e, em um mundo globalizado, é particularmente inútil, pois prejudicará o país iniciador do confronto e seus países alvo. Alíás, a retórica de Trump esbarra no poder econômico da China, maior detentora de títulos da dívida norte-americana, os Treasuries Bonds.

Por isso, a tentativa de recuperação dos mercados internacionais nesta manhã se dá envolta de um clima de cautela. Os nervos dos investidores são testados em meio aos sinais de que a Casa Branca irá tentar manter seu principal conselheiro econômico, Gary Cohn, que teria renunciado ao cargo, com saída a partir de agosto. Ainda assim, as bolsas e as commodities ensaiam ganhos, ao passo que o peso mexicano e o dólar canadense são beneficiados.

Na Europa, a reunião do Banco Central Europeu (BCE) tira a questão tarifária nos EUA do foco. Não se espera nenhuma mudança por parte da autoridade monetária em relação à taxa básica de juros na zona do euro (9h45), mas pode haver mudança na comunicação a ser feita pelo presidente do BCE, Mario Draghi, em entrevista à imprensa (10h30), indicando uma postura mais conservadora (“hawkish”) em relação à adoção de estímulos na região.

Com isso, o BCE deve sinalizar o fim do programa de compra de bônus (QE) em setembro. Trata-se do grande destaque da agenda econômica no exterior, já que nos EUA saem apenas os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos no país. No fim do dia, a China volta à cena para anunciar os índices de preços ao consumidor (CPI) e ao produtor (PPI) em fevereiro.

No Brasil, o destaque fica com os números atualizados da safra agrícola deste ano (9h), que devem confirmar uma colheita mais fraca. Antes, às 8h, saem indicadores sobre o mercado de trabalho no país em fevereiro e também a primeira prévia deste mês dos preços ao consumidor (IPC-S).

Na safra de balanços, a fabricante de aeronaves Embraer publica os resultados trimestrais antes da abertura do pregão local, ao passo que as construtoras Gafisa e MRV anunciam seus demonstrativos contábeis após o fechamento da sessão.

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